10 de outubro de 2009
A noite do Morcego
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
O quarto dia do 6º Festival Internacional de Quadrinhos já se recuperava do temporal que lhe causara estragos. Num dia em que conhecemos o talento e o carisma do quadrinista mineiro João Marcos e discutiu-se os quadrinhos dentro da sala de aula, o barulho ficou por conta dos fãs do Batman. E ainda entrevistamos os franceses Frédéric Felder e Guy Delisle
Por Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
Na primeira mesa de ontem, contrariando o costume, o teatro João Ceschiatti estava quase todo cheio: algumas escolas trouxeram seus alunos, ali entre seus 12, 13 anos, para prestigiar o quadrinista mineiro João Marcos. Dono de um trabalho autoral publicado em jornais de seu estado desde os 20 anos, Marcos agora também integra a equipe de roteiristas dos Estúdios Maurício de Sousa e assina uma história na coletânea “MSP 50″, em que cinquenta artistas dão sua visão sobre os personagens da Turma da Mônica.
A conversa foi novamente mediada por Sandra Bittencourt e, assim como com o “patrão” de Marcos, pediu que o artista falasse sobre sua infância. “Meu pai sempre gostou muito de quadrinhos e começou a comprar gibis pra mim antes mesmo de eu nascer”, contou. “Todos tinham uma dedicatória, ‘para Marcos ou Clarice’, porque nem sabiam ainda se eu seria menino ou menina.”
Começou a desenhar, claro, ainda criança, e costumava ilustrar as aulas em seu caderno em vez de tomar notas; ou mesmo suas provas, respondendo às questões que não sabia com desenhos. Lia bastante Asterix e as histórias de Carl Barks, além de Turma da Mônica, é claro. Hoje, admira o trabalho de artistas como Jean Galvão (da revista “Recreio”) e o argentino Liniers (que também foi um dos convidados e a Zé Pereira entrevistou).
No FIQ, Marcos lança o livro “O Mundo Mendelévio e o Planeta Telúria”; trata-se de uma coletânea de histórias dos personagens do título, que também foram publicados em jornal, anteriormente. “Eles são baseados em mim e na minha irmã, e nas brigas que a gente costumava ter quando crianças”, disse um simpático e animadíssimo Marcos. “O Mendelévio é mais romântico, otimista, mais tranquilo. A Telúria é justamente o oposto.”
Marcos então contou como começou a trabalhar com Maurício de Sousa. Segundo ele, em viagens à São Paulo no ano passado, fez duas visitas aos estúdios da MSP, intermediadas pelo amigo Sidney Gusman. Mas apenas na segunda vez conseguiu encontrar o pai da Turma da Mônica, e entregar um de seus livro a ele. “O Maurício me recebeu superbem, ele é muito atencioso com todo mundo; daí ele elogiou meus desenhos, e tudo o mais. Um pouco mais tarde, o Sidney me liga dizendo que o Maurício tinha gostado muito das minhas histórias e queria que eu mandasse uns roteiros pra avaliação. Um pouco depois fui efetivado.” E diz que o patrão é tão atencioso quanto das primeiras vezes em que se encontraram. “Ele sempre explica o porque de uma história não ser aprovada, e dá várias sugestões, promove a interatividade entre a equipe; um editor de verdade.”
“Foi um sonho de infância”, continuou o artista. “Lembro da primeira vez em que mandei pra ele um roteiro do Chico Bento: eu, que tinha praticamente toda a coleção do Chico, agora escrevia histórias pra ele.” Não demorou muito, então para acontecer o convite para integrar os artistas de “MSP 50″, e coube a ele fazer uma história do Cascão. “Quando criança, eu realmente acreditava que aqueles planos pra dar banho no Cascão podiam dar certo; aí, resolvi fazer uma história assim.” Apesar disso, Marcos disse que seu personagem preferido para trabalhar é o Cebolinha.
Educação e quadrinhos dá certo?
E João Marcos estava presente também na mesa das 18:30h; mas desta vez, como professor universitário que também é. Agora, acompanhado de Waldomiro Vergueiro (professor da USP), Paulo Ramos (do Blog dos Quadrinhos e professor da Unifesp) e Vitor Lacerda (professor de história e integrante do PNBE – Programa Nacional Biblioteca na Escola). O tema em pauta: educação, bibliotecas e quadrinhos.
Marcos contou de seu trabalho para valorizar as HQs como instrumento pedagógico, indo às escolas fazer palestras onde mostra a variedade de títulos e suas possibilidades de utilização em sala de aula. Ressaltou ainda a importância de se criar a competência da leitura de imagens nos alunos de hoje. “Uma criança que consegue ler e analisar uma imagem juntamente com um texto tem uma formação diferenciada, e com certeza será uma pessoa mais crítica”, afirmou.
Vergueiro foi até a frente do palco para fazer sua fala (“Mania de professor”), e contar de quando começou a discutir o papel dos quadrinhos dentro de uma biblioteca; mas disse também que os quadrinhos por si só não vão salvar a educação. “Os professores precisam saber trabalhar o material que tem”, colocou ele. “Quantos hoje tem hojeriza a Machado porque fomos apresentados a ele do jeito e no momento errado? O mesmo pode acontecer com os quadrinhos.”
O mesmo discurso de preparo dos professores foi enfatizado por Vitor, que colocou ainda a importância de que esta questão seja teorizada para que a seleção de obras em projetos como o PNBE, que distribui livros a escolas públicas para que formem suas bibliotecas, seja cada vez mais diversificada.
A teorização é também o caminho apontado por Paulo Ramos. “Uma das formas mais eficientes de tornar algo sério aos olhos da sociedade é pela academia.” Por isso, afirmou que estas discussões adquirem um importante caráter político, ao se discutir, por exemplo, a indicação do uso de HQs em sala pela por parte do governo, mas que os professores ainda tenham uma visão estereotipada dos quadrinhos e que a seleção de livros ainda cometa equívocos, como nos casos de “Dez na área, um na banheira e ninguém no gol”, em São Paulo, e “Um contrato com Deus”, no Paraná (se você não sabe do que se trata, não vive neste mundo; vá ali no Google rapidinho e volte em seguida).
“Tenho medo de um retrocesso no PNBE após esses casos”, disse Ramos, “porque a forma como o MEC vê as HQs ainda é ruim; tanto que preferem as adaptações literárias.” E então, em um oportuno aparte, Afonso Andrade, um dos organizadores do FIQ mediando o debate, afirmou que, como (também) professor, acha que é hora de que se crie uma câmara setorial de quadrinhos dentro do Ministério da Cultura: assim, o diálogo entre pesquisadores e governo facilitaria a implementação destes programas de forma adequada, bem como a formação de professores e bibliotecários.
Os capas pretas!
E então, pouco depois das 20h, pela primeira vez neste FIQ, o teatro João Ceschiatti se encheu completamente. Não era pra menos: um time de estrelas se juntou para um “bat-papo” (sim, trocadilho infame, e digo logo que roubei do Afonso Andrade) sobre os 70 anos do Batman. Presentes, Ivan Costa (curador da exposição no Festival sobre o Morcegão), os desenhistas Ivan Reis, Ed Barros, Rafael Albuquerque, Joe Prado, Ben Templesmith (convidado de última hora, mais pela farra que qualquer outra coisa) e o editor-sênior da DC Comics, Eddie Berganza.
Durante as primeiras falas, Eddie afirmou que o melhor do Batman é o fato de ser um personagem que permite múltiplas interpretações pelos artistas; já enquanto os artistas contavam suas primeiras experiências com o personagem, Prado disse que ficou extasiado com a sua “primeira vez”, em uma edição de “Action Comics”, porque pôde desenhar vários heróis de uma vez só, “E eu sou nerd mesmo! NERD PRIDE!”, gritou, arrancando risos e aplausos de aprovação.
As perguntas foram variadas, desde o novo jogo Asilo Arkan, que Prado afirmou seu o melhor jogo de herói de todos, por ser totalmente condizente com o universo do personagem, a quem seria o melhor vilão para o próximo filme da franquia; nisto, as opiniões se dividiram, mas Berganza afirmou que a Mulher-Gato seria ideal para equilibrar as coisas, já que a personagem feminina principal morreu no último filme. Ao que Ivan Costa pergunta: “Todo mundo viu o filme, né?”, causando mais gargalhadas.
Também houve o consenso de que Dick Grayson é mesmo a única opção para substituir Bruce Wayne (quê? Não sabia? Ele morreu! Google now!); mas Reis lembrou que a DC sempre admitiu sua volta, e que isto é uma espécie de experimento para mostrar como se comporta o universo da editora sem a presença de Bruce Wayne. Os coadjuvantes também foram lembrados, e Berganza afirmou que eles representavam tudo o que Bruce havia perdido (a figura paterna em Alfred, por exemplo), à exceção do Curinga, que representa o que ele poderia ter sido.
E é claro que a controversa “All Star Batman & Robin” não poderia deixar de entrar na roda; a série escrita por Frank Miller e desenhada por Jim Lee serviu de parâmetro para perguntar aos presentes se não havia limites ao se dar uma visão de um personagem; Reis disse que é justamente a falta de barreiras uma das melhores coisas das HQs, e foi complementado por Costa, que lembrou que o fato de o Batman ser um herói mais oriundo de histórias de crime e mistério lhe confere uma maior capacidade de transitar entre estilos. E quando Berganza foi perguntado, no contexto das especulações de que o gibi era a forma de Miller provar que podia fazer o que quisesse, se o roteirista realmente não sofria mais sanções editoriais, Berganza respondeu simplesmente que algumas coisas podem, outras não podem.
Pra concluir, sobre o Batman como integrante da Liga da Justiça, Albuquerque disse não gostar muito, por este fato contrariar a essência de cavaleiro solitário do personagem. Reis, com mais uma ótima tirada, disse que o Homem-Morcego provavelmente morre de raiva dos outros integrantes. “Toda aquela gente cheia de poder pra mudar o mundo e fazendo cu doce por conta de política e sei lá mais o quê? Ele deve é ficar muito puto com todo mundo!”
Vive La France!
Como este FIQ também integra as comemorações do Ano da França no Brasil, resolvemos fazer a nossa parte e entrevistar dois dos franceses de maior destaque no evento: Frédéric Felder, que junto com Cizo montou a incrível exposição Supermercado Ferraile (da qual nós já falamos), e Guy Delisle, cujas HQs autobiográficas (como Crônicas Birmanesas) tem sido trazidas ao Brasil pela Zarabatana Books. Omelette du fromage!
Entrevista - Frédéric Felder
De onde veio a idéia para o Supermercado Ferralier?
Tudo começou com a nossa editora, a Requins Marteaux, e a necessidade de estarmos presentes em festivais de quadrinhos; achamos que esta era uma maneira de fazer isso sem ficarmos presos à tradição dos desenhos na parede, e tal. Pois bem, na França se diz que cultura é algo que não está à venda. Pois nós subvertemos isso.
Os produtos mudam de acordo com o lugar da exposição ou as temáticas são sempre as mesmas?
A exposição foi criada em 2002 e era fixa até três ou quatro meses atrás, quando a adaptamos para o Festival de Aurillac. É um festival de teatro de rua, tem um público mais específico. Criamos para eles o patê de cachorro de punk; lá existem muitos deles, todos com um cachorro… mas foi a primeira vez que fizemos a adaptação à pedido da organização do evento.
Houve algum lugar aonde a exposição não foi bem recebida?
Não, não. Apenas casos isolados de visitantes que não entendem a ironia da piada e não a recebem bem, como no caso do nosso patê de golfinho. Algumas pessoas reclamaram.
A transição para outras expressões artísticas se deu apenas pelos festivais ou por uma necessidade de ampliar o espectro de criação?
Não, nunca quisemos nos fechar apenas nos quadrinhos. A editora trabalha com várias outras áreas, como animação, escultura… se não, ficariam só os nerds de gibi, cheios de espinhas, num verdadeiro festival de hormônios.
A visão ácida a respeito da sociedade na exposição é pessimismo? Ou a raça humana tem jeito?
(Silêncio) Sou tão pessimista quanto sou confiante. Na Europa, as relações humanas andam péssimas, tudo muito organizado pelo marketing, a vida vai perdendo o sendo; mas quanto pior fica, mais eu tenho vontade de rir disso.
Já sabem qual é o próximo país aonde o Ferralier vai abrir uma filial?
Provavelmente em um país lusófono, porque sobraram umas duas mil latas desta exposição.
Vocês passaram quanto tempo para abrir esta filial?
Uma semana, bem intensiva; conversamos com roteiristas e desenhistas, visitamos os supermercados da cidade… eu fiquei bem satisfeito com a adaptação, e a troca com os profissionais foi muito boa.
E o que vem pela frente com relação aos quadrinhos?
Estamos pensando em publicar livros na França com o pessoal da “Samba”, da “Quebra-Queixo”, da “Beleléu” (revistas independentes cujos criadores tem um estande no FIQ)… gostei muito do trabalho deles.
Que produto do Ferralier você recomendaria? E que gibi você daria a alguém que quer conhecer os quadrinhos de vocês?
Eu daria a nossa Capirinhaque (Caipirinha com conhaque, a garrafa enorme que ele está segurando na foto desta matéria) ao embaixador da França. E recomendo “Pinocchio”, do Winshluss; ela quase não tem diálogos, é mais acessível pra quem não fala francês.
Entrevista – Guy Delisle
Seu trabalho publicado por aqui trata de suas experiências no exterior; se tivesse mais tempo para passar aqui, acha que o Brasil renderia uma boa história.
É difícil saber; eu realmente precisaria de mais tempo, pelo menos um ano. Estes trabalhos são a respeito de lugares nos quais morei, como o Vietnam; Em Quebec, eu não tinha muito o que dizer a respeito. Estou voltando agora de Jerusalém, talvez faça um livro sobre esta viagem; mas preciso consultar minhas anotações para saber.
Você começou sua carreira na animação; pretende voltar a ela algum dia?
Não. Gosto de animação, mas no final da minha carreira eu estava só supervisionando o trabalho; e não existem mais estúdios na França, então todos fechando. Fiz alguns trabalhos na China, para a televisão, mas o resultado não foi muito bom. Isso acaba sendo frustrante.
Como foram as impressões que você recebeu do público brasileiro no Festival?
Bem, a maioria foi pedidos de autógrafos. Fiz uma sessão ontem, mas a chuva causou todo aquele transtorno, acabamos prejudicados, também. No fim das contas, até agora, conheci mais jornalistas do que leitores.
Você também tem trabalhos de ficção; sente alguma diferença entre eles e seus trabalhos autobiográficos?
Considero mais ou menos o mesmo trabalho; para se fazer uma história de ficção, também se usa elementos do seu dia-a-dia.
Além da possibilidade deste projeto sobre Jerusalém, está trabalhando em um novo gibi?
Na verdade, antes de qualquer coisa, estou pra lançar um livro de ilustrações sobre Jerusalém; daí então, dependendo do material que eu possa tirar de minhas anotações, virá o gibi.
Você vem do mercado francês, que sempre encarou as HQs como arte, ao contrário de países como EUA, Brasil, e até mesmo a Alemanha. Como mudar esse preconceito?
É um longo processo. Tenho amigos na Coréia do Norte, por exemplo, que precisaram esperar muito até conseguir publicar alguma coisa, que outros títulos saíssem. Não acontece imediatamente. Mas é preciso que se chame o público, e também os que deixaram de ler gibis. Na França, este é o único mercado editorial que ainda cresce, mas lá já existem livrarias apenas para quadrinhos, por exemplo. Uma estrutura assim tem que ser criada nestes países.
Desde “Maus”, algumas das mais aclamadas graphic novels dos últimos tempos são autobiográficas; você acha que os quadrinhos são o meio ideal para este tipo de história?
Dentro dos meios visuais, com certeza; é bem mais fácil fazer uma história deste gênero nos quadrinhos do que na TV, por exemplo. Mas comparo muito com as novelas, meio no qual este gênero também é bastante popular.
Exposições – Parte III
Os capas pretas realmente não tem do que reclamar. Além de um incrível bat-papo (não resisti a usar de novo) com convidados de primeira grandeza, a exposição comemorativa dos 70 anos do Morcegão é realmente de encher os olhos de qualquer fanboy. Uma linha do tempo foi montada com vários gibis antigos e novos, dos títulos próprios e também de outros ligados ao universo de Gotham City.
Arte original? Claro que sim. E de feras como George Perez, Phill Jimenez, Jim Lee, Bill Sienkiewicz, John Romita Jr. e Michael Zuli. Isso sem falar dos desenhos feitos especialmente para a exposição por artistas do gabarito de Alex Maleev, Eduardo Risso, Will Conrad, Mike Deodato Jr., Rafael Grampá, Ben Templesmith, Eddy Barrows, Joe Bennet… tudo em painéis que contavam a história do Morcegão e de seus coadjuvantes mais notáveis. E algumas estatuetas, e várias miniaturas das várias versões do Batmóvel…
Já a exposição dedicada à segunda homenageada deste FIQ, a ilustradora Ciça Fittipaldi, poderia ter tido um pouco mais de espaço. São poucas as obras da artista a serem exibidas, mas já se dá para ter uma idéia da razão de ela ter recebido a honraria; as cores quentes, o traço pictórico e a influência das culturas indígenas com as quais conviveu em suas pesquisas são algumas das características do exuberante trabalho de Ciça. E ainda tem uma página original de uma de suas pouquíssimas incursões nos quadrinhos, uma história nunca publicada (seria para um revista masculina) sobre as aventuras eróticas de um certo Macunaíma.
3 comentários para “A noite do Morcego”
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11 de outubro de 2009 às 9:31
Os bate-papos foram muito interessantes, mas a desorganização do evento não permitiu perguntas melhores. O bate-papo com Craig Thompson foi constrangedor, só perguntas ridículas, principalmente do Bira, que estava na mesa.
Poderiam implementar uma inscrição para fazer as perguntas.
E deu pra perceber que o Guy Delisle não estava muito feliz. =(
20 de outubro de 2009 às 11:25
Aqui é o Evandro Esfolando, editor da revista Quebraqueixo - A Banda Desenhada. O Felder é genial e foi muito bom conhecê-lo. Tomara mesmo que ele publique a minha revista e também a Beleléu e a Samba na França!
21 de outubro de 2009 às 15:07
Parabéns pela cobertura, muito bem feita do FIQ! Excelente!!! Fiquei muito feliz em ver/ler sobre a minha participação, tudo muito bem descrito e escrito! Parabéns a Dandara e Rose! Abraços