6 de janeiro de 2009
Abortaram o jornalismo
BLOG, Chamando na chincha, Cinema
Por Eduardo Souza Lima
A cineasta Thereza Jessouroun me enviou ontem um e-mail falando da repercussão de sua entrevista para a Zé Pereira, feita por Anna Azevedo (leia aqui). Segundo ela, um repórter do “Globo” a leu e resolveu entrevistá-la para o jornal. A reportagem saiu ontem e, em seguida, Thereza foi procurada por várias emissoras de TV - eu a vi ontem no “SBT Brasil”. Eu juro que dessa vez não ia tirar onda, mas depois de ler a tal matéria, assinada por Bernardo Mello Franco, não deu pra ficar quieto. As mulheres no Brasil são submetidas a uma lei de Inquisição e “O Globo” condenou a diretora à fogueira - a lenha continua sendo empilhada na internet.
“Fim do silêncio” (trailer acima) é um documentário no qual, pela primeira vez no Brasil, se dá voz a mulheres que tiveram que fazer aborto por motivos diversos. O ineditismo do fato justificaria a reportagem; a intenção, porém, foi usá-lo como desculpa para atacar o governo federal - só para variar. Thereza fez o seu documentário graças a um edital público da Fiocruz para filmes sobre saúde, o qual disputou em igualdade de condições com os demais concorrentes; o jornal insinua que ela fez uma peça de propaganda do ministro da Saúde, por encomenda: “Não me parece correto, do ponto de vista ético, financiar com dinheiro público um filme que defende posições pessoais do ministro”, diz, na reportagem, um torquemadazinho da CNBB. Um depoimento curioso vindo de alguém que faz parte de uma instituição que defende suas posições usando dinheiro público.
A atuação de José Rubens Temporão à frente da pasta e o governo federal realmente merecem críticas, mas não neste particular: pela primeira vez o tema é discutido com seriedade no Brasil. Só que isso nem vem ao caso. O obscurantismo da reportagem é que é assustador. Há trechos que chegam a ser criminosos - porque calúnia é crime - de tão tendeciosos: “De acordo com ela (a diretora), o projeto se materializou após a abertura do edital da Fiocruz, cuja direção é nomeada pelo ministro”, ou “Um relatório sobre a concorrência, disponível no site da fundação, informa que, ‘como critério principal, ficou estipulado que os projetos a serem selecionados devem estar de acordo com o ideário da Fiocruz’”. O repórter, com um fósforo aceso na mão, só omitiu do leitor que a comissão de seleção do edital julgou projetos no papel, não filmes prontos.
Para provar que eu não quero tirar onda, esta história nem saiu primeiro na Zé Pereira, mas no DocBlog, do Carlos Alberto Mattos, blog hospedado no Globo Online. Em casa de ferreiro…
P.S.: Coincidentemente, a chamada de capa da coluna do Merval Pereira de hoje diz ”O que pensa Lula sobre a imprensa? Que bom é uma imprensa oficial”. Para mim, bom seria uma imprensa que não mente.
3 comentários para “Abortaram o jornalismo”
Deixe um comentário
- Geraldinos no Canadá
- O melhor efeito especial de todos os tempos
- Festival de inscrições
- Samba no pé e em DVD
- Loucuras na sala escura
- Lua nova
- O olho do dono
- Clint Eastwood - O homem e o mito
- O bem dotado Super-8
- Sobre Sintra
- O filme do Serra
- Georgia on your eyes
- Então, o tal filme do Luís Inácio
- Heróis e anti-heróis do Araribóia
- Meus amigos da Oban
- Bola pra frente
- Foguete para a borda do Velho Mundo
- Vencedor
- Está chegando o Cine PE 2010
- História viva do cinema brasileiro
- No olho do furacão
- Os premiados do Festival do Rio
- Era uma vez no Centro-Oeste
- Sangue e inocência
- Boat-movie revela Amazônia negra
- Mulher fodona!
- Polanski
- Comédia romântica bonitinha, mas honesta
- Strike a pose
- Livres caminhos do audiovisual
- Vai que é tua, Paulo Halm!
- O mundo visceral de Mutarelli
- Perdeu, Plim-Plim!
- Sérgio Bianchi para síndico?
- “Big Brother” para intelectuais
- Manifesto retrógrado
- Proezas da Belair
- O nascimento de uma nação
- Cine Rexona
- Top 5 nomes típicos de festival
- Câmera objetiva
- Troféu Bispo Macedo
- Se eu fosse você 3.796
- Vivinho da silva
- Cinefilia
- Cinema adolescente, mas sem espinhas
- O tenente é mau, pega um pega geral
- Prêmio Zé Pereira: primeiros indicados
- A um passo de comer cocô
- Perguntinha da Zé Pereira:
- Sob o domínio do medo
- A fórmula do sucesso
- Coisa de maluco
- Nós vamos estar nos vingando de vocês
- Desobedeça!
- O fim vem para todos
- E o sertão virou Acapulco
- Jeanne, moreau?
- Vivendo na praia
- Sessão de gala
- Mais do mesmo no Festival do Rio 2009
- Primeiros olhares do mundo e independentes brasileiros
- Recine em semana de cinema
- Eleição direta
- Utopias e realizações
- Cachaça premiada
- Cineclube novo na Gávea
- Subúrbio em cena
- Viagem siderada
- Deu Uruguai de lavada no V Ibero Brasil Cine Festival
- Briga de cachorro grande no Festival do Rio
- Iguacine Zona Sul
- No crepúsculo de Winnipeg
- Habitante de Pimentípoli 9
- Coutinho no ar
- Ibero Brasil Cine Festival divulga os filmes de sua quinta edição
- Geração espontânea
- Habitante de Pimentípoli 8
- Cinema novo de verdade
- Na parede
- A carta da Gagarin
- Governo financia sacanagem
- Habitante de Pimentípoli 7
- Aventuras na Sapucaí
- Habitante de Pimentípoli 6
- Michel Gondry rebobina
- Muita ação e pouco cerebral
- A hora do Festival do Rio
- Habitante de Pimentípoli 5
- Festivais em ação
- Habitante de Pimentípoli 4
- 再見蚱蜢
- Cinema é droga sadia, rejuvenesce, acreditem
- Cachaça portuguesa
- Blogue Sem Lei XII
- Habitante de Pimentípoli 3
- A propósito da estreia do filme do Simonal
- Se o meu fusca falasse
- Por mares nunca dantes perscrutados
- Ca-pi-tão-quir-que! Ca-pi-tão-quir-que! Olê, olê, olê, olá, a Frota Estelar tá botando pra quebrar!
- Oficina do Domingos
- Vitrine da Glória
- Pelo voto da platéia
- O eu profundo e os outros eus – Sobre “Sinédoque, Nova York”
- Rápido e indolor
- Epílogo
- Agora é a vez do baião
- Troféu abacaxi
- Fim de jogo
- O tédio das manhãs de domingo
- Descem as cortinas
- Estranha é a vida
- Filmes para toda a família!
- Fique de olho
- Pra temperar, um pouquinho de polêmica
- Finalmente!
- No embalo do fusca
- Buzinas, bacalhaus e maiôs asa-delta
- Pra você rememorar
- Conversando é que a gente se entende
- O que acontece com o Cine PE?
- A grande família tijucana
- Na beira do rio e arredores
- Cena de bairrismo explícito
- Curta conformismo
- Não tenha medo do novo
- Ode à poesia
- “Como e por que você fez isso?”
- CAZÁ, CAZÁ, CAZÁ!
- A turma é mesmo tosca
- Mais do mesmo
- Carta pela vida… pelo tempo
- “O que manda na música é a rima”
- E então, crianças, o que acharam?
- Cine PE: rola ou não rola?
- Mistéryos no passeio curitibano
- Engatando a segunda
- Cinema a corda e a manivela
- A política da pergunta
- Curta tagarelices passionais
- Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem
- A busca pelo próprio paraíso
- Costa-Gavras taí, Costa-Gavras chegou, pra alegrar a senhora e também o senhor
- Os mais livres
- Ei, você ai!, me dá um ingresso aí!
- Quem não gosta de preliminares?
- Enquanto Costa-Gavras não vem
- Fazendo “Poeta Urbano”
- Tela livre
- Primeira exibição
- Cine PE quer itinerar pelo interior
- Cachaça da UFF
- O cinema nos livre
- Que filme brasileiro, eu quero é ver o Costa-Gavras!
- Os ganhadores de Guadalajara
- Policial que ladra não morde
- Show de bola
- Cadê o Brasil?
- A cachaça do Cavi
- Um mês para se lembrar
- A realidade da animação
- Será que não se pode ousar no cinema mexicano?
- Kusturica em Guadalajara
- Da arte e da práxis de apresentar cartões
- Um desencontro com Buñuel
- Habitante de Pimentípoli 2
- É hora de cinema em Guadalajara
- É tempo de Glauber
- Curtas do Cine PE 2009
- Programa de inclusão
- Habitante de Pimentípoli 1
- Quis custodiet ipsos custodes?*
- Cinema que dá samba
- Se fosse qualquer um…
- Uma estrela que não existe
- A$suntina do Utopya
- Produzir no Sul
- Uma canção ao cair da tarde: “Manhã de Carnaval”
- Bate-bola
- Cabelos
- Gatos no projetor
- À sua escolha
- Cineclubes em ação
- Arroz, feijão e cinema – 2º manifesto
- O barato que o set proporciona
- Cinema de invenção no Espaço Utopya
- Estréia
- Blogue Sem Lei XI
- Abortaram o jornalismo
- Blogue Sem Lei X
- Alô, Brasília: rebobine, por favor, a lei de distribuição do cinema brasileiro
- Adeus, Mulher-Gato
- Falemos de aborto
- Blogue Sem Lei IX
- Vladimir em livro e DVD
- Você é que bebeu pouco
- “L.A.P.A.” em festa
- “Dindi” faz bonito em Santa Maria da Feira
- Blogue Sem Lei VIII
- Subúrbio em movimento
- Cachaça alemã
- Feliz Natal e, de quebra, parabéns a Selton Mello, um senhor diretor
- Os premiados do Vitória Cine Vídeo
- O inconformista Bertolucci
- Saiu o Angu de Ouro
- Blogue Sem Lei VII
- Fim de festa
- Brasília, um breve balanço
- Abreu e Lima sou eu
- Olhos da floresta
- Mudança de hábito
- Nelson, 80 anos
- Ladrões de alma
- Candango de melhor não ator
- Blogue Sem Lei VI
- Poesia épica
- Eu vou, eu vou, pro circo agora eu vou!
- Medo de não ter medo
- Julgue por si mesmo
- Amigos de fé
- “L.A.P.A.” no Odeon
- Seleção brasileira
- Antídoto antiviolência
- Se faz fazendo
- O cinema brasileiro do Brasil
- Às vezes é melhor não ouvir
- Desenhando pelo mundo
- Blogue Sem Lei V
- Brasília começa bem
- Pan-cinema em cartaz
- Brasil no Sundance/NHK
- Notícias do Recife
- Obama é fruto de Orfeu do Carnaval
- Blogue Sem Lei IV
- Curta Cinema 2008: sucesso de público e de crítica
- Sessão extraordinária
- Tempo Presente e Futuro
- Curta Cinema hoje e amanhã
- Curta Reichenbach
- Quinta, no Curta Cinema
- Asas cortadas
- Cachaça musical
- De olho no Murnau
- A culpa é do Sérgio Santeiro
- Quarta-feira, no Curta Cinema
- As armas mais idiotas da ficção científica
- Curta Globo e outros debates
- Sessão da Tarde: “Lucifer rising”
- Blogue Sem Lei III
- Mutarelli dá as caras
- Raspando o prato
- Muro em Brasília
- As boas do Curta Cinema 2008
- Puta filme
- Grandes idéias de curta duração
- UFF 40, Nelson 80
- Senta a pua, Obama!
- O Murnau que poucos viram
- Blogue Sem Lei II
- Revisão histórica
- A ciência do documentário
- Duas pérolas…
- R.I.P. 16mm
- Hoje, na Cinemateca Zé Pereira
- Blogue Sem Lei I
- Cinema de memória
- Histórias que nossas babás não contavam
- Oficinas e Júri Jovem Curta Cinema
- Brasília fora de circuito
- Zé do Caixão barbariza em Sitges
- Bola dentro
- Esses esboços, pobres esboços
- A morte careca
- Noite de premiação
- Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
- Idéias em movimento
- O pódio da Première Brasil
- Repescagem e maratona
- Escrevendo um 4
- Doidão de amor
- O estouro da bolha
- A crueldade da arte
- Todos os nossos fracassos cinematográficos
- Rostos por trás dos números
- Com Monty Python e outras coisas nas idéias
- Um cara gente boa
- Sem pé nem cabeça
- Family cop
- Descobrimento da América
- Somente as aparências enganam
- Ripstein premiado
- Poesia marginal
- Atuação mecânica
- Cimentando o caminho das nuvens
- Página virada
- Ripstein chegou!
- Placar moral
- Digestão demorada
- Woody Allen é um velho pedófilo incestuoso
- Um filme domesticado pra falar do instinto
- Ponyo não saiu do fundo do mar
- Pare e pense
- Um cineasta da América Latina
- Musa atrás das câmeras
- Um (bom) herói dos anos 80
- Ausência paterna, ausência do Estado, falta de mulher
- Trilha pra quê?
- Sessão da Tarde: “O paradoxo da espera do ônibus”
- Um filme que se desfaz
- Rio, Zona Norte
- Cabeça a prêmio
- Um olhar em off
- Pancadão
- Banzai!
- A Tijuca baixa na Cinelândia e em Guadalupe
- Como se dança o baião
- Nothing but a good time*
- É grupo!
- Uma conversa com Paolo Taviani
- Idéias curtas
- Filme cabeça
- BOMBA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Boato do dia, quer dizer, da Zé Pereira
- Top 5 nomes típicos de festival
- Mulher esfinge
- De volta para o futuro
- Uma rádio pras cantoras
- Dois morcegos na porta principal
- Cavalo selvagem
- Alô, Walt!, continuamos amigos!
- Ele & Ela
- Depois do vendaval
- Curtas e o festival online
- A culpa é do Lula
- Irmã Dorothy e a “mãe dos problemas do Brasil”
- É só RocknRolla, mas quem se importa?
- Natividade
- Viagem perdida
- Outra verdade muito inconveniente
- Sacanagem
- Hope I die before I get old! (Talking ’bout my generation)
- Um filme é um filme é um filme é um filme
- Véus cobrem/descobrem uma diva: Maria Gladys
- Um filme de geração
- Tempo de lágrimas
- O fio da meada
- Abaixo da crítica
- O WTC e o crime perfeito
- Vermelho-vida
- Eles não queimaram o filme
- Quem é normal?
- O sonho acabou
- Filho do seu Natal
- Da China non, do Zapon
- Os filmes que não verei
- O spleen de Strasbourg: cinema de Guerin é melhor que seu filme
- Duas vidas
- Bressane para todos
- Rock já foi rock mesmo
- Marginal é rua que engarrafa em São Paulo
- O cinema neonovo de Matheus [AUTOTEXTO]
- Dinheiro é uma coisa suja
- Revolucione-se
- O Iraque pelos iraquianos
- A festa do menino Matheus Nachtergaele
- Vale-tudo na tela
- Cinema de breque não é pra qualquer otário
- Bom dia, Rio Babilônia
- Merecida aposentadoria
- A filósofa dos curtas ou Uma mulher com cabeça
- Aqui me tens de regresso
- Chanchada cabeça
- Onde está Waly?: Retrato do poeta enquanto vídeo
- O silêncio das imagens
- Drežnica é um lugar perto daqui
- Cineclubismo em debate
- Por água abaixo
- Mentes vazias
- Mais brasileiros no Odeon
- Sentido aguçado
- Homem-Elástico
- Será que não vi isso antes?
- Azul da cor do mar
- A Zé Pereira no Festival do Rio 2008










6 de janeiro de 2009 às 14:31
Thereza faz um trabalho ousado,e deve perceber as consequencias e se preparar para enfrentar as feras,os moralistas , tratando de aborto então…
Parabéns pela entrevista da Anna Azevedo, eu já tinha lido no Docblog também. Boa sorte para Thereza que ela consiga mostrar seu novo trabalho, e consiga distribuidor neste mercado cruel.
7 de janeiro de 2009 às 12:55
Falou muito bem, jornalismo do medievo…
30 de março de 2009 às 22:11
[...] O texto da reportagem ainda diz: “Os relatórios não apresentam provas e não indicam ter originado investigações formais, mas são categóricos nas acusações”. Um torturador “categórico” parece ser fonte confiável, aos olhos dos atuais editores de “O Globo” e do repórter que assina a matéria, Bernardo Mello Franco. [...]