Reportagens

25 de setembro de 2008

A marcha sem volta dos cineclubes

Texto: Denise Lopes
Foto: Michael Ende

Mate com Angu, Beco do Rato (foto), Buraco do Getúlio, Subúrbio em Transe, Cachaça Cinema Clube, CineGostoso… Nomes que nem sempre lembram a tradição de contestação e resistência do movimento cineclubista dos anos 60/70 batizam os principais pontos da atividade hoje no Rio, de Japeri ao Centro, do Cosme Velho à Região dos Lagos. Segundo estimativa da Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro (Ascine), eles são mais de 50 em todo o estado, e reúnem, em média, por mês, mais de 4.000 pessoas em suas sessões. Só filiados à entidade, criada há um ano, havia, até o fechamento desta edição, 34 cineclubes.

— As exibições sistemáticas de filmes são muitas, crescem exponencialmente, e não temos informações sobre todas. Se bobear, durmo e acordo amanhã com mais dois ou três associados. O número de pessoas que nos procuram em busca de informação é enorme — diz Rodrigo Bouillet, diretor-geral da Ascine.

Na era digital, em que o DVD substitui, na maioria das vezes, o tradicional projetor de 16mm, a maior regra neste circuito alternativo audiovisual, que não compactua com o gosto vigente dos cinemas comerciais, parece ser, exatamente, não ter regra. Um galpão rodeado de barraquinhas de comidas e bebidas, em Duque de Caxias, onde a projeção acaba numa alucinada festa, com direito a trenzinhos funk e gente dormindo pelo chão; uma varanda de bar, em Nova Iguaçu, escurecida por cortinas pretas amarradas com barbante, onde basta um intervalo para adentrarem homens com pernas de pau, cuspidores de fogo, repentistas, poetas e toda sorte de artistas; ou mesmo um beco, no Centro, outrora histórico por ter abrigado personagens como Manuel Bandeira, Chiquinha Gonzaga e Madame Satã, ocupado por mesas, garrafas de cervejas e música; compõem cenários inusitados para a projeção daquilo que não se vê nas telas oficiais da cidade. Por ali, são exibidas as últimas fornadas de curtas periféricos ou não, pré-históricos e poucos conhecidos, undergrounds, como Nilson Primitivo e Edgard Navarro, filmes experimentais, clássicos… produções raras que até há bem pouco tempo não tinham onde serem vistas.

A atividade cresceu tanto no país de uns três anos para cá que acaba de ser reconhecida institucionalmente. Uma instrução normativa da Agência Nacional do Cinema (Ancine) definiu, no início do mês, o que é um cineclube e estabeleceu normas para seu registro facultativo. A regulamentação passou por uma consulta pública e dá direito, a partir de agora, a que os cineclubes possam tirar o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) sem precisarem mais recorrer ao subterfúgio da utilização do registro de ONGs e projetos que apóiam suas exibições. Um modelo de formulário para o pedido do “Certificado de Registro de Cineclube” já está disponível, inclusive, no site da Ancine. Luta antiga de quem milita na área, a regulamentação possibilita aos cineclubes captarem dinheiro através das leis de incentivo, buscarem patrocínios junto a empresas e terem editais de fomento e apoios governamentais direcionados às suas atividades. Uma verdadeira revolução no movimento cineclubista. De prática social-fantasma a sociedades civis sem fins lucrativos, voltadas para a exibição de obras audiovisuais nacionais e estrangeiras e para a realização de conferências, cursos e atividades afins, os cineclubes atraem cada vez mais atenção num “mercado” audiovisual carente de espaços para exibição. O Cine Santa, em Santa Teresa, que começou como cineclube na Igreja Anglicana do bairro, é um exemplo de como a atividade poderá evoluir a partir da regulamentação.

Mas, apesar do visível upgrade, há quem critique a emancipação.

— Temos medo da burocratização. Medo do dinheiro. O Mate é um movimento utópico. Tomávamos conta do bar, mas abrimos mão. Ele podia ser uma fonte de recursos. A Lira do Ouro deixou que a gente o administrasse nas noites de exibição, mas não deu. Não conseguíamos fechar as contas. No final da noite, todo mundo doidão, tomávamos era prejuízo — diz Igor Barradas, um dos responsáveis pelo Mate com Angu, cineclube que funciona toda última quarta-feira do mês, num galpão da Sociedade Artística e Musical Lira do Ouro, no Centro de Duque de Caxias. — Essa é uma discussão interminável, mas a gente teme que isso engesse o movimento. Achamos que quanto menos oficial melhor.

No último Festival do Rio, um debate intitulado “Reconhecimento institucional do cineclubismo”, com representantes do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC), Federação Internacional de Cine Clubes (FICC) e Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas (ABD&C) discutiu a idéia de auto-sustentabilidade dos cineclubes e agitou a questão.

No Buraco do Getúlio, criado em julho de 2006, que funciona toda segunda segunda-feira do mês no bar do Ananias, a palavra de ordem também é não enquadrar, apesar de a regulamentação ser vista com bons olhos. Nos intervalos dos filmes, grupos de Nova Iguaçu, como Desmaio Público, de poesia, e Movimento Alternativo de Cultura e Arte (Maca) fazem intervenções culturais. Oriundo do trabalho da Escola Popular de Comunicação e Crítica da Maré, tem apoio do Observatório de Favelas e prioriza o cinema experimental e a videoarte.

— Na maioria das vezes não temos tema. A idéia surgiu num bar, e não queremos perder esse clima. Mas, neste mês de outubro, as crianças terão vez, com a projeção de animações — diz Luana Pinheiro, 21 anos, que junto com Diego Bion, toca o Buraco, nome da passagem subterrânea da linha férrea na Avenida Getúlio de Moura, em frente ao Ananias, onde acontecem as sessões.

Controvérsias à parte, o fato é que paralelamente ao crescimento do movimento e ao desejo de legalização, a atividade começa a sentir pressão de órgãos oficiais, como o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), que começou a cobrar pelo direito autoral das músicas executadas nos filmes exibidos nos cineclubes.

— Nem os exibidores convencionais, os Cinemarks da vida, pagam, mas não tenho como fazer com que todos os cineclubes rasguem os boletos de cobrança. Não temos departamentos jurídicos e muitas vezes eles cobram direto da instituição que abriga o movimento, como aconteceu na Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, onde funciona o cineclube da ABD&C. Isso cria constrangimentos para uma atividade que vive de parcerias — diz Rodrigo.

A polêmica, que promete inflar, já está agendada para a 17ª edição do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, próximo Curta Cinema, que acontece de 25 de outubro a 4 de novembro, na cidade.

Multiplicadores de público, formadores de opinião e guardiões da chamada “diversidade cultural”, os cineclubes são vistos como poderosos termômetros e difusores de obras, em locais abandonados pelo circuito tradicional. Pensando nisso, a Riofilme (distribuidora de cinema da prefeitura do Rio) acaba de assinar acordo com a Ascine para ceder gratuitamente seus lançamentos, tão logo as estréias comerciais aconteçam, para os cineclubes. Em especial, para os da Baixada Fluminense. Filmes como “500 Almas”, de Joel Pizzini, “As tentações do irmão Sebastião”, de José Araújo, e “Conceição”, criação coletiva dos alunos do Departamento de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), já cumpriram um périplo no último mês por locais onde jamais seriam vistos. Os próximos a rodarem serão “Mestre Bimba — A capoeira iluminada”, de Luiz Fernando Goulart, e “Brasileirinho”, de Mika Kaurismäki. Os cineclubes de Japeri, Caxias, Mesquita, Vila Isabel e Lapa formam o primeiro circuito Ascine/Riofilme.

Preocupada em dimensionar esse novo circuito, a Riofilme criou também o “bilhete cineclubista”. Com ele, os cineclubes podem contabilizar seus adeptos, e a Riofilme, legitimar seus números, como já faz nas exibições nas lonas culturais. Assim, o “mercado” cineclubista terá uma avaliação exata de seu público, e os filmes nacionais, lançados pela distribuidora carioca, aumentarão seus números de espectadores e paralelamente a probabilidade de aumentarem seus Prêmios Adicionais de Renda, verba repassada pela Ancine aos filmes nacionais de maiores bilheterias. A Ascine, gestada no encontro de cineclubes realizado no Festival de Cinema de Brasília de 2003, evento responsável em grande parte pelo crescimento da atividade no país, gerencia a distribuição dos mais de 3,5 mil bilhetes doados pela Riofilme, que mês passado acabaram rapidamente.

Cachaça, mate e angu

Só o Cachaça Cinema Clube, um dos mais antigos cineclubes do Rio, que completou cinco anos em agosto, leva a cada edição cerca de 500 espectadores ao Odeon, no Centro.

— Passamos praticamente de 2003 a 2006 com um público de 800 pessoas. Muita gente ficava do lado de fora. Hoje deu uma acalmada e foi bom. Não queríamos status de festa. Nosso objetivo é valorizar os filmes — diz Lis Kogan, que como seus três parceiros, Karen Black, João Mors e Débora Butruce, é ex-estudante de cinema da UFF. — Sobrevivemos à base de apoios, do Odeon, da Gráfica Alves, da Cachaça Velha Província e do bar Belmonte, que nos dá a batida de gengibre. Não temos nenhum patrocinador.

A preferência é por curtas brasileiros que contribuam para a renovação da linguagem, busquem alguma ousadia e possam dialogar entre si. As temáticas são diversas e contemporâneas, mas podem incluir curtas da década de 20, precursores dos cineclubes na época, como “Maluco e Mágico” (1927), de William Shoucair, cinejornais, como “Rossi Actualidades”, de 1926, ou títulos como “Filme pornográfico”, de autor desconhecido. Único que cobra ingresso do circuito Ascine, R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), o Cachaça, como outros cineclubes, tem prêmio e realiza produções coletivas, como “Acossada” (2007), feita em parceria com a produtora Cineclube Pela Madrugada, do Humaitá. Em novembro passado, foi responsável pela seleção de 30 curtas para a mostra Foco Brasil dentro do Interfilm Berlin, um dos maiores festivais de curtas do mundo.

— Foi a maior responsabilidade, mas as sessões brasileiras foram bem acolhidas — conta Lis.

Com cinco anos também de existência, o Mate com Angu tem mais de 15 curtas coletivos realizados e o programa “Angu TV”, só com questões urgentes da cidade. Seu idealizador, Marcio Bertoni, soldador de submarinos da Marinha, largou a farda e está hoje trabalhando numa TV, na Venezuela. O Mate, que forma gente como Bertoni, nasceu na Fundação Educacional de Duque de Caxias (Feuduc), como uma mostra de História.

— Nossa primeira exibição foi para ninguém, no Campus da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), em Caxias. Começamos, então, a “exibir” os filmes pelo rádio. Chamávamos de “cinema cego”. O filme era projetado no auditório e o som ia pelos alto-falantes para todo o campus. Ao final, fazíamos debates — conta Igor.

Hoje, o Mate é sucesso total. Além dos filmes, as sessões têm música, poesia, performance, provocações estéticas, grafismos, teatro… Mas o que faz o local fever mesmo é a festa com DJ ao final. O nome vem da merenda servida no passado numa escola da região.

— Todo mundo pergunta se a gente tem essa combinação aqui. Um dia conseguiremos verba para montar o cardápio — brinca Igor.

Mas o que mais espanta no Mate é o gosto dos espectadores, que votam nos melhores filmes, na última sessão do ano.

— Aqui sempre ganha o filme mais diferente mesmo. “Fernando José, o cantor das multidões”, do Felipe Reynaud, feito na Estácio (Universidade Estácio de Sá), ganhou o prêmio do público, e “Dominação bizarra”, do Matias Maxx e Zé Colméia, ficou com o Angu de Ouro, sem nunca ter sido aceito num festival. A gente não sabe por que gosta, mas essa possibilidade de nos refrescar do que rola por aí nos agrada. Caxias é um município muito reprimido, tem estigma de antro de bandido, esquadrão da morte, Tenório Cavalcanti, foi área de segurança nacional, sofreu tentativas de guerrilhas, é visto como cidade-dormitório, sinônimo de miséria… se a gente libera essa válvula através da cultura, a coisa explode. É por isso que o Mate fica lotado — explica Igor.

O estilo Mate contagia outras iniciativas próximas. No Sesc de São João de Meriti, o teatro de 350 lugares fica lotado a cada sessão do Cinema Com Batuque. Além dos filmes, a apresentação de MCs deixa gente do lado de fora circulando pelos corredores apertados.

— São como as matinês dos anos 50 — conta Igor.

No Cine Guandu, em Japeri, a idéia do cineclube partiu de um curso de formação em vídeo para adolescentes.

— Quem comanda lá é o Pablo (Cunha), um maluco que apareceu do nada, se formou em arte e foi dar aula em Japeri. Formou um curso democrático de fazer filme com máquina fotográfica e edição em Movie Maker (um programa de computador bem simples), numa sala subocupada, montou o cineclube e já tem dez filmes realizados — conta Igor.

— Queria me apropriar de tecnologias novas capazes de construir outras formas de pensamento e de fazer intervenções no social. Filmávamos de cinco em cinco minutos, descarregávamos e voltávamos. Tripé é cabo de vassoura. Grua, uma armação de madeira, que sobe três metros — diz Pablo.

Ramos, Mesquita, Meriti, Tijuca, Lapa, Centro, Vila Isabel, Botafogo, Urca, Cosme Velho, Rio Comprido, Flamengo… por todo Grande Rio pipocam iniciativas como a de Pablo, Igor e Lis. A Companhia de Filmes Baratos, de Marcelo Yuka, mantém o Cine-Prisão, com exibição de filmes para os detentos da delegacia de Nova Iguaçu. O Subúrbio Em Transe, em Vista Alegre, um dos caçulas da Ascine, também ataca de programação alternativa. Mas há cineclubes voltados para a exibição de clássicos, documentários e até mesmo “cinemão”. O movimento se espalha também pelo interior e pela Região dos Lagos. O Cinema Na Rua, de Rio das Ostras, ajudou na organização de um encontro da atividade no último mês, em Cabo Frio, onde foram mapeados outros grupos. Só em Niterói, há quatro cineclubes com atividades regulares em operação. Tanta movimentação prova que interesse pelo audiovisual é o que não falta no Rio. Com a chegada da regulamentação do cineclube e as crescentes facilidades da era digital, a tendência é de que a atividade cresça ainda mais.

— Não tem volta. Cineclube é coisa novidadeira. Não pára, não — atesta Rodrigo.


Um comentário para “A marcha sem volta dos cineclubes”

  1. Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » Cineclubismo em debate disse:

    [...] Nelson Krumholz (do Grupo Estação) e Eduardo Souza Lima (editor da revista Zé Pereira). Leia aqui uma reportagem de Denise Lopes sobre o movimento no [...]

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