10 de outubro de 2008
A morte careca
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
VERMELHO SANGUE
(”Profundo Carmesí”, Arturo Ripstein, México/Espanha/França, 1996)
Por Fernando Gerheim
Em “Vermelho sangue”, Arturo Ripstein volta sua câmera mais uma vez pras árvores tortas da floresta. É um filme muito mexicano, como os outros da mostra em sua homenagem, que destoa da imagem uníssona que hoje quer fazer todo cinema parecer igual.
O personagem Nicolas (Daniel Gimenez Cacho) afeta sotaque, fingindo ser espanhol. Ele põe anúncios pra atrair mulheres de meia-idade e roubá-las, e certo status ajuda.
Coral (Regina Orozco) é uma mulher gorda, carente, com dois filhos, que cuida de pessoas idosas, lê revistas de fofoca e admira o galã Charles Boyer. Quando ela encontra Nicolas, acha-o parecido com o ídolo.
Em vez de frios psicopatas de filme americano (o último dos irmãos Cohen, por exemplo), eles são tão humanos quanto qualquer um. Até demais. Coral precisa de alguém pra amar, e se Nicolas não a quiser, cometerá suicídio (melodrama… muito mexicano). Nicolas sai de si quando perde a peruca.
Colral dá os filho pro orfanato, passa a fingir ser irmã de Nicolas e essas duas figuras dignas de Nelson Rodrigues se juntam pra aplicar os golpes. Mas ela não agüenta ver ele com as outras. Mata a primeira num impulso, pondo veneno de rato no drinque (mais uma vez o raticida, como em “O castelo da pureza”, muito mexicano). A segunda é uma viúva carola, porém fogosa (Marisa Paredes). Carol intromete-se, põe a mão entre as pernas de Nicolas (“Ele é meu!” “Ele é meu!”). A viúva, chocada (Incesto! Incesto!), ajoelha-se e começa a rezar. Nicolas também surta, gritando pra ela parar com aquela cantilena pelo amor de Deus. Coral golpeia-a com a escultura de Nossa Senhora de Guadalupe (muito mexicano).
A terceira é jovem, muito bonita, mais rica que as outras, com uma filha pequena, e vive fora da cidade, num descampado de velho-oeste (muito mexicano). Ela bem poderia fazer Nicolas, que chega a fazer sexo com ela, mudar de vida. Confuso, Nicolas bebe, fica de ressaca, e como sempre ocorre nos seus momentos de fragilidade emocional, perde a peruca. Implora perdão a Coral, que o faz esfaquear a outra. Mas a criança, que assistia a tudo, não pára de chorar. Nicolas dá a idéia e Carol a afoga na banheira. A memória de seus próprios filhos, porém, a desestabiliza; é difícil dizer se é um lampejo de lucidez ou de loucura que a faz sentir-se culpada e ligar pra polícia.
É o fato de ver o ser humano por trás da imagem (sem peruca, sem Charles Boyer) que faz a diferença.
Nicolas pede ao delegado pra devolver-lhe a peruca, pois a imprensa vai chegar, e sabe como é, esses jornalistas procuram sempre o lado mais apelativo. Eles são levados pro descampado.
“Podem ir”, ordena o delegado com jeito de sargento Garcia, ao lado dos outros meganhas.
Coral quer fugir.
“Não vamos correr como animais”, pede Nicolas.
“Está bem. Estou feliz. É o momento mais feliz da minha vida.”
A polícia atira. Eles caem mortos sobre a poça.
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