11 de janeiro de 2010
A esquerda séria
Por Arnaldo Branco
Antigamente a direita era séria e a esquerda era cínica. O conservador clássico era aquele sujeito que queria preservar os valores que a esquerda queria destruir, como a família, a religião, o Bing Crosby. O esquerdista era o cara que ironizava esse mundo de rituais e aparências caretaço em que o indivíduo de direita fingia viver.
Hoje tudo mudou. A direita não tem mais grandes interesses na tradição e na família, concentrando sua atenção na propriedade, e a esquerda ficou com bandeiras que já foram revolucionárias, mas agora são consideradas senso comum e seus defensores, malas que chovem no molhado.
Todo mundo sabe como a ecologia é importante e como passar fome em país subdesenvolvido é chatão, mas ficar o tempo todo ligado nisso é meio asfixiante. É difícil manter a prontidão necessária para ser um cara firmezão de esquerda quando se resolve levar a namorada no restaurante japonês.
Enfim, esse intróito é para comentar o caso Boris Casoy, flagrado no intervalo do seu telejornal zoando a mensagem de feliz ano-novo que recebeu de dois lixeiros. Antes de mais nada, não entendo como esses apresentadores se sentem à vontade para fazer piadinhas desse naipe cercados por tantas câmeras, ainda que seus operadores garantam que elas estejam desligadas. Esse tipo de vacilo tem tantos antecedentes (Galvão, Bial, etc) que seria uma boa se os âncoras cogitassem brincar de Vaca Amarela antes de entrar ao vivo.
E depois, a reação. Que o Boris Casoy (com seu passado no CCC e como cabo eleitoral do Maluf) é um sujeito sem critério que pode mesmo muito bem achar gari sub-raça, não nego. Mas o comentário, idiota e sem graça que seja, não é muito diferente do tipo de piada politicamente incorreta que já ouvi em bares da boca de paladinos da justiça social que acreditam ter alvará pra brincar de Caco Antibes.
O problema é que teriam a mesma dificuldade do Casoy em se defender da opinião pública se flagrados com a boutade sem o contexto de sua militância. A revolta de setores da esquerda com o apresentador lembra a indignação simulada da oposição a cada merda ou sifu dito pelo Lula, ou aquelas pessoas, nenhuma delas com mais de 90 anos, que chamaram um top-top de um assessor da presidência de “gesto obsceno”.
Nós gostamos de fingir que somos essencialmente bons e nunca dizemos algo desabonador sobre o próximo. A verdade é que brasileiro perde o emprego, mas não perde a piada.
29 comentários para “A esquerda séria”
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11 de janeiro de 2010 às 22:36
[...] Em sua coluna desta semana, o Arnaldo Branco lembra o caso Boris Casoy para comentar como a esquerda anda séria - pelo menos longe das testemunhas. Leia aqui. [...]
12 de janeiro de 2010 às 10:41
Oi Arnaldo,
Adorei a coluna, mas discordo em um ponto. A chamada nova direita, composta basicamente por colunistas da Veja (leia-se Reinaldo Azevedo) continua defendendo os tais valores familiares e o catolicismo contra o caos que pode ser instaurado com união civil de pessoas do mesmo sexo, aborto, entre outros. Vai lá dar uma olhada, se vc tiver com o fígado em bom estado.
12 de janeiro de 2010 às 10:57
Não concordo, Reinaldo Azevedo não representa nenhuma agremiação humana. A esquerda daria graças aos céus se todos seus adversários fossem tão caricaturais e usassem aquele chapeuzinho ridículo…
12 de janeiro de 2010 às 11:54
Querido Arnaldo… depois desse histórico “vacilo”, Boris se superou na noite de ontem: tacou no ar uma matéria criminosa e totalmente distorcida sobre o PNDH. Todos os princípios do jornalismo jogados no lixo. Pobres garis, vão ter ainda mais trabalho com Boris.
http://www.band.com.br/jornaldaband/videos.asp
12 de janeiro de 2010 às 12:33
A coluna não é a favor do Casoy, é contra a hipocrisia. Pra mim quem usa bordão é comediante…
12 de janeiro de 2010 às 12:43
arnaldo, certamente o boris casoy não fez apenas uma piadinha e com certeza considera gari uma sub-raça. para mim - é minha opinião, pra deixar bem claro - taí a diferença.
12 de janeiro de 2010 às 16:12
[...] Minha coluna Mal Necessário da semana: A Esquerda Séria. [...]
12 de janeiro de 2010 às 16:44
“Isso é uma vergonha!”
12 de janeiro de 2010 às 19:06
jornalista é subraça.
12 de janeiro de 2010 às 22:10
Porra, e agora, nem zoar com o Boris Casoy eu posso mais…
Cartunista telepata é foda…
12 de janeiro de 2010 às 22:32
“A revolta de setores da esquerda com o apresentador lembra a indignação simulada da oposição a cada merda ou sifu dito pelo Lula, ou aquelas pessoas, nenhuma delas com mais de 90 anos, que chamaram um top-top de um assessor da presidência de “gesto obsceno”.”
Cuidado com esses argumentos que põem vítima e agressor em igualdade de condições.
12 de janeiro de 2010 às 22:40
branco chamado de polaco vs. negro chamado de criolo
homem como qualquer outro vs. mulher provocante
ditadura militar vs. militantes de esquerda
latifundários vs. mst
sempre querem por a vítima como “igual”, assim podem fingir neutralidade, como se fosse fla x flu.
obs: arnaldo, eu sei que você não é assim, nada pessoal.
12 de janeiro de 2010 às 22:43
adorei! as pessoas públicas são sempre execradas quando pegas em deslize (independente do mérito da questão); que jogue a primeira pedra, então, quem no dia-a-dia é totalmente “politicamente correto”, sem preoconceitos etc.
12 de janeiro de 2010 às 23:05
Arnaldo, sobre esse seu post, eu deixo a TV Pirata responder. São contradições demais e exigir coerência total não deixa de ser um baita autoristarismo também. Nietzsche reclama na cova. Mas não podemos esquecer que é a esquerda a amplamente mais engajada na solução da desigualdade social. E isso não faz de nenhuma pessoa de esquerda, como eu, um santo:
http://www.youtube.com/watch?v=sBI7fJHDSHA&feature=related
13 de janeiro de 2010 às 6:09
Esquerda e direita é tudo farinha do mesmo saco, bosta da mesma privada! Ou como diria aquele pensador “é só a mão que segura o chicote”.
13 de janeiro de 2010 às 18:50
Arnaldo, desde que comecei a ler seus textos, admiro sua verve de escritor. Porém, dessa vez, acho que sua reflexão veio permeada de falsas premissas e, nessa linha filosófica, fico mais com o texto do Paulo Ghiraldelli Jr sobre o mesmos assuntos (Casoy e Direita /Esquerda).
O que me incomoda é essa modinha de rotular tudo de politicamente correto-chato; de chamar discurso contra o capitalismo de ultrapassado e vazio; de pensar que vale tudo ao mesmo tempo agora. E o mais legal é falar mal do senso comum.
13 de janeiro de 2010 às 19:01
Talvez, estejamos vivendo uma releitura distorcida do velho “É Proibido Proibir” e da “Sociedade Alternativa” de Raul e Crowley (”Faça o que quiseres pois é tudo da lei”).
Obs: Assim como o Impressionismo substituiu o Realismo, parecem querer trocar o atual “Legislismo” pelo “Neo-Umbiguismo”…
A essas alturas, Danilo Gentili deve estar se sentindo redimido…
13 de janeiro de 2010 às 19:37
Realmente não suporto essa mentalidade de se apresentar como “do bem”, usar camiseta “gentileza gera gentileza” e chamar idoso de “melhor idade”. Quem faz isso é propenso a esfaquear pelas costas, furar a fila, avançar o sinal e, no bar, a começar as frases com “não que eu seja racista, mas…”.
14 de janeiro de 2010 às 5:46
Isso acontece muito, Simone. Porém, tenho mais aversão ainda àquela atitude de argumentar uma falta de hipocrisia e o discurso do “ah, mas todo mundo faz isso…”, usando os erros e preconceitos dos outros para justificar os próprios.
Kubrick ou algum autor cyberpunk já deve ter previsto em seus livros um futuro em que a frase acima assume variantes como: “ah, mas todo mundo estupra…” ou “todo mundo bate na mãe….”.
14 de janeiro de 2010 às 8:16
Gostei do texto e concordo, mas é verdade também que aqui no Brasil o “politicamente incorreto” virou o penúltimo refúgio dos canalhas (antes da pátria). O zé josé, lá em cima, matou: a piada politicamente incorreta do reaça é verdade, não descontração. Eis a diferença.
14 de janeiro de 2010 às 8:29
[...] Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » A esquerda séria http://www.revistazepereira.com.br/a-esquerda-seria – view page – cached Antigamente a direita era séria e a esquerda era cínica. O conservador clássico era aquele sujeito que queria preservar os valores que a esquerda queria destruir, como a família, a religião, o Bing Crosby. O esquerdista era o cara que ironizava esse mundo de rituais e aparências caretaço em que o indivíduo de direita fingia viver. [...]
15 de janeiro de 2010 às 15:38
O indivíduo que critica o sistema é o primeiro a tentar burlá-lo.
18 de janeiro de 2010 às 10:51
“um top-top de um assessor da presidência”, como você disse, não teria problema algum para mim, se no caso , NÃO houvessem pessoas queimando dentro de um avião, e eles se alegrando por não ter culpa…triste.
País sem memória, historiadores sem contexto…
18 de janeiro de 2010 às 22:35
pois é, daí acho que entra nesse contexto a igreja não querer a união civil de homossexuais e o aborto. todo mundo sabe que isso acontece por debaixo dos panos, o horror é ver isso oficializado e com a tutela do governo. homos vão continuar morando juntos, e abortos continuarão a ser feitos, a igreja e a direita querendo ou não. aliás, quem faz aborto é filha de madame, pobre tem o filho. e aliás, suponho que os homos que querem oficializar o casamento são justamente caras de direita que se preocupam com direitos civis (divisão de bens, pensão, etc) ou mesmo valores catolicos, como familia, já que não é raro casos de gente querendo casar na igreja ou querendo adotar filhos.
23 de janeiro de 2010 às 22:27
Só uma correção. Casoy nunca fez parte do CCC. Isso foi injustamente atribuido a ele. Mais detalhes no livro “Notícias do Planalto - A Grande Imprensa e Fernando Collor”, de Mário Sérgio Conti.
24 de janeiro de 2010 às 7:52
ah, sim, o livro do mario sergio conti. agora você convenceu todo mundo.
5 de fevereiro de 2010 às 13:00
Realmente, era só isso que poderíamos esperar de um empregado das Organizações Globo. A esquerda continua viva e militante, seu refluxo é fruto das ilusões que os trabalhadores ainda tem com relação ao governo Lula.
Só nesse mundo do “Capital desvairado” que podemos encontrar colunistas que desejam falar de política mas não tem o mínimo critério nem a mais elementar noção de processo histórico.
Desde o primeiro paragrafo, o autor considera (implicitamente) a esquerda como um movimento meramente cultural. A esfera da cultura é importante, mas secundária para qualquer militante de esquerda sério.
Ah, ia me esquecendo: ainda confunde “esquerdistas”, com militantes de esquerda.
Uma leitura, ainda que bastante superficial, sobre qualquer autor da área de ciência política é extremamente recomendada. E no seu caso, mais do que urgente.
5 de fevereiro de 2010 às 13:31
A esfera da cultura tem pregas? Militante do PSTU chato, o foda da realidade é que ela mesma fornece os clichês…
9 de fevereiro de 2010 às 15:49
fica nos quadrinhos, arnie. be a good boy. artigo “micão” analista sarcástico wannabe. o.O