4 de fevereiro de 2010
Ai, ai, ai, o Spock tem papai…
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
Spock tem pais! Tudo bem, eles estão aqui para alavancar a trama, mas são personagens bem desenhados, não apenas um artifício de roteiro como o irmão de Kirk aparecendo em “Operação: Aniquilar” já morto e sem causar praticamente nenhuma reação em James T.
A galera que segue a série com mais empenho há de lembrar que o orelhudo já havia se referido aos progenitores em “Tempo de nudez”, quando, contaminado pelo vírus que embebeda, chorou suas mágoas com o capitão contando como devia ser dura a vida de sua inteligente e sentimental mãe terráquea no planeta dos vulcanos sem emoção. Por isto mesmo é estranho que, ao desembarcarem na Enterprise o embaixador Sarek e senhora, todos fiquem surpresos quando Spock revela que eles são seus pais. Vem cá, Kirk e seu imediato vivem se apregoando como amigos e o capitão nunca perguntou nada sobre a vida pregressa do oficial de ciências? Fascinante!
Embora o programa tenha espiões, assassinatos, porradaria e batalha naval, o que interessa mesmo é a família do nosso vulcano preferido. O bom ator Mark Lenard, que já havia feito o comandante romulano do excepcional “Equilíbrio de terror”, volta a envergar orelhas pontudas como o embaixador Sarek – e é bem capaz de ter sido escolhido porque já tinham pronta a maquiagem necessária pra ele. As raízes militares de Roddenberry reaparecem aqui no amor duro que Sarek tem pelo filho: quando Spock desistiu de entrar para a Academia de Ciências vulcana e ingressou na Frota Estelar, os dois pararam de se falar. Na verdade, o diplomata tem orgulho de sua prole, mas não o demonstra não só por causa daquela falácia de falta de emoções como também para contrabalançar o excesso de mimo da mãe terráquea. Em suma, ele está sendo um sargentão. Aquelas coisas de pensamento militar com tendências fascistas, das quais nem o muitas vezes progressista Roddenberry escapa.
Assim como com o cotidiano da galera em “O problema com os pingos” e “A licença” e os trâmites legais da Frota em “Corte Marcial”, “Jornada a Babel” amplia o universo trekker mostrando a diplomacia da Federação em ação (até então representada sempre por pernósticos e antipáticos sujeitos dando ordens ridículas em relação a uma missão). A presença de diversas raças alienígenas enseja algumas máscaras de látex que hoje em dia só seriam aceitáveis em blocos de carnaval, mas o marco cinematográfico do assunto, “Planeta dos Macacos”, ainda não havia sido lançado, e, mesmo que o tivesse sido, nos anos 60 demorava muito mais para tecnologia cinematográfica chegar na barata televisão.
Dos alienígenas a bordo, os mais interessantes são os andorianos. Apesar de membros da Federação, são confessadamente passionais e agressivos. Embora tenham pouco tempo de tela, conseguem chamar a atenção e garantir lugar nas próximas séries da franquia. E realmente, a cara de velho safado que já aprontou muito do embaixador deles explicando que sua cultura é violenta, mas que é preciso haver perspectiva de lucro, é impagável.
Ainda há tempo para um espião a bordo e uma batalha naval em que Kirk usa OUTRO velho truque de filme de submarino. Na verdade, tanta coisa acontece neste episódio que uma briga aparece do nada, sem preparação alguma, simplesmente já no meio da porradaria após um corte (que, originalmente, era um intervalo) e pega o público todo de surpresa. Mesmo assim, o ritmo não se perde e temos tempo para uma boa visão da família de Spock, que, afinal, é o que interessa, e a frase final de Sarek explicando ao filho por que se casou com a terráquea, emocional e preocupadíssima com os dois - “parecia a coisa mais lógica a fazer”. Muito mais inteligente do que a explicação fraquinha do longa novo - “porque eu a amava”.
Digno de nota:
Contagem de corpos: um diplomata mascarado, um espião traíra e uma nave inimiga.
McCoy comenta que o embaixador vulcano se aposentou ainda novo, com apenas 103 anos, o que daria o mote para que Spock e Sarek aparecessem na série da Nova Geração.
A mãe de Spock é interpretada pela cinquentona ainda em forma Jane Wyman. A mulher deve mesmo gostar de políticos, já que foi atrás de um embaixador vulcano depois de ter sido casada com Ronald Reagan (a única ex-mulher de um presidente americano!).
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