25 de maio de 2009
A cultura do carão
Por Arnaldo Branco
A polêmica desse fim de semana foi a Adidas House Party, evento realizado em uma casa decorada com motivos nazistas. Não se preocupem, vamos evitar a piada que usa o outro sentido da palavra Party em inglês associada ao adjetivo Nazi.
E não vamos mesmo entrar no mérito de quem cometeu a maior burrada: o dono da casa, de não esconder ou disfarçar seu material de memorabilia nacional-socialista para evitar a polêmica; a produção, que não reparou; ou a Adidas, que ao invés de só pedir desculpas pela gafe saiu entregando os dois primeiros pelo deslize nazifashionista.
Na verdade, hoje vou falar de outra ditadura, a da moda, que é uma espécie rara de totalitarismo, já que suas vítimas se submetem voluntariamente. O que é estranho, porque pela escala de valores vigente deve ser muito mais aviltante não ter liberdade para escolher o que vestir do que autonomia para decidir o que pensar.
Mas, enfim, quem acompanha as últimas tendências (mesmo que involuntariamente) sabe que quem quer que faça parte da matriz dessa restrita franquia mundial está emitindo ordens muito estranhas para seus comandados. Pelas fotos da tal festa e de outras do mesmo naipe, parece que o novo dress code beira o transformismo - se bem que, para evitar confusões com esse tipo de terminologia chulé, inventaram um termo mais trendy: cross dresser.
Pior que a expressão de todos esses sujeitos de echárpe, calça semi-skinny, rayban wayfarer e bigode irônico trai aquele ar de superioridade de quem pensa “posso parecer exótico para você, leigo imundo, mas entre meus parceirinhos eu sou tipo a Danusa Leão dos trendsetters”. É a cultura do carão, que ignora que a maior parte da humanidade não sofre muito com esse tipo de exclusão social.
Não sei se todos estão familiarizados com a seção Certo/Errado da revista Capricho, terror de adolescentes que aprendem ali desde cedo que, se forem gordas, não podem usar nenhum tipo de roupa legal e é melhor não botar a cara na rua. Pois bem, parece que a moda hoje em dia é vestir tudo aquilo que a Capricho botava na coluna “Errado” como pecado mortal.
Meu palpite: as gordas oprimidas tomaram o poder na Grifelândia e resolveram se vingar pelos anos de inadequação. De pé, ó vítimas da moda.
22 comentários para “A cultura do carão”
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25 de maio de 2009 às 14:59
Reparando agora na comunicação nazi da Adidas:
http://www.adiblog.com.br - “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca.” Heil!
25 de maio de 2009 às 15:00
Mto bom.
E o vídeo dos geniais Hermes & Renato assinam o que eu vinha ha um tempo querendo dizer, sem ter talento pra tanto: electro-disco punk é o caralhooooo!
25 de maio de 2009 às 15:23
“Posso parecer exótico para você, leigo imundo, mas entre meus parceirinhos eu sou tipo a Danusa Leão dos trendsetters”.
Gêeeeeeeeeeeeenioooooooooooooooooooooooooooooo!!!
25 de maio de 2009 às 15:42
[...] This post was Twitted by misslivia - Real-url.org [...]
25 de maio de 2009 às 16:19
Acho uma loucura (no mau sentido) essa coisa de moda. Não entendo quem compra uma roupa pensando em usar “somente uma temporada”. Não mesmo.
Agora, pelo que eu sabia, Crossdresser - ou CD, para os mais íntimos - eram pessoas que se vestiam literalmente como o sexo oposto. Não sabia que tinham abrandado a coisa pra botar os indecisos no meio.
Bjo.
25 de maio de 2009 às 16:29
vc achava que viveria pra ver isso..?
o duro é perceber que o tempo ta realmente
passando. chegando nos 30, ja tamo velho.
e esse video é dos melhores da historia!
valeu a lembrança.
..a vida precisa mesmo de um cadim assim de carimbó!
: )
25 de maio de 2009 às 17:50
O Adi Dassler, fundador da Adidas, assim como seu irmão Rudi (fundador da Puma), eram devidamente filiados ao partido nazista, sendo que o Adi fazia botas pra Wehrmacht….
Se o cara aproveitou pra exibir sua coleção em referência a esse fato, então foi uma piada bem mais rebuscada que o “Nazi Party”…
Meu maior arrependimento é ter dado uma camisa velhona (quer dizer, da moda atual) da Adidas que eu tinha pra minha ex-namorada. Ela deve ter vendido pra algum fuckin’ hipster por uns R$ 1000….
25 de maio de 2009 às 18:14
“É a cultura do carão, que ignora que a maior parte da humanidade não sofre muito com esse tipo de exclusão social.”
É impressionante o que o isolamento de idéias faz. Como um nowhere man fazendo carão pra ninguém, sendo superior a ninguém (salvo aos wanna be), mas seguindo firme nas suas crenças. Bom, não me assusta tal fato, afinal toda fé é cega.
25 de maio de 2009 às 19:03
Opa, Elisa, chame isso de licença humorística
25 de maio de 2009 às 19:56
Dançarinas nazi-hipsters da festa da Adidas: http://bit.ly/5kF4Q
25 de maio de 2009 às 21:37
Pra manter o padrão, o próximo desfile da Hugo Boss também devia ter o mesmo motivo (pra quem não sabe, Hugo Boss fazia os uniformes da SS, Juventude Hitlerista, etc.)…
25 de maio de 2009 às 22:41
muito bom. o hipstercafona é uma das melhores coisas que já apareceu.
Essa discussão de hipsters saiu aqui há um tempo atrás: http://www.adbusters.org/magazine/79/hipster.html
26 de maio de 2009 às 8:36
[...] Minha coluna Mal Necessário, para a Zé Pereira: comento o nazifashionismo e a Cultura do carão. [...]
26 de maio de 2009 às 18:57
Sacre bleu!
O que me impressiona não é o fato dos motivos nazistas…. isso também fazia sucesso com os Ramones em 1970 e bolinha.
O que realmente chama atenção é como esse pessoal consegue ser tão animado em serem fantoches ridículos enquanto se consideram o porvir do cool mundial.
Sinceramente… se isso é o futuro, que a Coréia do Norte continue lançando mísseis cada vez mais potentes…..
27 de maio de 2009 às 20:22
O que não vejo muito sentido é o povo falando mal da memorabilia ‘nazi’ e pregar contra os vulgos ‘trendsetters-de-carão’. Creio que é um pouco hipócrita jogar pedras na suposta apologia ao nazismo e ao mesmo tempo ironizar o público da festa que nada tinha a ver com o nazismo. Sinceramente acho que se o nazismo estivesse em voga atualmente, fariam exatamente a mesma coisa que vocês: criticar e ridicularizar um determinado tipo de pessoa, em minoria.
Agora, em relação direta aos comentários, acho que nem Hugo Boss, nem os irmãos fundadores da Adidas/Puma, não tiveram muita opção na época, pois pra poucos que leram sobre o tema, o livre arbítrio não era exatamente uma opção, assim como o holocausto não recebeu a maior publicidade da época enquanto acontecia - os primeiros soldados americanos a encontrar campos de concentração, não sabiam nem do que se tratava - posso fazer uma analogia ao atual governo fazer um genocídio nos próximos anos e depois os críticos incluírem no pacote de alvos as confecções de roupas militares atuais.
Que o holocausto foi uma lástima, isso é um fato. Que fazer apologia a ele, é no mínimo, idiota. Agora, falar que os outros são ‘hipster’ e ‘hipercafonas’ e ‘caroes’ bom, em muito assemelharia o discurso pro-nazi da época contra os judeus de que eram um povo ‘pão-duro’ ‘fechado’ ‘endinheirado’ ‘prepotente’…
28 de maio de 2009 às 7:51
Cara, nem toquei no assunto nazismo direito e chamei a coisa toda de gafe. Você leu outro texto e veio comentar neste.
Até parece que esse povo que usa óculos sem lente para sair na noite precisa de algum motivo extra-indumentária pra ser ridicularizado.
28 de maio de 2009 às 12:28
caro arnaldo, grande parte do meu comentário foi em relação ‘aos comentários’ e como você disse, realmente li outros textos, como o do cuenca e os comentários no globo….apenas me dei ao trabalho de escrever pois creio que a maior parte das pessoas que comenta parece estar integrada e ter lido de diversas fontes…..pessoalmente acho essa cultura de Adidas House Party fazendo festinhas fechadas pra um povo babaquinha, ridículo. Acho que todos correndo pro oftalmologista pra procurar o mínimo de razão que os faria usar um óculos idem. E o dono da casa ter uma foto de um Almirante da marinha pela casa, meio sem sentido se nem sequer filho do sujeito ele é…se fosse, ainda faria algum sentido. Só o que acho é que vejo muito comentários por aí de gente falando pelos cotovelos do nazismo e a apologia ao preconceito, quando acabam fazendo o mesmo….eu, pessoalmente, nada possuo da adidas, nem sequer gosto da marca, muito menos de festinhas hype em casas fechadas. e quem diria de nazismo
28 de maio de 2009 às 15:13
é o mau gosto virando standard. a música dos anos 80 tá voltando, e a moda brega daquela época também. daqui a pouco ter mullet vai voltar a ser legal (acho que nunca saiu da moda na argentina).
28 de maio de 2009 às 15:16
nossa, esse vídeo do h&r, fui uma vez numa festa da galera cool de floripa e no meio daquele povo de bigode, bandas de djs, gente do design, da moda, da publicidade, a primeira coisa de que lembrei foi dessa sketch.
29 de maio de 2009 às 8:27
[...] preocupem, vamos evitar a piada que usa o outro sentido da palavra Party … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
29 de maio de 2009 às 10:51
É como eu sempre digo: o ser “muderrrno” é aquele que nasce feio, cresce feio e depois usa roupas mais feias ainda, pra fingir que é menos feio.
Excelente texto, Arnaldo sempre mandando muito bem!
14 de julho de 2009 às 21:50
LÉSBICAS!!!!!!