6 de janeiro de 2010
Ainda pulsa ou Onde se cruzam as linhas
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Para os detratores, Brasília simplesmente não parece orgânica. Toda a ordem com a qual foi construída parece lhe tirar uma espécie de magia que possuem as outras cidades em meio ao seu crescimento regido pela pura e simples desordem. Ainda que eu não concorde totalmente com tal assertiva, também não lhe desmereço por completo. Vejo que cada cidade tem o encanto que lhe cabe, tão somente.
De qualquer forma, para aqueles que sentem falta de um pouco de caos em Brasília, convém visitar a Rodoviária do Plano Piloto; hão de se sentir em casa. O maior terminal de ônibus urbano do DF é uma dessas cornucópias hipnotizantes de gente, cheiros, sabores (sim, sim!) e sons que podem encantar ou enlouquecer você, dependendo de seu humor. As minhas reações, ao menos, sempre transitaram entre estes extremos. E sim, já voltei a experimentar ambas nestes meus poucos dias de regresso.
A Rodoviária, em si, é mais uma dessas obras de simplicidade genial que só se vê em Brasília. Situa-se exatamente no cruzamento dos dois eixos: o Monumental, “corpo” do avião, cuja ponta mais próxima do terminal abriga a Esplanada dos Ministérios e seus Palácios; e o Rodoviário (ou Eixão, cerca de 13 km pra se trafegar a 80 km/h sem semáforos), que forma as “asas”, de onde partem as quadras residenciais e central em relação às outras principais avenidas da cidade, a L2 e a W3 (em suas respectivas direções Norte e Sul; totalmente cartesiano e, outra queixa dos detratores, frio; eu acho particularmente divertido).
Basicamente, a Rodoviária é o vão formado por este cruzamento: o Eixo Rodoviário passa por cima do Monumental. A Rodoviária começa já ali em cima, mas sem nenhum ônibus partindo: é uma área apenas de acesso e de serviços, como as boas lanchonetes-pé-de-chinelo e uma das melhores bancas da cidade (inclusive, quando trabalhava nas imediações e ainda me dava ao luxo de gastar dinheiro com gibis mensais, eu era a queridinha dos donos). Descendo alguns lances de escada, há um pequeno mezanino, de mesmo propósito da área superior, e de onde se pode ver, em formato de “U”, o terminal em si: é o único lugar para o qual todo lugar tem uma linha, e vice-versa. Dali também partem as linhas para a maioria das cidades do Entorno (municípios que oficialmente fazem parte de Goiás, mas são mais próximas do DF).
É na balbúrdia destes três pavimentos que se percebe que há, sim, diversidade em Brasília. De feições, de comportamentos, de classes, de “tribos” (por mais que eu deteste esse termo): hippies, skatistas e engravatados; piriguetes/cafucéias, moças discretas e as metidas a dondoca. Os candangos que vieram fazer o tal sonho de Dom Bosco e não esqueceram os sotaques de suas terras de origem. E os que tem o “sotaque de Brasília”, algo identificável pela dificuldade em se identificar qualquer traço isolado de outros tantos. Os que lêem Correio Braziliense e os que não desgrudam os olhos do Na Polícia e Nas Ruas. Os que andam com os hoje quase onipresentes fones de ouvido e ignoram a música popular(esca) que toca na Rádio Rodoviária ou aqueles que cantam junto com a música ambiente. Os que tomam cafezinho com pão de queijo ou os que preferem o Trio Viçosa.
É quando dá pra dizer que, realmente, Brasília é uma cidade.
(Sim, Trio Viçosa, não dá pra não falar do Trio Viçosa… talvez seja o “prato” mais “típico” de Brasília. A Viçosa é a maior pastelaria da Rodoviária e, independente do horário, sempre tem alguém, ou muitos “alguéns”, devorando os dois pastéis mais um caldo a módicos R$ 2,50. E que já chegou a custar R$1, bons tempos… houve uma época em que a Viçosa simplesmente cometeu o insulto de abolir seu produto-símbolo; logicamente, um engano que não durou muito tempo. E sim, eu sei, quando se fala de comida de rodoviária sempre se pensa na coisa mais oleosa, mal-feita e intragável. Esqueça. Claro, é bem provável que você nunca vá ver a Viçosa na VEJA o Melhor da Cidade; não há nada de refinado em seus pastéis; e há um ligeiro, mínimo (juro), excesso de óleo; mas o lugar é limpo, o pastel é frito na hora, na sua frente, e cacete, aquilo é muito gostoso. Recomendo o de queijo com calabresa e o de palmito. E numa época em que lanchonetes que funcionavam 24h, nesta Brasília ainda cheia de provincianismos, era coisa rara, a madrugadora Viçosa era a salvação de muita gente. Eu, inclusa.)
Há ainda um quarto pavimento, no subsolo, mais recente. A estação central do metrô mais caro (em seu orçamento e na tarifa cobrada), lento (tanto em sua construção, que levou mais de 10 anos, quanto na velocidade de seus carros) e inútil (poucas e distantes estações e sistema de integração quase inexistente) de que se tem notícia. Mais uma prova da ineficiência do sistema de transporte público de Brasília, o que mais me incomoda nessa cidade. A gente conversa sobre isso mais tarde.
O problema é que a Rodoviária agora sofre do mesmo problema que todo o resto da cidade. Está ficando pequena pra tanta gente. E no fim das contas, precisaria de espaço também pra mais ônibus (as linhas são suficientes, os carros para que elas satisfaçam essa gente toda, não). O futuro plausível: um terminal adjacente. Mais um prédio num Plano Piloto cada vez mais inchado, mais refém de seu crescimento irresponsável. Impossível que esta administração, estúpida como (quase) todas as que Brasília já teve, se dê ao trabalho de pensar em algo como uma descentralização. Que as circunstâncias fazem necessária, ainda que destrua aquele romantismo sessentista bonito, tudo convergindo para o coração da cidade…
Se pareço desiludida, não é impressão sua. Valha-me Nicolas Behr, anda acabando a poesia que havia no que brotou daquelas duas linhas.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília; recentemente voltou a morar na cidade-natal e, de férias na cidade que lhe viu crescer, se espanta ao constatar que agora é ela quem vê Brasília crescer mais do que devia.
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6 de janeiro de 2010 às 9:37
Nasci em Brasília e ainda criança fui morar em Belém. Passava férias na capital durante minha infância e adolescência e mantinha a vontade de morar na minha terra natal, da qual só conhecia a casa dos parentes e os pontos turísticos. Só em 1999 me tornei moradora da capital e o que tenho visto (e sentido) nesta década de Brasilia é o que você escreve, desde o saudosismo da trio de 1 real até a lamentável ineficiência dos transportes públicos.