25 de setembro de 2008
A Praça Saens Peña é coisa de cinema*
Por Estevão Garcia
Fotos de divulgação
Se procurarmos nos lembrar quantas vezes uma localidade do Rio de Janeiro, seja uma rua, uma praça ou um bairro, apareceu em um título de filme ao longo da história do cinema brasileiro, constatamos imediatamente uma característica marcante: a Zona Sul domina de forma soberana.
Realizando um passeio cinematográfico pelo Rio através dos títulos do nosso cinema podemos facilmente cruzar por Copacabana: “Copacabana me engana” (de Antonio Carlos da Fontoura, 1968), “Copacabana mon amour” (de Rogério Sganzerla, 1970), “O vampiro de Copacabana” (de Xavier de Oliveira, 1976). Continuando mais um pouquinho a caminhada podemos entrar em Ipanema: “Garota de Ipanema” (de Leon Hirszman, 1967), “Ipanema toda nua” (de Libero Miguel, 1971), “Os garotos virgens de Ipanema” (de Oswaldo de Oliveira, 1973), “Ipanema, adeus” (de Paulo Roberto Martins, 1975), “O varão de Ipanema” (de Luis Antonio Piá, 1976), “Nos embalos de Ipanema” (de Antônio Calmon, 1978). E finalmente paramos para tomar um chope na Gávea: “Baixo Gávea” (de Haroldo Marinho Barbosa, 1986). Depois desse trajeto a pergunta é a seguinte: onde estão os outros cantos do Rio nessa história, ou melhor, nessa História?
Prosseguimos nossa perambulação e percebemos que quando esses “outros cantos” aparecem nos títulos, são quase sempre de forma genérica: “Rio Zona Norte” (de Nelson Pereira dos Santos, 1957) ou “O Ibraim do subúrbio” (de Astolfo Araújo e Cecil Thiré, 1976). Diferentemente da Zona Sul, que pode ser particularizada através do registro de um bairro, a Zona Norte e o subúrbio são freqüentemente percebidos em bloco, como se formassem uma mesma massa homogênea. Isso em parte se explica quando sabemos que a grande maioria dos cineastas que filmam no Rio são moradores da Zona Sul, portanto, quando eles viram a sua câmera para o lado de lá, a tendência é juntar as diversas camadas que compõem o subúrbio e a Zona Norte em uma coisa só. O olhar estrangeiro para determinados pontos de sua própria cidade torna-se difícil de ser evitado. E quando não se conhece o objeto filmado, sempre é mais confortável simplificar através do geral do que penetrar pelo particular.
Esse fenômeno de simplificação também acontece com a favela. Nesse caso já não importa se ela está situada na Zona Sul ou na Zona Norte, pois a favela sempre será vista como um sistema à parte, como um núcleo clandestino que está localizado do lado de fora da cidade “oficial”. Favela é favela, ela nunca tem nome e parece ser sempre uma só: “Favela dos meus amores” (de Humberto Mauro, 1935), “Cinco vezes favela” (de vários autores, 1962). Só recentemente que as favelas foram singularizadas: “Cidade de Deus” (de Fernando Meireles, 2002), “Maré, nossa história de amor” (de Lúcia Murat, 2007). A opção por tomar o título dos filmes como nosso ponto de partida não se originou pelo anseio de rastrear e enumerar as ocasiões em que as regiões menos favorecidas e menos badaladas serviram de locação para as produções rodadas no Rio de Janeiro. Se pegarmos apenas os títulos como referência, elas praticamente não existiram em nossas telas.
Não nos interessa aqui o uso dessas regiões apenas como locação e sim os casos em que elas transcenderam a condição de local de filmagem e se transformaram em elementos fundamentais da narrativa. Logicamente não é necessário colocar o nome de uma localidade no título de um filme para adotar essa estratégia. Porém, os filmes que assim procedem, geralmente enxergam a paisagem urbana escolhida como mais um personagem. Um personagem que respira, que fala, que pulsa. Um personagem que possui a sua própria língua, história e tradição. E é sintomático que esse personagem-paisagem, quando aparece no cinema carioca, independente de estar ou não estampado nos títulos, praticamente não sai dos limites da Zona Sul.
Nesse quesito, “Praça Saens Peña”, primeiro longa-metragem de ficção do cineasta Vinícius Reis, parece inaugurar uma ruptura. Vinícius, paulistano de nascença e tijucano de criação, não só é o primeiro cineasta a colocar o nome de um local (no caso, uma praça) da Zona Norte no título de um filme carioca, como também tem como meta transformar esse local em algo maior que um simples cenário.
— Eu tinha vontade de escrever alguma coisa sobre a Tijuca e a classe média. A classe média que conheço e da qual faço parte. Eu tinha essa curiosidade porque aqui no Rio de Janeiro se filma muito na Zona Sul. Você tem um cinema que fica muito na cultura da Zona Sul como o da Rosane Svartmann e o da Sandra Werneck. Aí eu pensei: está faltando um recorte classe média tijucana. Isso ainda não tem, isso ainda não surgiu no cinema carioca e tenho vontade de falar disso porque eu conheço, faço parte disso, sou disso, venho disso — diz Vinícius.
O filme capta o cotidiano de uma família de classe média que mora em um apartamento alugado na Rua General Roca, bem em frente à Praça Saens Peña num momento crucial pra ela, para o Brasil e o para o mundo. A narrativa se inicia no começo de 2003, momento em que os Estados Unidos invadem o Iraque, Lula chega à presidência da República e um amigo de Paulo (Chico Diaz) o convida para escrever um livro sobre o bairro. O clima da possibilidade de uma ascensão social, motivada por essa nova atividade do personagem, invade o espaço doméstico e se confunde com a euforia e a “esperança” experimentada pela classe média brasileira, de um modo geral, no começo do primeiro governo Lula. A oportunidade de pesquisar e escrever sobre a História da Tijuca leva Paulo a realizar um corpo-a-corpo diário com o bairro e seus moradores. Por sua vez Teresa (Maria Padilha) vê reacender o seu velho sonho de comprar um apartamento no bairro e, portanto, aproveita toda a brecha que tem no trabalho para sair com os classificados debaixo do braço à caça de um apartamento. Temos aqui duas perambulações pelas ruas da Tijuca, duas interações com os seus espaços.
— Desde os primeiros encontros, o Vinícius colocou seu desejo de ter a Tijuca (e mais especificamente, a Praça Saens Peña) como um personagem do filme. O barulho que vem do lado de fora da janela do apartamento, o tradicional calor do verão tijucano. E as constantes citações da História da região por conta das pesquisas para o livro de Paulo, trazem o bairro para dentro do espaço privado dessa família. O cotidiano de todos os personagens da família se insere na localidade: Paulo e Teresa trabalham e Bel, a filha do casal, estuda na Tijuca. E vemos todos transitando por esse espaço naturalmente, compondo essa paisagem — conta a diretora de arte Tainá Xavier.
Paulo e Teresa, como sublinha Vinícius, na verdade não são tijucanos e sim emergentes. O casal protagonista representa as pessoas de origem humilde que com muita luta conquistaram a Tijuca. Paulo é um professor de literatura que se formou em letras pela UERJ com bastante dificuldade porque tinha que conciliar seus estudos com o trabalho e Teresa trabalha como atendente em uma loja de café expresso de um shopping.
— Eles vêm do Baixo Estácio, daquele Estácio mais pobre, perto da estação do metrô — explica o diretor. — Morar na General Roca de frente pra Saens Peña é como dizer: “Conquistamos o nosso espaço, somos poderosos, agora só falta comprar”. Eles adoram a Tijuca e o consideram o melhor lugar do Rio. Eles não trocariam a Tijuca por nada.
Mas, se o filme retrata o amor que alguns moradores sentem pelo bairro, também faz questão de mostrar o outro lado: os tijucanos que almejam sair de lá e morar na Zona Sul. João (Gustavo Falcão) é um deles. O personagem troca o seu amplo apartamento na Usina por uma quitinete no Leblon, realizando o velho sonho de morar a alguns metros da praia. Porém, ao compararmos a paisagem que ele tinha de sua janela na Usina e a que ele tem agora no Leblon, percebemos que a mudança não foi assim tão boa. Antes ele se deparava com montanhas e uma ampla área verde, hoje ele não vê mais que uma parede ao abrir a janela — nesse sentido, o “Praça Saens Peña” é o anti-Manoel Carlos.
Além de propiciar um diálogo visceral com o bairro, o livro de Paulo lhe oferecerá a oportunidade de conhecer os seus heróis, e um deles é o compositor e histórico tijucano Aldir Blanc.
— A seqüência em que o Paulo entrevista o Aldir Blanc foi rodada no Stefanios Bar, que é um dos bares freqüentados pelo Aldir, lá na Rua dos Artistas, que é a rua onde ele passou grande parte da adolescência e da juventude. O Aldir Blanc nasceu no Estácio, assim como o Paulo, mas cresceu na Tijuca. Essa cena é descrita em apenas uma linha no roteiro: “Paulo encontra com o Aldir Blank no Stefanios Bar, essa cena vai ser documental, as falas não serão roteirizadas”. Não tinha como você roteirizar ou dirigir Aldir Blanc, ele próprio já é um filme. Com o Aldir é só na base do improviso — conta Vinícius.
E improviso foi o que não faltou nas filmagens de “Praça Saens Peña”. Embora tendo um roteiro bastante detalhado que passou por dez diferentes tratamentos antes de chegar à versão final e de ter ensaiado muito com os atores, ao longo do set Vinícius permitiu que houvesse espaço para a incorporação do acaso e do calor da hora.
— No “Praça Saens Peña” tinha diálogo escrito, ensaiado, decorado, mas que na hora da filmagem a gente se liberava dele. Dava para se soltar, mas nós tínhamos um guia ali para nos orientar e para qualquer coisa que houvesse. Segundo o cineasta, essa relação elástica e versátil entre o pré-determinado e o inventado no momento de filmar só foi possível pelo fato dos dois atores principais estarem desde o início envolvidos no projeto. Muita conversa, muita dedicação e muito trabalho de mesa foi o que garantiu essa liberdade.
Para o cineasta, filmar “Praça Saens Peña” não poderia ser de outra forma. O ato de filmar lhe revelou uma magia e um mistério que não emanaram com a mesma força durante a escrita do roteiro. A sua memória afetiva e sua relação íntima com o bairro se embaralhavam com o filme que estava criando. Ficção e memória começavam a compor energias de um mesmo fluxo. Fazer “Praça Saens Peña” era como trazer à tona as sensações e a sensorialidade do bairro. Era um instante de descoberta. Diz Vinicíus:
— Sempre digo que não fiz um filme sobre a Tijuca e sim sobre a minha Tijuca. Pois há muitas Tijucas (a região vai da Praça da Bandeira ao Alto da Boa Vista) e no “Praça Saens Peña” só mostro a que eu vivi. O roteiro foi pensado assim e isso me dava segurança para filmar. Mas, na filmagem, esse cenário ganhou uma nova dimensão. Quando apontávamos a câmera e o microfone para essas ruas e esquinas, tão conhecidas; quando marcávamos as cenas com o elenco, nesses lugares, essa Tijuca, que é tão familiar se renovava, surpreendia, se atualizava. Acho que o ato da filmagem torna inédito aquilo que já é conhecido. É um enigma. Ver a Rua Uruguai na telinha do vídeo-assist, ouvir a Barão de Mesquita pelo fone do técnico de som, minutos antes de rodar uma cena, potencializavam e transformavam esses lugares. Isso aconteceu em todas as cenas exteriores. Era só gritar um “corta” e a filmagem acabar para esses lugares restituírem a familiaridade escondida.
*Reportagem originalmente publicada na Zé Pereira # 4, de fevereiro de 2008.
7 comentários para “A Praça Saens Peña é coisa de cinema*”
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29 de setembro de 2008 às 13:31
Como se faz para achar um DVD desse filme? Que coisa interessantíssima!
1 de outubro de 2008 às 8:35
Caro Bruno,
Tb estou aguardando a estréia, o filme será exibido no festival do Rio, ainda não foi lançado. Segue horários do site do festival:
Segunda - 06/10/2008 Odeon Petrobras 15:15:00 hs OD060
Terça - 07/10/2008 Est Vivo Gávea 3 17:50:00 hs GV353
5 de outubro de 2008 às 8:10
[...] Chico Diaz) passa hoje, às 18h, no Ponto Cine e tem sua sessão de gala às 22:30h, no Odeon. Leia aqui uma reportagem sobre o filme, por Estêvão [...]
26 de outubro de 2008 às 8:25
Gostaria de saber, onde posso assistir este filme.
31 de março de 2009 às 10:33
[...] (PR), de Pedro Merege e Beto Carminatti; “Um homem de moral” (SP), de Ricardo Dias; “Praça Saens Peña” (RJ), de Vinícius Reis; “Alô, Alô, Terezinha” (RJ), de Nelson Hoineff; e “Estranhos” [...]
1 de maio de 2009 às 13:51
[...] Leia mais sobre o filme aqui. [...]
7 de junho de 2009 às 19:58
Tomei a liberdade de criar um link no meu blog para esta matéria da Revista Zé Pereira, que dá uma clara ideia sobre o filme “Praça Saens Peña”, assim como traduz de forma precisa o espírito do tijucano.
http://geografiaetal.blogspot.com/