8 de março de 2010
A sedução dos inocentes
Por Arnaldo Branco
Já escrevi uma coluna sobre como as crianças - e a autoridade dos pais - são subestimadas quando se trata de separar o real da enganação nas propagandas. Foi um dos textos das mais contestados, com vários comentaristas lamentando o futuro do meu filho ainda não nascido.
Bem, agora acho que terei a solidariedade de mais leitores. Dioclécio Luz escreveu um artigo no Observatório da Imprensa usando alguns clichês da velha guarda da esquerda, pré-tanga do Gabeira, para acusar a Mônica de bullying e a Magali de bulímica. Aposto que ele ainda chama série americana - mesmo Sopranos ou Seinfeld - de enlatado.
Talvez o erro do articulista seja entender os quadrinhos como uma ferramenta da educação, em vez de uma forma de entretenimento - ou até de arte - que vale por si. Muitos caem nessa armadilha - quadrinhos seriam um jeito de fazer a molecada “tomar gosto pela leitura”; é a maconha literária que levará a drogas mais pesadas, como Flaubert. (Se formos comparar o número de leitores de Cebolinha e do francês, concluímos que a isca não está funcionando)
Mas o autor também critica a turma da Mônica esteticamente - ela e os outros personagens seriam destituídos de personalidade e existiriam na medida de suas taras: violência, comida, sujeira. Ele faz isso malandramente comparando as aventuras da menina dentuça a outras tiras protagonizadas por crianças, mas feitas para adultos, como Mafalda e Calvin.
Talvez Dioclécio tenha razão, e o Mauricio já pensasse em vender espaço publicitário de biscoito ao lado dos quadrinhos de uma menina obcecada por comida mesmo quando era um cartunista iniciante e fudido. Mas aí penso naquela frase da Fran Lebowitz: só pergunte ao seu filho o que quer jantar se ele estiver pagando.
15 comentários para “A sedução dos inocentes”
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8 de março de 2010 às 6:37
Bravo.
8 de março de 2010 às 8:40
Bravo. [2]
8 de março de 2010 às 10:54
Não sei se a Turma da Mônica incita as crianças à violência, mas com certeza as leituras do Dioclécio o incitaram à dependência de alucinógenos.

Quem sou eu pra criticar, entretanto? Eu também chamo seriados americanos de “enlatados”…
8 de março de 2010 às 11:32
Putz, isso lembra aquelas besteiras do “Para Ler o Pato Donald”
8 de março de 2010 às 12:11
… é que a ideologia burguesa, metaleiro, se infiltra por todas frestas…
Não sei até que ponto isso é exato, mas ouvi dizer que Dorfman e / ou Matelard tinha(m) certa influência no governo Allende, e chegaram a propor a proibição dos quadrinhos de Disney no país. Mas isso foi naquela época em que se vaiava os músicos que usavam guitarras elétricas, nos festivais de MPB.
9 de março de 2010 às 0:43
Monica é tão boa que foi censurado nos EUA e a razão é uma injustiça, aqui: praticamente não vão a escola.
9 de março de 2010 às 10:29
Realmente, Arnaldo. O texto em questão mostra como o reducionismo pode ser burro, mesmo quando aparentemente bem elaborado e seguido de argumentos como os ali elencados.
Seguindo tal corrente, eu teria de jogar todos os meus quadrinhos fora, por sua alta carga de periculosidade e distorção moral!
9 de março de 2010 às 16:44
Esse texto do OI é de brincadeira, não? Tem muitos erros grosseiros (Presidente MacArthur é dose), bulling (?), coisas chupadas de piadinhas da Internet e muito, mas muito clichê. Será que adiantaram o 1o. de Abril?
Acho que todos que passaram pela FCS/UERJ tiveram que ler o “Para Ler O Pato Donald”.
9 de março de 2010 às 17:40
Na Eco, também. Um dos traumas do Zé.
10 de março de 2010 às 9:41
Eu tenho a impressão que esse texto do OI é na verdade um projeto de monografia de fim de curso que o autor apresentou para um potencial orientador. O infeliz riu tanto que achou melhor botar pilha no autor para ele publicar isso na Rede. Se fosse nos anos 80, ia acabar virando um livrinho…
11 de março de 2010 às 11:15
Concordo contigo no que diz respeito à maneira como se enxergam as coisas. No caso das hq’s, enxergá-las como fim meramente educativo e descartar a possibilidade de serem essencialmente um tipo de manifestação artística, é no mínimo pensar pequeno. Belo post.
11 de março de 2010 às 14:22
“só pergunte ao seu filho o que quer jantar se ele estiver pagando.”
Boa Arnaldo! Vivi isso na prática na minha infância. Aliás, aprendi a ler no sítio em Miguel Pereira - e com histórias da Turma da Mônica. Dizer que ler o Chico Bento faz a criança ficar burra ou ler o cebolinha falando errado faz a criança falar “elado” é balela, toda criança já sabe distinguir o certo e o errado gramatical da Turma da Mônica! Parabéns aí pelo texto. Abraço!
12 de março de 2010 às 16:24
Bom texto, Arnaldo…convida à reflexão, diferente do texto alarmista que foi citado aqui.
14 de março de 2010 às 23:36
Bruno, tive que fazer um trabalho sobre o referido livro no primeiro período de comunicação na PUC. Falei o que o professor queria ouvir e tirei 10 com louvor. Não guardei muita coisa daquele troço além de décimos a mais no meu CR.
8 de abril de 2010 às 16:50
Muito contraditório o Sr. Dioclécio Luz, primeiro expõe que dá p/ definir cada um por suas personalidades distorcidas, depois diz que os personagens não têm personalidade…
Fui leitor da Turma da Mônica quando criança e acho que devo à isso a paixão que tenho pela leitura, não sou bulímico nem pratiquei bulling e me considero um não-alienado, mas vai saber… rs…