30 de setembro de 2009
BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL NEW ORLEANS
Panorama
Por Arnaldo Branco

Groucho Marx conheceu a Doris Day antes de ela ser virgem, eu manjo o Nicolas Cage antes dele ser herói de filme de ação. Depois de vê-lo usando todo tipo de implante capilar ondulando depois de incontáveis explosões, a gente esquece que ele é um ator, afinal. E, ademais, a melhor cena de ação que o cara fez foi em uma comédia dos irmãos Coen.
O sujeito está em “Bad lieutenant”, uma espécie de remake (parece que o roteiro era tão parecido que chamar de remake foi a solução para não chamarem de plágio) de Werner Herzog para o filme do Abel Ferrara, onde Harvey Keitel fazia um policial envolvido com crack, apostas e atentado violento ao pudor. Neste, Herzog nos poupou da nudez de Cage, muito obrigado.
O personagem de Keitel vivia uma espiral de violência e autodestruição permeada pela obsessão por uma feira estuprada com um crucifixo. Herzog pegou a espiral de Ferrara e transformou em um círculo, com início e final se encontrando na figura de um prisioneiro salvo por Cage da inundação provocada pelo Katrina - daí o subtítulo (era pra ser o nome do filme) “Port of call: New Orleans”.
O estupro da freira é substituído pela chacina de uma família, e Nicolas Cage vai investigá-la Capitão Nascimento style: tirando o oxigênio de uma velhinha pra fazer sua enfermeira confessar, cafetinando a namorada prostituta e cheirando com os assassinos. Nada que fuja da rotina de um PM médio por aqui, mas difícil de ver em uma produção americana estrelada pelo Motoqueiro Fantasma, ainda que dirigida pelo Herzog.
Não fosse a classificação 18 anos e os close ups tremidos e demorados em iguanas, a assinatura do diretor poderia passar batida. A não ser, claro, pela extrema competência em contar a história e a sutileza alemã pra enfiar metáforas goelas abaixo, como o cano gelado de uma Magnum 44.
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30 de setembro de 2009

Melhor filme de Gus Van Sant: “Os famosos e os duendes da morte” (foto), de Esmir Filho.
Melhor coletânea de videoclipes: “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho.
Melhor filme de Carlos Reichenbach: “Os inquilinos (os incomodados que se mudem)”, de Sergio Bianchi.
Melhor nome de ator: Marat Descartes, de “Os inquilinos (os incomodados que se mudem)”.
Melhor diretora sincera: Daniela Thomas, que pediu paciência à platéia com o seu “Insolação”.
Melhor produtora sincera: Sara Silveira, que fez o mesmo em relação a “Os famosos e os duendes da morte” e ainda disse que o filme só saiu graças ao José Carlos Avellar.
Melhor motivo para tomar um café: “Insolação”, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch.
Prêmio Ocidente: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes.
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30 de setembro de 2009

HOTEL ATLÂNTICO
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
“Hotel Atlântico” está em algum lugar entre “Limite” e “Esta noite encarnarei no teu cadáver” no gráfico da cinematografia brasileira entre o transcendental e o bizarro. Não é que seja uma obra-prima da História do cinema mundial, como o primeiro, ou um filme de terror, como o segundo, mas porque se situa numa corrente muito particular da história do cinema brasileiro, entre o metafísico e o grotesco. Quando é possível identificar uma espécie de cânone em cada época, e o da nossa parece ser a busca de renovação da linguagem cinematográfica pelas formas do “documental”, o filme de Suzana Amaral baseado na obra literária homônima de João Gilberto Noll, publicada em 1989, investe mais na ficção e na subjetividade, que minam por dentro a encenação realista do que no “valor” de realidade da imagem. leia mais…
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30 de setembro de 2009
Por Eduardo Souza Lima
A violência urbana nas grandes cidades brasileiras é um tema que já deu, mas Sergio Bianchi conseguiu tratá-lo de forma original em “Os inquilinos (os incomodados que se mudem)”, até agora o melhor longa-metragem da Première Brasil, pelo menos em minha opinião e na da Paula Gaitán, que não perde um, que o considerou “maduro” - mas teve gente que achou que era um filme do Carlos Reichenbach. Sereno - para espanto de quem o conhece -, o diretor apresentou “Os inquilinos” ontem à noite, no Odeon.
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30 de setembro de 2009
Por Dandara Palankof
Quando entrei na adolescência, freqüentei aqueles lugares conhecidos como boates, por um curto período de tempo. Sabe como é, amigos resolvem dar festas nelas, ou mesmo esquematizam o programa pela novidade que é o ambiente, coisa e tal. Mas não demorou muito até eu perceber que aquilo não era pra mim. Música eletrônica de quinta e roquenrol pasteurizado? Não obrigada. Fora os preços proibitivos (ainda que naquela época, pouco era suficiente pra deixar alto), a péssima freqüência de mauricinhos e patricinhas, enfim. Desisti.

Mas estas boates não se configuravam como o que eu ouvia chamar de “inferninhos”: apertados, enfumaçados, decadence avec elegance. Mas achava que eram versões menores das boates que conheci. Foi em Curitiba, no James, que experimentei um inferninho. E tocava White Stripes, quando eu entrei. Nunca tinha conhecido um lugar que tocasse o que eu gostava de ouvir. Me senti iluminada. leia mais…
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29 de setembro de 2009

Por Gustavo Acioli
O Festival do Rio dedicou dois dias, sábado e domingo, a discussões sobre os seguintes temas: como fazer um filme de sucesso, como escrever um filme de sucesso, como escrever o que o espectador quer ver, como fazer o que o espectador que ver.
Encontrar a fórmula do sucesso tem sido a grande obsessão do cinema brasileiro. É espantoso ver como as pessoas ainda perdem tempo debatendo o nada! E se alguém soubesse a tal fórmula, contaria pra todo mundo, assim, em um debate do festival?
Existe certa ingenuidade em toda esta discussão. Achar que é possível produzir apenas filmes de sucesso equivale a pensar que todo mundo pode ganhar bem, morar em mansão e andar de carrão. Além de não ser possível, há quem não queira. Impor o sucesso de bilheteria como meta a todos os diretores, roteiristas e produtores, beira o totalitarismo. O desejo de encontrar um sistema que contemple todas as possibilidades, colocando cada um em seu lugar, e que funcione como uma engrenagem perfeita, já foi superado no século passado. O Capitalismo prevaleceu porque reproduz o caos e a desarmonia da Natureza. Nem todo mundo pode ser leão, e mais, leões também passam fome.
A resposta é simples: alguns vão passar a vida inteira tentando fazer sucesso e nunca vão conseguir enquanto outros serão alçados ao Olimpo sem nunca sequer ter sonhado com isso; alguns vão viver de altos e baixos enquanto outros conhecerão o mais alto apogeu e a ruína total e definitiva; alguns terão muito prestígio e pouca grana enquanto outros terão muita grana e prestígio apenas entre aqueles que desprezam; alguns terão tudo e serão infelizes enquanto outros não terão nada e morrerão em paz; por aí vai… tudo isso e muito mais e vice-versa. A vida é dura.
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29 de setembro de 2009

Projetores a todo vapor no Rio de Janeiro. Daqui a pouco começa a Loucos Por Cinema - Mostra de cinema e Psicanálise, na Caixa Cultural (Avenida Almirante Barroso, 25, Centro), com exibição de filmes e debates. No programa de hoje, “Delicatessen” (às 17h), “Bicho de sete cabeças” (foto, às 19:30h) e “Wittgenstein” (às 21h), na sala 1; e “The pervert’s guide to cinema” (às 17:15h) e “Titicut Follies” (às 20h), na sala 2. Ingressos a R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia). Veja aqui a programação completa.
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29 de setembro de 2009

Por Eduardo Souza Lima
Diz-se que o curta é o espaço para a experimentação, mas a máxima não vale para o Festival do Rio. Se até agora os longas-metragens da Première Brasil têm se destacado pelo radicalismo narrativo e pela pulsão autoral - a exceção seria “Bellini e o demônio”; o próprio diretor confessou ontem que não teve direito ao corte final -, os curtas apresentados são, digamos, conservadores. Não me cabe julgar os critérios da comissão de seleção ou a qualidade dos filmes, já que o que eu enviei não foi selecionado - “Muro”, de Tião, também não foi; ao menos estou em boa companhia -, mas vou comentar dois deles.
Já tinha visto e me horrorizado com “O troco”, de André Rolim, na competição de curtas digitais do Cine-PE. No filme, um casal de sádicos tortura uma operadora de telemarketing. Aqui, como no Recife, a platéia veio abaixo, numa catarse coletiva. Típico: a galera prefere descarregar suas frustrações no andar de baixo a levantar da cabeça e fazer alguma coisa. Coube a “Bom dia, meu nome é Sheila ou Como trabalhar em telemarketing e ganhar um vale-coxinha” (foto), de Angelo Defanti, exibido no dia seguinte, lembrar ao público que o operador de telemarketing é apenas um trabalhador - e a maior vítima dessa história - e que o verdadeiro problema está no andar de cima.
O Gustavo Pizzi escreveu sobre o curta no blog Cineclube.
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29 de setembro de 2009
Por Henrique Koifman

No sábado da semana anterior, levando uma bicicleta para remendar o pneu em uma galeria na Laranjeiras, passei na porta de um “faz-tudo”, daqueles que consertam de videocassete a secador de cabelo. A loja estava fechada, mas havia uma TV ligada lá dentro. É essa imagem que abre esta edição do Fotodiário. Mais tarde, fomos à casa dos meus pais para um almoço duplamente comemorativo – aniversário de casamento deles e o 5770º ano do calendário judaico. Bolo confeitado (presente nosso) e caldo com biscoitinhos (uma das especialidades da minha mãe) são de lá. O pequeno marajá (ou califa?) na vitrine achei em outra galeria, também da Laranjeiras, na mesma manhã. No final do dia, fomos bater papo na casa de uma querida amiga – que nos serviu café em simpáticas xícaras tortas.
No domingo de manhã, saí com os meus filhos para pedalar no Aterro. Quem segura o coco recém aberto e prestes a ser devorado é o mais velho.
Já na segunda, de volta ao trabalho, enfrentei uma chuvarada quando, por teimosia, resolvi voltar a pé para casa a despeito do céu inamistoso. Mais cedo, descendo as escadas do edifício em que almocei, registrei outro comensal que ia à frente. Na terça foi o Dia Mundial Sem Carro. Raríssimas vezes fui ao Centro de carro, mas resolvi radicalizar minha adesão ao movimento pedalando até o trabalho (a imagem da minha bicicleta com os Arcos da Lapa ao fundo é da hora da volta). Concluí que, com trânsito pesado e asfalto esburacado, ainda é bem melhor andar a pé, pelo menos nas distâncias que costumo percorrer (até uns 8km). Mais cedo, na pracinha junto à Santa Luzia, encontrei uma espécie de monumento engajado em acrílico.
Na quarta de manhã, a caminho, novamente, do Centro, meu ônibus emparelhou com o de uma moça explicitamente mais sonolenta do que eu. Pouco depois, no Largo da Carioca, passei por uma escultura ali colocada, deduzo, em comemoração a chegada da primavera. Na quinta, só que na Cinelândia, encontrei outra dessas esculturas multicoloridas, próxima ao Odeon. O cinema, por sinal, estava todo enfeitado no dia seguinte, início do Festival de Cinema do Rio.
Os tapumes que me lembraram o forte apache que eu tinha quando criança estavam na esquina da Estelita Lins com a Laranjeiras, na chuvosa quinta-feira; o rosto grafitado enfeitava a porta do tristemente abandonado Teatro Dulcina, na terça; as teclas “Ctrl, Alt e Del”, (quem dera houvesse um comando desses para certas pessoas!) são de um teclado quebrado do escritório que eu, em recaída aos tempos de garoto, desmontei para ver como era dentro.
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28 de setembro de 2009

RIP: UM MANIFESTO REMIXADO
Dox
Por Flu
Desobedeça. Invente, crie sem medo. É isso aí!
Estamos no fim da primeira década do século XXI e ainda existem pessoas querendo travar o intravável! Ainda acham que podem proibir milhões de pessoas de trocarem arquivos, como tentaram no início do século com o Napster.
As grandes companhias detentoras de direitos autorais ainda acham que podem vencer. Pra quem? Eles querem pegar dinheiro. Mas onde existem dinheiro nessa função? É como a pessoa fosse proibida de emprestar seus discos. Ninguém lucra com isso… Os engomados-gordinhos-de-cinto, apavorados com a queda de venda de seus artistas, acham que conseguem mais com seus super advogados engomados-gordinhos-de-cinto.
Este filme do canadense Brett Gaylor (veja o site) mostra pros baixadores de plantão que existem empresas querendo cobrar por essa brincadeira. Esses espertos-ao-contrário (como fala a grande catadora de lixo Estamira), não estão querendo trocar a marca do caviar e por isso eles estão na nossa cola.
Girl Talk (artista americano), Sany pitbull e Dj Marlboro (Brasil) falam sobre como criam suas músicas com elementos de outros artistas. Tá provado que refêrencia a um artista, dentro da criação de outro, é uma homenagem. Se for mentirosa ou ruim os ouvintes julgam. O importante é liberar geral! Chega de advogados trancando a criação de outros em troca de grana! Numa música do Girl Talk, por exemplo, existem 20 colagens de artistas diferentes. Se ele fosse pagar direito autoral a conta ficaria em torno de 200 mil dólares!!! Isto é, fudeu. Desobedeça!
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28 de setembro de 2009

Lily Allen, que ganhou fama graças à Internet, andou surtando contra quem baixa suas músicas. Músicos sempre foram coniventes com o superfaturamento da sua arte, porque eles não querem só viver dela, querem ser miliardários. Na coluna do Arnaldo Branco desta semana. Leia aqui.
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28 de setembro de 2009
Por Arnaldo Branco
Nas últimas semanas, a Lily Allen andou surtando contra quem baixa suas músicas. Vamos ignorar a ironia da mina ter surgido graças ao myspace e outros meios de dar um calote cordial no artista: ela chora de barriga cheia.
Toda vez que a mina aparece de topless e acima do peso nos tablóides ingleses geralmente está em uma praia paradisíaca, não raro em um iate e com um agravante: em pleno dia útil. Mas ela está insatisfeita porque não quer apenas viver de música; quer ser multimilionária.
Essa é uma aspiração comum, porque músicos sempre foram coniventes com o superfaturamento da sua arte. Como tinham exclusividade sobre o produto e a quitanda, as gravadoras podiam cobrar quarenta paus por um disco que custou trinta centavos e o artista fingir que nem era com ele.
É claro que a procura por música é enorme e sempre gerou cifras absurdas, mas a oferta sempre pareceu menor por causa do gargalo das gravadoras. Isso gerou distorções como o proverbial artista mimado que só dá show se a produção cumprir uma lista de exigências, como se fosse um sequestrador de si próprio.
Infelizmente a indústria pornô também vai mal das pernas e outros membros graças a abnegados prestadores de serviço social como pornhub e xvideos, senão seria minha sugestão para Lily mudar de ramo. Sobrou virar laje, uma atividade à prova de pirataria.
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28 de setembro de 2009

BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL NEW ORLEANS
Panorama
Por Luiz Henriques
O total e completo desespero é o primeiro passo para a verdadeira fé. Não me lembro de quem disse isto, mas os personagens do Abel Ferrara estão sempre próximos de dar esse primeiro passo. Desde seu longa de estreia, “O Assassino da furadeira” (1979), o diretor povoa a tela com sujeitos que de sua vida em meio à jornada acharam-se em selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada, desde a supracitada criatura com a ferramenta mortífera - que busca a redenção pela arte e, falhando, pela morte (a princípio dos outros) - até o tenente mau do filme cult de 92 (que aqui se chamou “Vício frenético”), que tem uma epifania e acaba dando mesmo o primeiro passo e encontrando finalmente a tal da fé.
Contando a saga de um policial tão perdido em seus vícios e instintos que nem nome tem, insensibilizado pela sua profissão e tentando preencher seu vazio com todos os tipos de drogas, abusos e comportamentos autodestrutivos, Abel Ferrara concatenou provavelmente a fita americana religiosa mais surpreendentemente sincera desde “Barrabás”. A estrada para a redenção do tenente mau começa quando ele encontra uma bela e jovem freira, estuprada (até com um crucifixo) por dois rapazes. Ela sabe quem eles são, mas não dirá seus nomes porque os compreende e perdoa. Daí que Herzog refilmar esta história deixou todo mundo embatucado: além da aparente desnecessidade de uma nova versão pruma produção recente, cult, visceral e pessoal, e de estar trabalhando com um roteiro alheio, o alemão sempre esteve mais para o lado dos ateus, embora não necessariamente materialista. O que ele ia fazer com essa história de salvação nas mãos? leia mais…
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27 de setembro de 2009

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
No novo filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, a imagem na tela se identifica com o olhar do narrador, o geógrafo encarregado dos preparativos para a construção de um canal no sertão. É um filme o tempo todo com câmera subjetiva e voz em off. Consequentemente, tudo está preso à consciência e à visão do narrador têm. A cronologia narrativa linear, sem saltos no tempo e no espaço, acompanha o trabalho do protagonista quando, por exemplo, ele visita as famílias que serão removidas. Mas isso é apenas pano de fundo. O filme, na verdade, é um road movie das paisagens naturais e da população da região, que, meio como num documentário, mostra o velho, pobre e fotogênico Nordeste, mas põe essas imagens a serviço do enredo, ou melhor, da voz em off, que aos poucos esquece o solo tectônico e outros temas técnicos para mergulhar em sua própria fossa.
O olhar científico acaba tornando-se parcial, desfocado. A película é substituída pelo vídeo. Essa passagem da descrição da paisagem para o estado interior do personagem é habilmente construída pela voz off, que a certa altura revela que não voltará mais para Fortaleza porque ama, como dizia a frase de caminhoneiro que serviu de título, pois, na verdade, sua amada lhe deu um pé na bunda. A correspondência visual desse momento, e ponto alto do filme, são as imagens que subitamente param de passar, tornando-se fotográficas. leia mais…
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