1 de outubro de 2008
Abaixo da crítica
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
por Arnaldo Branco
Na cobertura do festival do ano passado já tinha deixado claro meu desapreço pela figura do cinéfilo, essa estranha raça que acredita que o acúmulo de filmes assistidos vale pontos em uma espécie de programa de milhagem intelectual. Mas há pior: o crítico - enquanto o cinéfilo acha que entende de cinema, o crítico acha que entende e pode explicar. Abaixo, alguns dos cacoetes e obsessões típicas da espécie:
Ódio pelos roteiristas - Graças a Teoria do Autor, que até mesmo artífices como Truffaut e Godard admitiram ser uma piada que durou tempo demais, todo filme com roteiro bem amarrado é considerado ruim, já que isso tolhe a criatividade do único gênio permitido no set, o diretor. Quando um crítico escreve que determinado efeito provocado por um filme é só “um truque de roteiro” me lembra o imbecil que em um show de mágica acha que só ele sabe que aquilo não é mágica de verdade.
Contemplação - Nunca achei que o tempo de observação de um determinado objeto aumentasse a capacidade de compreendê-lo. Não entendo aquelas pessoas nos museus que param vinte minutos em frente a um quadro e ainda dão alguns passos para trás, como se fossem cobrar um pênalti, para ver alguma coisa que não captaram assim que botaram os olhos na obra de arte. Mas por algum motivo, cineastas que se detém sobre qualquer coisa, seja uma paisagem ou pênis ereto, são considerados geniais. Talvez sejam só míopes ou autistas, mas vai saber.
Personagens unidimensionais - Vamos admitir: a maior parte das pessoas que você conhece não têm exatamente personalidade cativante, bom gosto musical ou opiniões interessantes. Por que então essa cisma da crítica com personagens sem profundidade? Por mais que você conheça sujeitos que são apenas idiotas, ou apenas fura-olho, críticos vão sempre exigir personagens multifacetados nos filmes. Espero que não façam isso com os amigos deles, na remota hipótese que existam.
Tem mais, mas agora tenho que ler mais uma resenha do Rodrigo Fonseca. See ya!
8 comentários para “Abaixo da crítica”
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1 de outubro de 2008 às 17:37
Mas, Arnaldo, a maior parte das pessoas que eu conheço não daria um bom personagem de filme.
1 de outubro de 2008 às 22:31
Por isso mesmo! E esses caras ainda cobram realismo…
2 de outubro de 2008 às 10:03
excelente esse texto.
uma coisa irritante em cinéfilo é que quando você fala mal de um determinado filme (sei lá, talvez porque não tenha gostado?), automaticamente você é um ignorante que não entendeu a proposta do diretor.
2 de outubro de 2008 às 11:24
Hahahahahahahaha Muito bom!! Napalm nessa gente mala.
2 de outubro de 2008 às 12:41
“(…)essa estranha raça que acredita que o acúmulo de filmes assistidos vale pontos em uma espécie de programa de milhagem intelectual.”
Impossível não lembrar de uma meia dúzia de conhecidos.
2 de outubro de 2008 às 16:34
Genial!
3 de outubro de 2008 às 0:20
É verdade, Arnaldo, tem até isso num manual de roteiro americano que eu tenho dos anos 70… no capítulo sobre personagens, ele explica que a construção do sujeito tem que ser coerente, embora na vida real ninguém cobre a menor coerência das pessoas… é muito engraçado eles mostrando lado a lado como seria um dia no trabalho de uma pessoa e um dia no trabalho de um personagem de cinema.
3 de outubro de 2008 às 0:40
Arnaldo,
Mesmo gostando muito de assistir a filmes, não me considero cinéfilo, em parte devido aos argumentos que você expôs.
Mas há ressalvas: quanto à contemplação, “Dersu Uzala” é um exemplo de filme em que as imagens da natureza são captadas de modo a embasbacar a muita gente, em especial na cena da tempestade, com o caçador a dar ordens ao militar para a construção da cabana improvisada.
Mas isso é exceção: não duvido que certas cenas “contemplativas” sejam pretexto para desperdiçar celulóide (ou espaço na câmera digital, vá lá).
Eu venho anotado os filmes a que assisti desde 2006, mas apenas como um hobby. Não me considero mais conhecedor de cinema por causa disso. O chato é que, para os não-cinéfilos, sou pedante, e para os cinéfilos, sou superficial, pois não tenho vergonha de gostar a assistir às paródias de filmes na linha “Todo Mundo em Pânico” e, ao mesmo tempo, apreciar filmes de um Jean Vigo, por exemplo.
Não me nego ao prazer de assistir a uma comédia estrelada por Rodney Dangerfield, um humorista americano subestimadíssimo, o que não me impede de apreciar filmes de Samuel Fuller ou de Alain Resnais. Cada um na ocasião que for mais propícia.
Quanto aos roteiros bem amarrados, eu os aprecio, desde que não se trate de filmes em que a admiração por um roteiro bem construído não se desfaça alguns dias depois. “Amnésia” pareceu um filmaço na primeira vez, mas depois de um tempo pareceu-me um filme daqueles do “Supercine”, só que montado de forma modernosa.
Por outro lado, há um fetiche danado em cima da obra de David Lynch. Eu também gosto de seus filmes, mas parece que há pessoas predispostas a gostarem de tudo o que ele faz. Seu documentário sobre a meditação transcendental, se bobear, vai superar os do Eduardo Coutinho e do Michael Moore em bilheteria.
(Fugindo um pouco do cinema, mas ainda sobre roteiros: “Lost” é muito mal escrito, além de chato e pretensioso, mas tem muito mais admiradores do que as histórias muito bem armadas por Larry David em “Curb Your Enthusiasm”, onde detalhes banais tornam-se, ao fim de cada episódio, fundamentais para o seu desfecho. Ao mesmo tempo em que os documentários vêm recebendo um destaque exagerado, a ficção que faz sucesso é a mais frouxa e metida a besta que existe. O cinema está mal de roteiro, mas a televisão tampouco é o oásis que pintam por aí)
Aí entra um aspecto interessante sobre os tais cinéfilos: para eles, o sobrenome de um diretor tem o mesmo valor de uma grife. É claro que há cineastas capazes de formular um estilo tão bem urdido que chegam a virar verbete de dicionário. Mas há aqueles que confundem cacoete com estilo.
Aí você entra numa locadora e vem um cinéfilo blasé que está no aguardo pelo próximo Almodóvar, não importando se ele já passou o auge da criatividade há algum tempo.
Enquanto isso, filmes interessantes mofam nas prateleiras, à espera de algum espectador desavisado, só porque seus realizadores não estão na lista dos “queridinhos” da crítica.
Aproveito para recomendar “Confissões de Um Sedutor”, com Andy Garcia, um inspirado Mick Jagger e um moribundo James Coburn.
Muito melhor que os Kar-Wai da vida.
E muito pouco visto.