15 de setembro de 2008
A morte do sapo
Por Arnaldo Branco
Finalmente aconteceu. Como as artes plásticas, que cumpriram uma trajetória que chegou ao auge do prestígo da técnica - o período entre renascentistas e expressionistas - e depois à prevalência do instinto sobre as outras formas de metodologia artística, assim se sucedeu com o humor. E o comentário recorrente dos críticos da arte moderna (”uma criança poderia fazer isso”), também se aplica aqui. Humor é uma forma de estabelecer um ponto de vista, que pode, e geralmente deve, ofender suscetibilidades. Por isso as primeiras tentativas na área tanto em nossa história pessoal, quando crianças, como da humanidade como um todo, enquanto primatas, aludiam às feições e roupas de nossos colegas - no caso dos primatas, roupas um pouco menos. Mais adiante, na evolução da espécie e em nossas vidas, a coisa tendia a melhorar. Aprendíamos - geralmente por tentativa e erro - o uso da ironia, da reversão de expectativa e de outros recursos que não só tornavam as piadas mais complexas, mas também as chances de réplica do sujeito sacaneado. Evoluímos até uma era de ouro (digamos de George S. Kaufman até Jerry Seinfeld), mas agora vivemos um revival do humor primário em que a sutileza é considerada uma forma de academicismo. Escrevo isso depois de ler na Rolling Stone uma entrevista com Perez Hilton, blogueiro americano especialista em fazer comentários engraçados sobre a vida de celebridades, a 250 mil dólares por mês. Na entrevista o que lhe ocorre dizer sobre sua vítima favorita, Britney Spears, é: “uma estúpida. Tipo, estúpida estúpida. Uma vagabunda horrível burra e drogada”. O humor voltou a sua forma primordial, a ofensa. Já tinha captado sinais dessa desconstrução da figura do humorista quando soube que usavam o termo para designar o Marcos Mion, coisa que deveria dar em processo por falsidade ideológica. É só ver o que entra na grade da programação da TV sob o rótulo de “cômico”: shows de pegadinhas, em que a legenda com os créditos de responsável pelo conteúdo bem poderia dizer “qualquer carinha na rua”. E.B. White disse que analisar humor é como dissecar um sapo: poucos se interessam e o sapo morre no processo. Mas a dúvida é se o sapo ainda é passível de vivisecção, ou se já está pedindo autópsia.
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