11 de novembro de 2009
Alegria e preguiça ou Brasílias
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Existe uma coisa em Brasília que é basicamente insuperável: é uma cidade com horizonte. A altura máxima dos prédios dentro do Plano Piloto é determinada de acordo com a área na qual eles se localizam, mas o máximo são seis andares; com exceção da área central, onde estão as autarquias e prédios do governo, como os Ministérios e o Congresso. Isso, aliado ao terreno relativamente plano da cidade, faz com que, para praticamente todo lado que se olhe, se possa ver o horizonte.
Sempre achei isso renovador: não ter a sensação que se tem na maioria das grandes cidades, de que os prédios lhe sufocam. Poder contemplar um pedaço de vastidão a qualquer momento do dia é algo que, pra mim, sempre lhe oferece a oportunidade de enxergar as coisas, quaisquer que sejam elas, por uma outra perspectiva. É a nossa compensação por não termos mar.
O resultado disso é que Brasília tem um dos pores-do-sol mais bonitos do mundo, e ainda que eu não tenha rodado nem ¼ deste mundo, tenho testemunhas de vários lugares dele pra comprovar. Dá pra ver praticamente de qualquer lugar, mas sem dúvida um dos melhores lugares para assisti-lo é a praça que fica atrás do Memorial JK, no Eixo Monumental (o “corpo” do “avião”): a pista continua numa descendente, apenas com a pequena Igreja Rainha da Paz se interpondo no caminho e, bem ao longe, quase inidentificável, a Rodoviária Interestadual e o nada.
Sente, abra ou acenda o que for de seu agrado e apenas espere a bola incandescente descer pintando o céu quase sem nuvens de tons que você nunca havia imaginado existir, se combinando numa gradação que lhe hipnotiza a anoitecer junto com o dia. Quisera eu ter podido fazer isso por mim mesma todos os dias em que morei em Brasília. E vivia a sentir falta daquele pôr-do-sol.
Digo vivia porque encontrei um substituto, talvez, à altura, aqui por Recife. Num lugar escondido de cuja existência eu tinha uma vaga idéia, mas nunca havia parado e atentado realmente para sua existência. Esses dias descobri a combinação do pôr-do-sol com o mar em um lugar chamado justamente Brasília Teimosa.
Brasília Teimosa é um bairro da periferia do Recife que começa logo ali, no fim da Avenida Boa Viagem: acabam os arranha-céus e começam as casas simples, às vezes realmente pobres; ambos, prédios e casas, de frente para o mar. Mais antiga invasão urbana da cidade, hoje tem toda a infra-estrutura que um governo se dá ao trabalho de conceder a um bairro de periferia. E ainda que os pontos de praia propriamente dita sejam poucos, Brasília Teimosa é tem o mar como vizinho até onde termina, na área do Porto.
E ali em frente ao Marco Zero, no bairro do Recife Antigo, existem alguns recifes (é, as pedras), no quais se chega depois de atravessar o pedaço de mar ali represado em pequenos barcos a remo; há um parque de esculturas lá, feitas por Francisco Brennand, figura já meio mítica de Recife. E os recifes seguem ao sul, e já me disseram até que havia um bar por ali, com o mar batendo nas pedras do outro lado, mas eu nunca tinha parado pra pensar na outra ponta. É em Brasília Teimosa.
E é no meio deste caminho, quando você atravessa o bairro pela orla cheia de crianças brincando, pessoas fazendo ginástica, bares e carros com o som alto. Tirando as palmeiras, seria praticamente igual à orla de Boa Viagem. Daí você segue até o fim da orla e dá de cara com o tal “caminho das pedras”, uma rua estreita que, dependendo da maré, vai lhe molhar se a janela do carro estiver aberta. Do outro lado, lá longe, depois desse outro pedaço que ainda não sei se é mais mar ou se já é o Capibaribe (é bom ainda ter o que aprender por aqui), está a cidade do Recife, com suas pontes, prédios velhos, e só o que se ouve é o barulho do mar, e só o que se vê é o sol brincando de pintar a alma.
Tenho o mar. Tenho o pôr-do-sol. Só me falta ver as coisas por outra perspectiva.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi criada em Brasília, que tem o céu como mar; de volta à cidade natal, agora tem os dois.
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