Estava na casa dela há algumas horas, eu, ela e um casal de amigos. Seu nome era árabe ou coisa assim, não consigo lembrar direito. Não quero, na verdade. Tinha saído para comprar substâncias psicotrópicas, mas estava sem lugar para fumar. Ela também queria, apesar de nunca ter experimentado. Achei que fumar em casa estivesse fora de questão, pois sua irmã estava em casa. “Não, não, pode fumar na varanda, ela nunca sai do quarto quando tem gente aqui.” Passamos pela janela para a varanda. A mesma janela de vidro por onde ela ficou se exibindo pra mim há um tempo atrás. Ela me deixou tão louco quanto ela. leia mais…
O Cineclube Atlântico Negro, que funciona no Tempo Glauber (Rua Sorocaba, 190, Botafogo), exibe hoje, às 19h, o documentário “Desorganizadores de fichários” (foto), de Allan Ribeiro, sobre a Cia. de Dança e Teatro Rubens Barbot, a primeira companhia afrobrasileira de dança contemporânea. Depois da sessão, que também vai ter um curta surpresa, rola um bate-papo com Rubens Barbot e Gatto Larsen. A entrada é franca.
E no Cineclube Sala Escura, no Cine Arte UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói) passa, em película, às 21h, “Os vivos e os mortos” (”The dead”, 1987). É último filme do mestre John Huston, baseado no conto homônimo do “Dublinenses”, de James Joyce. A entrada também é franca.
A verdade, a minha verdade no momento, visto que a verdade é um não-conceito no sentido de mudar a cada milésimo de segundo, é que talvez só se chegue de verdade a uma cidade depois de ter seu coração partido nela.
Eu tenho cá comigo 19 meses de vivência no Recife. Mais dois pares e faz dois anos. E neste tempo todo, tudo o que absorvi deste conjunto de ilhas que alguém resolveu transformar em cidade tinha também o seu olhar. Seu toque, seus sons e seus desacordos que me encantavam. Não via a cidade por seus olhos, mas com certeza a via integrada a seu ser.
E finalmente tenho que caminhar por estas ruas sujas indo apenas aonde minhas próprias pernas mandarem. A palavra da vez é ressignificação e agora começo a tentar me acostumar com o fato de que minhas impressões são agora só minhas, sem influência de qualquer memória que não seja a minha análise embebida dum pragmatismo que às vezes é disfuncional até pra mim. leia mais…
No sábado da semana anterior, fomos visitar uma querida amiga no Leme. Entre seus vários talentos, está o de fazer colchas com mandalas e mosaicos formados por retalhos (e me perdoem por não conhecer o termo preciso para essa técnica). Uma de suas criações mais recentes está na imagem que abre esta edição do Fotodiário. Abaixo desta, a prateleira de temperos e mantimentos da cozinha da mesma amiga.
Já no domingo, abrindo as janelas do quarto dos meninos (levantamos tarde), gostei da composição da vela para espantar mosquitos com a casinha que fica atrás de nosso edifício. À tarde, fomos à festa de aniversário de pai e filho amigos, gente bacana e que sabe receber como poucos. A mesa com tortas, bolo com velas acesas e garrafas de espumante é da hora do parabéns.
Segunda de manhã, andando pelo Passeio, passei por um fusca degradê, não sei se por bossa ou por falta da tinta certa (a frente dele também estava assim, “bicolor irregular”). Já no final do dia, caminhando para casa sob uma garoa sem graça – daquelas em que usar guarda-chuva parece inútil e não usá-lo nos deixa úmidos –, cruzei com uma moça apressada na mesma calçada da Laranjeiras. Na terça, passando por aquela “ilhota” em frente ao Odeon, na Cinelândia [aquela em que fotografei uma pequena árvore florida, parte da edição anterior do Fotodiário, lembram?], registrei pequenas pétalas de flores contrastando com um tampão de ferro fundido e as pedras portuguesas escuras. E novamente voltando para casa, à noitinha, passei diante de uma loja de roupas infantis que acabava de cerrar suas portas de aço sobre a vitrine, deixando quem estava do lado de fora sem saber direito quais as silhuetas que se via eram de manequins e quais eram de funcionários.
Manequins em trajes menores, ou melhor, sem nenhuma roupa – e tampouco cabeça – chamaram a minha atenção na manhã de quarta, quando passei pela Cinelândia, onde uma feira estava sendo armada. À tarde, caminhando pela São Clemente, passei diante do antigo clube ASA (hoje dividido com uma grande academia de ginástica). Por trás de suas grades pintadas de lilás, flagrei um sujeito deitado num banco de jardim que, pelos trejeitos, parecia combinar um encontro com a namorada pelo celular.
Na quinta à tarde, tive uma reunião de trabalho em Água Santa e, na saída, passamos ao lado do presídio Ary Franco. Anoitecia e o céu, salpicado de nuvens, estava especialmente bonito e, talvez pelos últimos raios oblíquos do sol, algo melancólico. Fiquei imaginando que aquela paisagem seria a única que muitos dos moradores do lado de dentro daqueles muros (a mancha escura, no lado esquerdo da foto) teriam para ver por muito tempo. Mais adiante, ainda no caminho de volta para o Centro, passamos junto à linha do trem (próximo à estação do Méier). No dia seguinte, caminhando do trabalho em direção ao Flamengo, encontrei uma estranha butique especializada em calças instalada em um pedaço do muro do Palácio São Joaquim, pertencente à Igreja (a instituição), na Glória. E, mais adiante, gostei da luz que destacava a antiga igreja batista da boca da noite, na Conde de Baependi.
A igreja (mais uma) contrastada com o céu azul com lua (canto direito inferior) é a de São Francisco Xavier, na Tijuca, ao lado da estação do metrô, que peguei na quinta. A moça que parece ter saído de um mangá estava atravessando a Laranjeiras, em frente ao Instituto dos Surdos, no mesmo dia. O grafite com ar malandro está pintado em um muro da Conde de Irajá, em Botafogo.
Sabe quando você manda fechar a conta no bar para abrir outra quando chega mais gente na mesa? Então, foi mais ou menos o que a Humanidade fez há dois mil anos: Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, zerou a despesa, deu aquela falsa sensação de tudo certo; daí mais caloteiros foram aparecendo e agora a nova conta ultrapassou em muito a primeira.
Muitos agem nos dias de hoje como se fossem contemporâneos de Cristo, ou mesmo anteriores ao pecado original: acreditam que não têm nenhum débito espiritual e que os outros é que têm uma dívida moral com o resto da Humanidade. É o caso dos que acusam de vendido qualquer pessoa do meio artístico (em qualquer uma de suas subcategorias) que alugue sua força de trabalho para alguma grande empresa.
O que me deixa bastante intrigado sobre o que essas pessoas fazem ou pretendem fazer para ganhar a vida. Por uma questão de coerência, teriam que ser seus próprios patrões em um negócio auto-sustentável e completamente independente de terceiros. Com esse briefing, sugiro como plano de carreira ser cacique em uma reserva indígena.
Talvez esse tipo de sujeito tenha mesmo uma noção cristã do mundo, onde ele é assim imperfeito por natureza e seus artistas de eleição, mártires em potencial. Seu ídolo não pode se vender - por ele, o pecador. Seria o caso de consultar o artista pra saber se tem toda essa vocação pra Cristo e gostaria de se sacrificar por um bucha sem talento desse naipe.
Essa é do “Ooh la la”, único disco do Dash, formado por Simone do Vale (voz e guitarra, ex-Squonks, ex-Autoramas), Formigão (baixo, ex-Planet Hemp, atual Monstros do Ula Ula), Diba (guitarra, ex-um monte de bandas) e Kadu (bateria, idem). A maioria das letras do grupo era em inglês, um costume do rock brasileiro do início dos anos 90. A dessa aí, da poliglota Simone, inspirada no filme de Shinya Tsukamoto, é em japonês. A capinha é de David Mazzuchelli - desenhista de ”Batman: Ano um”, “Demolidor” e “Cidade de vidro”.
Porque caiu o helicóptero. O pessoal tem essa obsessão por forças armadas para combater o crime. É mais pra ter uma vingança por causa da frustração que sentem com tiroteios, com ônibus queimados, com os dias em que a cidade para por ordem dos traficantes… que se foda a sanidade. Lembra o policial que matou o bandido E a refém porque deu uma rajada de metralhadora na cabeça do marginal que desceu do ônibus 174… e foi APLAUDIDO? A ideia de que a políca é mal armada é um erro. Policiais têm FALs o bastante pra encarar a marginália - ou deveriam ter, já que toda patrulhinha que passa pela gente tem eles exibindo seus AR-15 ou o FAL suíço em pessoa.
O grande problema da polícia é a corrupção e a falta de comprometimento da sociedade com a erradicação mesmo do crime. Como em “Apocalypse now”, quando o coronel Kurtz cria sua própria milícia e imediatamente assassina alguns altos oficiais do regime aliado vietnamita. É que Kurtz achava que os americanos não estavam levando a guerra a sério. Os altos oficiais estavam vendidos aos vietcongues, mas ninguém fazia nada por causa da posição deles. Já no Rio os cidadãos querem o fim do tráfico, mas não estão a fim de aumentos nos impostos pra aumentar a verba dos policiais, não querem reformular as polícias, não querem sair às ruas ou se organizar pra exigir o impedimento de parlamentares ligados ao crime organizado ou a demissão de corruptos, não querem parar de consumir entorpecentes, não querem ajudar a melhorar a distribuição de renda ou a educação pública…
E, enquanto isso, sonham com o exército moralizando tudo. Nem se tocam que, se a bandidada está usando armas de uso exclusivo das forças armadas, elas só podem ter vindo de UM lugar. E acreditam que um bando de conscritos sem um níquel, com 18 anos e armados de FAL vão ser imunes à corrupção - do dinheiro, ou mesmo do poder. Vejam o que aconteceu com Raul Capitão.
Pouca gente sabe, mas quando a Zé José Entertainment Association se juntou à Pau Pereira International Corporation, havia atividades audiovisuais em ambos os conglomerados. Um exemplo disso é “Genbaku”, programa jornalístico de 50 minutos, sobre a invenção da bomba atômica, produzido pela TVE, em 1989. Trabalhei nesta produção e, anos atrás, converti uma velha cópia de U-Matic para DVD.
Por cortesia, o Zé viu uns dez minutos do programa. Disse que gostou do texto, mas não da música. Pura inveja. Qualquer atração com ralos vestígios de audiência na TVE (atual TV Brasil) tem muito mais espectadores do que “Rio de Jano”.
O aniversário do Zé é hoje, e me dei conta de que os dois megaempresários que bancam este site estão se aproximando dos 50. Duros, cheios de sonhos e fazendo um monte de besteiras, como todo jovem. Parabéns, Zé. Um beijo nesse seu coraçãozinho doce. E quem quiser saber mais alguns detalhes do programa, leia aqui.
Não sei. Eu minto tanto. Eu minto pra mim, pra você, pra ele, pra ela, pra ela também. Eu tento viver a minha realidade e consigo, mas de vez em quando eu lembro que não. Eu virei a personagem principal da minha própria vida. Eu já não sei mas como eu seria, sou. Eu sou isso, sou aquilo, não sou isso, não sou aquilo. Conforme vou escrevendo minha própria vida, vou pensando no que a personagem principal vai fazer, como vai fazer, o que vai pensar para que quem estiver lendo pense que a personagem é assim. Me envolvi tanto com a história que acabei virando minha própria personagem. Uma marionete de mim mesmo. É como se me desprendesse do meu corpo e me visse com os olhos de outra pessoa. Eu não sei mais quem eu sou, se eu sou alguma coisa, realmente não sei.
Oulipo, movimento nascido na França e no meio literário, migrou pra diferentes campos da arte, usando a matemática como base da escrita, da pintura, da música, dos quadrinhos. De domingo ao dia 30, acontece no Rio o evento Oulipo + Oplepo + Oblipo = O Jogo da Literatura, com exposições, palestras, curtas-metragens, teatro e dança. Você encontra a programação completa aqui. Também dá pra se inscrever na oficina de escrita literária pelo e-mail oulipobr@gmail.com.
O Cineclube Espaço Utopya, que funciona no Tempo Glauber (Rua Sorocaba, 190, Botafogo), celebra hoje a música e a poesia brasileiras em sessão dupla. Abrindo o programa, às 19h, o curta “Nós somos um poema” (foto de Lucas Zappa), de Sergio Sbragia e Beth Formaggini, sobre a parceria entre Pixinguinha e Vinícius de Moraes na criação da trilha sonora do filme “Sol sobre a lama”, de Alex Viany. Em seguida, será exibido o longa-metragem Palavra (en)cantada, documentário de Helena Solberg que mostra como a música brasileira serve de veículo para a poesia e para a literatura, com as participações de Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Chico Buarque, Lirinha, Lenine, Maria Bethânia, Martinho da Vila e Tom Zé, entre outros. A entrada é franca.
Você entende de bolsa? Parece uma tragédia? Bem, na verdade, é uma tolice. Primeiro porque, na Bovespa, diariamente, são negociados entre 3 e 6 bilhões de dólares, em média. Assim, a variação (positiva ou negativa) das suas ações mais disputadas nunca está muito longe da casa dos bilhões. Quem entende do assunto sempre relativiza (e embolsa) essas oscilações diárias.
Segundo porque, se ontem a bolsa paulista caiu, hoje ela passou o dia em alta, e esteve acima dos 2,5%. As ações Petr4 e Vale5, por exemplo, mostravam altas de 2,88% e 3,85%, respectivamente, pouco antes das 16h. A ação da Vale, inclusive, passou quase todo pregão de hoje como a quinta maior alta do dia.
Vale, Petrobrás, Itaú, e Banco do Brasil não ficam menores só por causa da cotação diária de suas ações. Na verdade, a relação é inversa: se elas ficam menores, suas ações caem. Sem mencionar as ocasiões em que cotações e fundamentos andam em universos paralelos… As medidas do governo não causaram os prejuízos que a matéria insinua.
A alta de hoje na Bovespa motra que a volta do IOF não diminuiu o apetite dos investidores estrangeiros por ações de empresas brasileiras. Com isso, pode ser que tenhamos problemas com a valorização excessiva do Real, mas o valor de mercado das empresas brasileiras não pára crescer. É tentador fazer sensação com a queda de um dia. Sem olhar o longo prazo, porém, o leitor fica sem parâmetros. O UOL bem poderia ter dito que, em 2009, as ações do Banco do Brasil se valorizaram 118%, as da Petrobras subiram 62,66% e as da Vale, 74,72%. Esse crescimento gerou um fato inédito, inclusive: a Petrobras tornou-se a quinta maior empresa do mundo.
Será que a vontade de falar mal do governo começa a ficar maior que a de informar o leitor?