28 de janeiro de 2010
23 curtas sobre a Enterprise
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
Os seriados dos anos 60 viviam de repetições mecânicas de uma fórmula. Perry Mason iria toda semana levar alguém a confessar o crime falsamente atribuído a seu cliente. Jim ouviria uma fita que se autodestruiria em cinco segundos e bolaria um conto do vigário mirabolante pra enganar alguém. Os cientistas do túnel do tempo cairiam por coincidência sempre numa hora e lugar importantes da História e teriam que evitar que ela fosse mudada. Pouco sabíamos da vida dos personagens além de velhos amigos ou ex-namoradas que apareciam eventualmente em algum episódio sempre pra serem mortos ou pedirem um favor (normalmente mais serem mortos, mesmo) e assim deflagrarem mais uma trama.
Gene Roddenberry e equipe, no entanto, se recusaram a fazer a Enterprise repetir sempre um padrão. E, embora o episódio típico envolvesse eles descendo a um planeta, se metendo num mistério e de alguma forma estarem sempre separados dos seus defasadores e comunicadores, ou então encontrando algum tipo de semideus, os escritores de “Jornada nas estrelas” tiveram toda a liberdade pra experimentar diversos conceitos e darem aos seus personagens pelo menos algum tipo de história pregressa coerente. Eles ficam bêbados (“Tempo de nudez”), fazem um monte de confusão ao viajar no tempo (“O amanhã é ontem”), fazem escolhas moralmente reprováveis (“A cidade na fronteira da eternidade”), sofrem processos (“Corte Marcial”), tiram uma licença (“A licença”) e, finalmente, como bons marujos, estacionam numa base estelar e arrumam um monte de confusão com outros marinheiros espaciais.
“O problema com os pingos” poderia até se chamar “23 curtas sobre a Enterprise”, já que o fiapo de trama apenas une uma sequência de esquetes com vários personagens – Chekov, Uhura, Scott, Kirk, é claro, além do contrabandista espacial Cyrano Jones, que é quem traz os bichinhos pra Deep Space K7, a estação espacial pra onde a nossa nave favorita foi chamada por um código de emergência, por mais um dos arrogantes e insuportáveis embaixadores da Federação. Qual o problema com esses caras? Não bastam as trapalhadas de “Um gosto de Armageddon” e a insensibilidade de “Primeiro comando”? Provavelmente é o passado militar de Roddenberry, que o leva a vez e outra vez usar o velho clichê de que os políticos só atrapalham os milicos.
O tal embaixador quer guardas para proteger os grãos de quadrotriticale estocados na estação. Eles devem ser levados a um planeta independente que está sendo disputado com os klingons. A razão disso é que a facção que mostrar que mais pode fazer pelos nativos poderá colocá-lo sob sua esfera de influência, nos termos do tratado de paz de Organia. Sim, Organia, o planeta dos seres de energia que se passam por manés pros lados em conflito. E, assim como naquele memorável episódio, o capitão Kirk está destinado a pagar mico durante quase toda esta hora de 50 minutos.
Ele é o único que não sabe o que é quadrotriticale e fica furioso porque o embaixador Baris usou um código de último recurso para levá-lo a estação, tão furioso que mal e mal concorda em por uma guarda para os cereais. E olha que também tem klingons na estação, em licença, e a Frota não pode fazer nada por causa dos termos do tratado organiano. E quem comanda os caras é o William Campbell, que já causara bastante confusão pra Enterprise como o Senhor de Gothos.
No meio disso tudo ainda tem os pingos. Animaizinhos fofinhos, que emitem um ronronar que relaxa e acalma as pessoas, eles se multiplicam como shmoos, e logo estão em todos os lugares – até mesmo na cadeira de comando da Enterprise, com o capitão Kirk, em um de seus muitos micos do dia, sentando num deles.
Desde o desconhecimento do quadrotriticale até o óbvio erro de não destacar mais guardas para o cereal, o dia, para variar, não é de Kirk. Depois de se encachaçarem, seus marujos se metem numa porradaria com os klingons e o capitão os interroga para saber como começou. Primeiro eles xingaram a Federação. Depois eles ofenderam o capitão Kirk. “Foi então que a briga começou?”, pergunta, esperançoso, Kirk. “Não, senhor. Foi quando eles disseram que a Enterprise era um monte de lixo”.
Irritado com os klingons, com o representante da Federação, com seus marujos, com os pingos, o nosso capitão favorito acaba cometendo vários erros crassos (inclusive não ouvir o pernóstico embaixador da Federação e não guardar melhor o cereal) e só é salvo no final graças aos animaizinhos que tanta confusão causaram – inclusive à sua reputação. Os pingos revelam uma sabotagem e os próprios sabotadores, salvando a reputação de James T. Kirk (depois de fazê-lo pagar mais um mico, icônico pros fãs da série) e embaraçando os klingons, baldando seus esforços de levar o planeta independente para o seu lado.
Para os espectadores, é revelador ver o cotidiano de seus heróis e revelá-los como os marinheiros do espaço que são, aumentando a familiaridade com o povo da Frota Estelar e criando uma relação mais íntima com os fãs. J. J. Abrams, quando chamado para renovar a franquia, fez questão de frisar que daria mais importância aos relacionamentos entre os personagens, conceito que ele explora desde que apareceu para o mundo com “Alias”, em que as aventuras da agente secreta eram só pra dar um tempero em sua complicada vida familiar e amorosa. Praticamente todas as séries hoje em dia, aproveitando o atual formato novelinha, em que as tramas se espalham por “arcos” de temporadas inteiras e até mais, gastam generoso tempo com o cotidiano de seus protagonistas. Mas aqui os criadores de “Jornada nas estrelas” precisam de apenas uma hora de 50 minutos pra fazer o mesmo, numa época em que a ideia era nova e inexplorada. Isto é eficiência narrativa.
Digno de nota:
Este é um dos raros episódios em que se pode ver que falta um dedo na mão de James Doohan, o sr. Scott, durante a cena da briga. Doohan perdeu esse dedo na II Guerra Mundial.
Avistamentos de tenente Leslie: Eddie Paskey é um dos guardas do quadrotriticale.
Contagem de corpos: milhares e milhares de pingos.
Para comemorar os 30 anos do início da franquia, o povo de “Deep Space Nine”, Benjamin Sisko, Worf e o simbionte/gostosa Dax viajam no tempo e vêm parar neste episódio (com ajuda de montagem digital) atrás do klingon desmascarado por Kirk, que também voltou no tempo para matar nosso (e do Sisko) capitão estelar favorito. Entre as muitas boas piadas do programa, estão Worf explicando porque os klingons aqui não se parecem em nada com ele (“não discutimos isto com forasteiros”), Dax comentando sobre os uniformes da época, e o engenheiro da Deep Space Nine, tentando alcançar alguns circuitos da Enterprise, ao abrir um painel de acesso, surpreso por não entender absolutamente nada do que vê: “isto aqui está cheio de gatos, curtos-circuitos e fios cruzados! Não se parece em nada com a engenharia do tempo”.
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