
BNDES promove seminário sobre convergência de mídias, onde foi discutida a importância da interrelação entre informar e desenvolver, mas Abert e grande imprensa ignoram o evento
Por Maria Clara Carneiro
Fotos: Rodrigo Linares
Nos dias 24 e 25 de novembro aconteceu, no BNDES, o seminário internacional Comunicações e Desenvolvimento em Tempos de Convergência de Mídias. Ali, no underground das grandes negociações sobre o financiamento do desenvolvimento nacional (o evento ocorre no Centro Celso Furtado, no subsolo literalmente), discutiu-se, justamente, a importância da interrelação entre informar e desenvolver.
Fui lá meio que por acaso; achei que assistiria a uma reunião de economistas. Assisti foi a um libelo pelo acesso à informação. A constatação geral foi o estranhamento de que os meios de comunicação sejam normalmente reconhecidos como comerciais, e não, de fato, públicos. O tema em pauta no primeiro dia foi Comunicações e Desenvolvimento: Velhos Desafios, Novas Circunstâncias
O paraguaio Juan Diaz Bordenave, dotado de uma “elevada concentração de juventude”, repassou um pouco da história da comunicação na América Latina desde os anos 1950, uma época em que ninguém achava estranho que rádio e televisão fossem públicas. Não como hoje, quando a emissora pública ou comunitária é vista como invasora ou pirata.
Nos primórdios, a comunicação tinha função de informar, instruir, influenciar e divertir. Mas as coisas não funcionam nunca se não houver relação com a “audiência alvo” (como se importou, na época, o termo target audience). Comunicação é, portanto, relação.
Agrônomo de formação, Bordenave trabalhou muitos anos com a capacitação de agricultores para a comunicação, tendo sido amigo de Paulo Freire. Ele é teórico, justamente, da comunicação para o desenvolvimento e trabalha contra o divórcio entre educação e comunicação. Aliás, ambas as matérias deveriam ser base do desenvolvimento, com a capacitação da população para comunicar perdas e ganhos, assim como criar relações comunitárias.
Questionado sobre a pirataria, Bordenave afirmou: “A pirataria é um conceito relativo. Já tivemos um pirata herói nacional, amante de rainha”. Lembrou ainda dos bandeirantes, e, ainda, da Monsanto, que pirateia fórmulas e produtos naturais e depois os patenteia. “O direito à propriedade é sagrado, mas pra quem já tem”.
Gaëtan Tremblay, professor da Universidade do Québec, discutiu a noção de “economia criativa”. Ele apresentou alguns dados interessantes do relatório da ONU sobre esse setor. Interessante, pois a China lidera o mercado de exportação de criatividade, assim como o Canadá lidera a produção audiovisual. Sem querer questionar a criatividade dos chineses ou dos canadenses, Tremblay chamou a atenção para o fato de que a criatividade em questão é uma noção frágil, e envolve muito mais reprodução do que criação. O que acontece com a institucionalização da “economia criativa” é justamente a instrumentalização da arte em nome do mercado ou, como Tremblay afirmou, a indústria cultural tenta expandir os direitos autorais para todo produto midiático. Direitos autorais, aliás, que são uma “solução histórica” que não tem mais de 300 anos, e que a gente já sabe muito bem que não funciona pro autor propriamente dito, mas pra quem detém a cadeia produtiva.
Aliás, esse termo foi explicado pelo professor Marcos Dantas, coordenador do evento, que deu uma aula sobre a passagem do fordismo ao capital da informação. Ele começou criticando os “boicotes sistemáticos” da imprensa às discussões a respeito do monopólio do conhecimento. Num mundo cada vez mais dividido entre “inforricos” e “infopobres”, Dantas afirmou que o tratamento da comunicação, hoje, se divide entre os que a têm como commodity (defensores da informação como bem privado) e os que a vêm como recurso. “Campos decisivos da batalha” de mercado hoje, informação e comunicação são também objeto de disputa. A pirataria, para Dantas, é o que vai burlar os “jardins murados” da informação. Jardins murados, pois todo o processo informativo, hoje, passa por instrumentos que possuem donos. A cadeia produtiva da internet, por exemplo, envolve transporte de sinal, terminal de acesso, empacotamento (a gente tem acesso através de “pacotes”, as malditas “promoções”), consumidor e conteúdo, sendo que esse último é filtrado pela indústria do espetáculo que vai avaliar a possibilidade de “monetização” do conteúdo.
Apesar de Dantas defender, durante o debate, que a informação é um “bem de rendimento crescente, inapropriável e indivisível” e que se apropriar da informação seria impossível, a gente sabe que “o poder toma tudo”, como dizia o Roland Barthes. Até os blogs, nós já sabemos muito bem, os twitteres, baluartes da mídia independente, são passíveis de serem alugados pela grande mídia, tudo se deturpa em nome da moral e dos costumes suspeitos de quem é dono da informação. Nem preciso lembrar o caso de uma menina de vestido rosinha, cuja manifestação, legítima, foi rapidamente transformada pela mídia em desinteresse do debate verdadeiro. Afinal, o debate era a loucura coletiva e fascismo vestimentário. Agora, as últimas luzes sobre o assunto só ilustram uma menina fútil.

Representante da Rede Globo de da Abert não comparece ao seminário
Com a missão de cobrir o evento para a Zep, cheguei ainda mais cedo ao seminário no segundo dia. O tema foi Cenário das Comunicações Brasileiras pela Ótica dos Negócios e a equipe de organização conversava com alguns convidados, sorrindo ante a ausência um tanto já esperada do representante da Rede Globo e da Abert, Evandro Guimarães. Na véspera, já duvidavam sua vinda. Marcos Dantas deu início aos trabalhos explicando que ele, no entanto, ligou pessoalmente para explicar sua ausência: Evandro está em Brasília, acompanhando as votações da a PL/29, assunto muito interessante para sua rede. O primeiro painel de hoje, comunicação pela ótica dos negócios (inevitável o trocadilho aqui com os jargões economistas). Outro desfalque da mesa, Marcio Wohlers, do IPEA, tinha a justificativa brasilística ele também, difícil sair desse lugar, o “mais longe do mundo”, disse Dantas sorrindo para os convidados da Argentina e Venezuela, sempre presentes. A conversa aconteceu com apenas dois “panelistas”, de panelinhas divergentes: Cesar Rômulo Silveira Neto, superintendente da Telebrasil e César Bolaño, professor da Universidade Federal de Sergipe, da área da cultura.
O primeiro Cesar governou a mesa com dados e mais dados coloridos no telão que demonstravam a proposta da Telebrasil – Associação Brasileira de Telecomunicação – em solucionar socio-politicamente a universalização da banda larga. Mas, antes de tudo, é necessário, segundo ele, uma inclusão digital do Estado, que leve a uma inclusão social do cidadão. Porque, afinal, esse negócio de “banda larga para todos” seria apenas uma “solução trivial” e inviável com tanto o que o governo deveria investir na sociedade e com tanto o que ele tira das teles.
Cesar Rômulo propunha uma maior integração com o governo, pra que as teles pudessem apresentar serviços com soluções completas de TIC (tecnologia da informação e da comunicação) para os mais diversos setores públicos. Ele deu o exemplo dos setores bancários, que hoje atendem o Brasil quase inteiro, ou ainda a própria telefonia fixa e móvel, que “chega a mais lugares do que o próprio governo”, tudo graças à “mudança de paradigma” da prestação do serviço telefônico, um eufemismo utilizado por ele para a redentora privatização, que, como nós sabemos muito bem, chega a boa parte do povo brasileiro, muito mais do que a própria previdência ou a justiça social (variação de 600% do número de assinantes em dez anos pós privatização das teles).
O problema do avanço das teles, segundo Cesar Rômulo, é a carga tributária excessiva, que não é reinvestida no setor (servindo apenas para pagar a dívida interna brasileira): “Taxam (as telecomunicações) como a Brahma, como a cachaça” o que seria um “serviço essencial para o desenvolvimento sustentável com inclusão social”. Por pouco não lhe rolaram lágrimas ao apresentar os dados sobre a repartição da renda das teles: mais de 60% para o governo, enquanto 8% vão para os trabalhadores, sobrando 7,7% para o capital, sendo que só sobrariam 4,1% para os acionistas. O representante das teles pede apenas a terça parte dos 60%, para que trabalhadores e acionistas consigam dobrar os seus ganhos.
Um maior investimento no setor e a aquisição, pelo governo, de pacotes de TIC, segundo Rômulo, evitaria uma “evasão” dos investimentos públicos no ralo de gastos inúteis e ainda daria mais transparência ao governo. O exemplo que ele enfatizou foi a questão fundiária. Para ele, registros de terra facilmente acessíveis seriam fundamentais para resolver conflitos fundiários, evitando, até, “mortes”.
Clássico, Cesar Rômulo garantia que as comunicações, com todo seu poder de atingir mais aglomerados no país inteiro que o próprio governo, se tornam instrumento, hoje, das “novas riquezas das nações”, que envolvem criar, difundir e aplicar dados.
Cesar Rômulo chamava a atenção, o tempo todo, sobre a importância desse evento ocorrer exatamente no centro responsável por dirigir os investimentos – no “BNDE”. Na primeira vez que pronunciou assim, até lembrou que havia um S, “muito importante”, na sigla. Mas seguia dizendo be-ene-de-eé, e não be-ene-de-e-esse. Lapsus langue: ele referia-se a um $ mudo ou uma ausência real de um S de um DESenvolvimento plural?
O outro César, o Boloño, preferiu chamar a atenção para o fato do evento ser organizado pelo Centro Celso Furtado: na dicotomia povo vs. elite, a cultura popular é sempre discriminada e marginalizada, enquanto a elite é imitativa. Sua posse da palavra não impediu que o slogan da Telebrasil continuasse a ser sua sombra sobre a cena. Ficou lá no telão, até o final da manhã, a propaganda “Telecomunicações para a Inclusão Social: juntos, daremos um grande passo”. César, autor do livro “A economia da televisão brasileira”, explicou como se deu a transição da TV pública para a concessão a terceiros, e, principalmente, falou sobre a importância do sistema Globo na estrutura e no desenvolvimento da TV e da difusão da cultura brasileira.
Como se sabe, é durante a ditadura que a Rede Globo inicia seu império, e como lembrou César, o aporte de capital e seus métodos à la USA ajudou para com que rapidamente a Globo se expandisse como líder nacional. Com uma capacidade monstruosa de se inserir na cultura nacional, justamente durante a formação de um público: os hábitos de audiência brasileiros foram guiados pela escola Globo.
A Globo se colocou e se propõe, até hoje, como difusora da cultura nacional, mas é essa cultura imitativa, caricata. Ele citou como exemplos Mestre Bimba e Jorge Amado. Ambos baianos. O primeiro jogava capoeira, um caso de polícia até que o trabalho de estudantes baianos (brancos, positivistas) resultou num evento determinante para aceitação da capoeira como manifestação legítima da cultura popular: o dia em que Mestre Bimba jogou capoeira na frente de Vargas.
Isso não impediu que Mestre Bimba morresse pobre, mas abriu um grande precedente. Já Jorge Amado – assim como vários outros artistas comunistas – foi incorporado e apropriado por essa “concentração oligopolista de produção cultural”. O Barthes diria: a moda é óleo quente que, quando “pega”, faz do artista uma batata frita. Pronto pra perder seu poder de ação, pronto pra ser consumido. E assim, o povo é incluído não mais como produtor de cultura, mas como consumidor passivo.
César reclamou a falta de uma política governamental para, justamente, uma “reforma agrária da cultura”. Lembrou o caso cubano, país de “desdentados” criativos como o Brasil, mas onde o governo distribuiu qualificação artística através de escolas de música e arte. Ele enfatizou: uma política audiovisual não deve ser empresarial, mas pública.
A tática global sobre assuntos que não lhe despertam interesse (minha forçação de barra para o trocadilho entre interesse e intérêt/interest) é, claro, a desmoralização do debate, como ela faz com o caso da privatização das teles. Antes, como entraria na jogada, apoiava, passada a decepção de não levar nenhuma ação pra casa, critica o serviço de telecomunicações.
A mediadora, professora Suzy Santos chamou logo a atenção para o ciclo de vitimizações apresentado pelos césares: a Rede Globo é vítima das telecomunicações, que são vítimas do Estado, e nós, consumidores, vítimas de todos eles. Porque a telefonia não funciona bem e a qualidade da TV é questionável. Lembrou o caso da Bahia, onde pelo telefone mandam avisar pra votar na família Magalhães e cia, dona da TV local, afiliada da Globo e ilustrada pelo tão Amado comunista-carlista. Abrindo para os debates, Susy enfatizou que a representação dos espaços é muito mal feita e que é preciso repensar o papel da cidadania nas comunicações.
Dois representantes do Clube de Engenharia participaram ativamente dos debates: Márcio Patusco e Telmo Lustosa, que vem participando, também, das conferências pró Confecom, o primeiro grande evento que tentará discutir o problema da comunicação no Brasil. Ambos questionaram os dados apresentados por Cesar Rômulo, segundo eles muito discutível, por ser a qualidade dos serviços falh, pela privatização ter desmantelado a engenharia nacional, e com o desestímulo causado pelo fato das decisões não passarem pelo Brasil, mas se darem no âmbito de empresas estrangeiras.
Cesar Rômulo retorquiu dizendo que no site da Telebrasil estão todos os dados e, ainda um “pedido de contribuição dos leitores” com outros dados, além do que, a falta de concorrência na área das telecomunicações se dá porque ninguém tem fôlego para enfrentar os “tributos altíssimos” e a opinião pública. Respondendo a um comentário sobre a impossibilidade de se encontrar sinais de celular no subsolo do próprio BNDES, Cesar Rômulo emendou: “Isso é física elementar, não pega sinal aqui porque o BNDES não colocou ali um ‘retransmissor’ de sinal” ou a rebimboca da parafuseta, não lembro, não entendo de física elementar. E tentou se defender do insulto de que a Telebrasil seria um oligopólio, dizendo que o Banco Central era mais oligopólio, feio e bobo que ele e, pior, um oligopólio estatal.
Boloño teve que explicar que oligopólio não é xingamento. E que se a televisão repete pontos de vista como certezas, é porque ela, hoje, privatizou, inclusive, a censura, comprando pra ela essa briga que só será resolvida com uma “reforma agrária do ar”. Ele exemplificou com uma recente greve de médicos. Dos motivos da greve, nada se sabe, mas repetiu-se à exaustão a consequência nefasta da morte de uma jovem na fila de um hospital cujos médicos aderiram à greve. Como se não morresse gente na fila mesmo sem greve, mas isso não se questiona (enquanto que as rádios comunitárias tem por lei a obrigação de se entrevistar todos os envolvidos – algo que um conselho de ética ajudaria, mas quem tem coragem de assumir um “controle” da imprensa?).
Cesar Rômulo reiterou a “importância de governo e empresas” sentarem-se à mesma mesa e proporem soluções, mas ele mesmo não acredita que o Confecom – que pretende reunir governo, empresários e sociedade civil em uma discussão intensa sobre o assunto - resolva alguma coisa. Talvez porque o S fique sobrando nessa história.
Na parte da tarde, quando passaram a tratar a comunicação pela “ótica social”. Dulce Pandolfi, professora da FGV e diretora do IBASE, abriu o painel lembrando justamente que a ótica social e a de negócios poderiam sentar-se à mesma mesa. Ela elencou uma série de importantes vetores de comunicação participativa: as rádios comunitárias, a internet que derruba as velhas mídias. Ela citou o Betinho, fundador do IBASE, que dizia que só teríamos uma verdadeira democracia no Brasil no dia em que houvesse eleição direta pra presidente da Rede Globo.
O primeiro panelista, Adilson Cabral, professor da UFF, analisou a pulverização X fragmentação – duas visões diferentes – dos movimentos sociais, evidenciados, sobretudo, no fim da greve geral, a greve por solidariedade. Por pulverização, ele entendia a disseminação dos grupos, que se ligariam, mesmo que distantes, por algumas bandeiras, enquanto a fragmentação, uma visão pessimista, não preveria uma nova conexão entre os movimentos. Dessa constatação é que teriam nascido lutas como a do Fórum Social Mundial que pensa em um mundo possível e todas as que visam uma plataforma comum de discussões, para que cada movimento “saia do seu quadrado”.
Para ele, os sindicatos, por conseguirem se manter financeiramente estáveis pela colaboração de todos, seriam a principal base de importância no resgate do coletivo, enquanto as ONGs tenderiam a perder-se pelo caminho, precisando recorrer a uma mercantilização da luta.
Ele falou muito da importância do empoderamento, e lembrou da importância dos pontos de cultura, sobre os quais, aliás, o Boloño já tinha mencionado na parte da manhã, como um primeiro passo para a sociedade civil tomar o espaço da cultura, mesmo que seja uma medida governamental (e, como enfatizou Boloño, é uma iniciativa do MinC, não do Ministério das Comunicações que prefere defender a televisão). Isso passaria pela concepção da comunicação como um direito que é, ao mesmo tempo, componente da luta pelos outros direitos. Adilson criticou a criminalização constante dos movimentos sociais pela mídia, em que a lógica de um mal jornalismo aliado às classes dominantes acaba por influenciar um jornalismo derivado, desalinhado, mas que não se interessa, por sua vez, pelos movimentos.
Grande imprensa desdenhou do seminário
Um fator que ficou evidente durante todo o evento foi, justamente, a ausência de jornalistas que perguntassem, que trouxessem seus questionamentos, se havia jornalistas por lá. Além da Zé Pereira, havia o representante de um blog de comunicação e um duo de representantes da rádio universitária da Gama Filho cobriam o evento. O que prova, mais uma vez, o desinteresse da grande mídia pela tal “mudança de paradigma” tão pedida pelos palestrantes, e até mesmo a desmoralização desses discursos. A ausência do representante da Globo foi diversas vezes relembrada ao longo do evento (a boa notícia é que todo o evento vai virar um DVD).
Orlando Guilhon, superintendente da EBC, com vasto histórico na área e nesse debate, especificamente, chamou a atenção do boicote da grande mídia sobre a primeira Conferência Nacional de Comunicação, que reunirá cerca de 2000 representantes dos mais diversos setores sociais (até a Associação de Moradores de Cabrobró, brincou ele – e não é que havia alguém de Cabrobró no público?) do qual a Abert se negou a participar. A única nota nos jornais sobre o evento teve o intuito apenas de desdenhar e deturpar o assunto. De fato, as notícias e os comentários alegam que o objetivo da Confecom seria de se criar um controle sobre a imprensa (veja aqui matérias da “Folha de São Paulo” e do “Globo”), pecado cometido até por pais sobre filhos, lembrou Guilhon. A retirada da Abert, que levou à debandada de todo o grupo empresarial, denotaria essa ausência de debate entre empresa e sociedade.
O Confecom, segundo ele, com toda a estrutura e verba que recebeu, enfrenta obstáculosde “engenharia política”, sendo a retirada do gueto, da academia a ferida aberta das comunicações no Brasil. Concebida como uma etapa importante nas negociações, a Confecom visa fortalecer a comunicação pública e comunitária, preparar uma agenda política para os próximos dois anos, analisar a convergência das mídias assim como discutir um controle público e social da comunicações (conselhos, ouvidorias, audiências, fóruns, conferências), além de se pôr em jogo a necessidade de acabar com os oligopólios da comunicação. “É preciso ensinar ao empresariado que eles não representam nem 40% da sociedade nem aqui, nem na China”.
A última palestrante, Oona Castro, fundadora e militante do coletivo Intervozes e do site colaborativo Overmundo, destacou a importância da Internet como um meio horizontal de comunicação, mas que, ao mesmo tempo, cria redes que não convergem entre si, unidas raramente, pelo Google, por exemplo.
E que, apesar de toda a implicância nas alterações do modus vivendi, na difícil digestão de tanta informação – e, durante o debate, algumas pessoas do público lembraram a importância ao respeito ao horário de descanso do trabalhador – a chamada lógica da cauda longa (a informação vem das bases, não na vertical num sistema em que há um órgão superior criador de informações, comunicação horizontal e extensível ad infinitum) bate de frente com os oligopólios, muda a exclusividade para o compartilhamento.
Oona reforçou a importância da universalização da banda larga, que deve ser uma política pública, pois a política de mercado visaria apenas uma “massificação do acesso”, o que não gera de fato um serviço de qualidade, vide o exemplo da telefonia. Ela retomou o dado festejado por Cesar Rômulo, pela manhã, que afirmou haver hoje 168 milhões de celulares no Brasil, o que não representa, lembrou Oona, 168 milhões de pessoas com celulares funcionando completamente.
Durante o debate, o professor Marcos Dantas lembrou o incômodo que é o “você repórter”, uma falsa participação popular (e, como já foi falado aqui na Zep, ainda cria um bloqueio que impede que o próprio autor da informação/foto possa reproduzir seu trabalho). Guilhon foi aplaudido ao afirmar que o governo atual tem medo da mídia, denunciando o fato da própria Abert ter um departamento dentro do Ministério das Comunicações. “Governo tem que ter opinião, tem que se manifestar”. Ele discutiu ainda o frágil conceito de público nisso tudo. Continuou a lembrar a ausência de um debate público de fato. “A Abert disputa a hegemonia pelo confronto claro e gentil, não pelo debate, e eles disputam nas eleições. Eles tem uma posição partidária clara. Só irão para o debate se não conseguirem mais espaço pelas eleições (se o candidato do PSDB perder de novo)”.
Dantas lembrou, ainda, que é preciso acabar com o conceito de “produção imaterial”, como é chamada qualquer produção cultural. Cesar Boloño já havia provocado o assunto na véspera, lembrando o quanto suamos e nos cansamos produzindo um texto, ao que Dantas reforçou: “Trabalho imaterial, só quem fez foi Deus”. Ao ouvir isso, Guilhon comentou: “Sabia que iam colocar Deus no meio, se não seria a mãe”. Mas afinal, como comentou Adilson, o que se discutiu ali, durante esses dois dias, e durante a Confecom, será a luta entre o Golias dos oligopólios e os Davis da radiodifusão.
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