30 de junho de 2009

Por Ângelo Fábio
A vida não passa de um esmeril polido e sensível. É como um jogo de cartas repleto de azares e às vezes sorte.
Como uma notícia ou certezas infames, na maioria das vezes elas, nos faz tão mal. É melhor que em muitos dos casos não sabermos de absolutamente nada.
Aos 68 anos, com um mar de contribuições não só para a dança, mas sim para toda a arte, parte para o descanso absoluto e desconhecido a coreografa e bailarina alemã Pina Bausch, que durante anos de sua vida se dedicou à dança e que desde 1973 dirigiu o Tanztheater Wuppertal.
A poucos dias de ter descoberto um câncer, morre na manhã do dia 30 de junho de 2009.
Que nossos olhos não se encharquem de lágrimas, mas sim que nossos corpos estejam repletos de movimentos para bailar a vida. Bailemos para esta notável mulher e que o orixás tenham guardado sua casa.
Evoé, Pina. Que descanse em paz.
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30 de junho de 2009
Bonequinho vudu tenta impedir que seus amiguinhos de sejam alfinetados até a morte. Animação de Joaquin Baldwin que ganhou o quinto concurso de curta online da National Film Board of Canada, em associação com a Cannes Short Film Corner.
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30 de junho de 2009
Por Fernando Carneiro

Fala Serginho,
Ora, no país do “Homem Cordial” de Sergio Buarque de Holanda, e de seu companheiro de legenda (Seu. Não do seu homônimo, Pai de Francisco), Ribamar do Maranhão, eu pelo menos tenho o direito de te chamar assim, né seu vascaíno sacana? Claro que foi o Ribamar do Maranhão que falou, ao discursar uma vez no Congresso americano, sobre a tal da “liturgia do cargo”, que nos faz separar a pessoa do personagem e tratar os dignitários no genuflexo. Eu vi aliás o Presidente do Senado discursando no Congressso Americano, lá do alto da galeria, convidado especial de Jimmy Malloy, que tinha um cargo curioso. “Doorkeeper of the House” seria o honorífico de “porteiro da casa”, mas tratava-se apenas do diminuto irlandês que bradava a entrada do presidente ou de outros ilustres que adentravam o parlatório. Isso tudo para dizer que eu devia te chamar de senhor governador, apesar de não te ver há tempos. Mas não faria isso nem fornicando. Aliás… Bem, deixa prá lá. Só ajoelho em locais sagrados, na hora de rezar. Somente para coisas metafísicas ou para a hora do lanche. Fora isso, tou fora.
Isso não importa. Temos amigos em comum e você sempre foi carinhoso e pergunta por mim. Eu estive fora muito tempo como você sabe. Continuo por fora (como você pode constatar), numa órbita pessoal e intransferível e, a essa altura, eu vou morrer assim. Curiosamente, estava no país que mantinha oligarquias que promoviam desigualdades como a nossa. Mas lá mesmo se pratica uma coisa mais igualitária. Gozado. Não tem genuflexo a não ser na hora de rezar. Nem monarquia ou pseudo-aristocracia. Tem ignorantes, como aqui, essa coisa que Nélson Rodrigues invejava por ser das únicas que se sabia ser eterna.
Bom meu caro, um dia a gente se vê e bota o papo em dia, aquele que começou lá na sétima série. Nunca mais te procurei pois você tem mais o que fazer e está ocupado e eu também. Não quero pedir nada e nada tenho a oferecer. A não ser a boa conversa afável, com boas risadas, fazendo troça de outrem, como manda o figurino. Obrigado por apartar algumas de minhas brigas, eu ia quebrando o meu pulso na marginália infanto-juvenil. Você foi pra vida do parlatório. Eu preferi ficar mudo. Parabéns aí pelo sucesso. Mas queria escrever essa nota rápida pra dizer que, por questões profissionais, fiquei em recinto fechado com estrangeiros, ainda mais em São Paulo. Por precaução, depois de dias sem melhora de febre e gripe, fui numa de suas UPAs verificar se estava com a peste suína. Não sei se foi sua criação. A UPA. Ou da sua criatura que é pretérito mais que prefeito. Mas não vou dar a César o que não é de César. Nem fornicando. (continua aqui)
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30 de junho de 2009
Por Henrique Koifman

Fotografia é, basicamente, usar a luz para copiar (e guardar) cenas que enxergamos. A definição, claro, é uma entre dezenas. E se a luz é ferramenta, é também – e antes – ingrediente da própria cena, de cada momento. De sua ausência, que nos mergulha em mistérios (e, dependendo da circunstância, em medo), a sua abundância, que pode ofuscar e dissimular tão bem ou melhor que a penumbra. Não, não se preocupe, não vou usar esse espaço para exibir erudição (que não tenho) ou filosofar rasante num campo em que mestres – como Roland Barthes, que ainda por cima escrevia muito bem – já nos fartaram. Melhor, paro com esse assunto e esse tom nesta linha, agora. Juro que o palavrório era só para introduzir as fotos desta edição do Fotodiário, nas quais a luz me parece saltar ao olhar.
A primeira delas foi feita no sábado da semana anterior, quando levei o carro para colocar pneus novos. Achei a lanterna traseira – com a luz de freio acesa e reflexos da paisagem – bem interessante. Quase ao lado, o sol da manhã (eram 8h, por aí) realçava o relevo da tampa de um bueiro. No domingo à noitinha, fui buscar o caçula numa festa no Clube dos Macacos e descobri um grupo dançando tango no salão iluminado.
Já na segunda de manhã, contornando o Passeio Público a caminho do trabalho, registrei o sol do inverno vazando a névoa e as copas das árvores do jardim. Na volta para casa, na Rua do Catete, fotografei outra cena em contraluz, em frente às vitrines de um grande magazine. A névoa densa – novamente – deu o tom à manhã de terça. Do Mundo Novo (fui dar uma caminhada pensando em ver o mar), tudo o que se via do Pão de Açúcar era seu cocuruto, emergindo de uma nuvem balofa que deixava em branco toda a enseada de Botafogo. Mais adiante, na Belisário Távora, passei por esse reluzente fusca dourado, emoldurado por pedras do muro e da pista.
Na quarta à tardinha, na saída do metrô de Botafogo, uma senhora preparava churrasquinhos perfumados (não, não provei). Pouco depois, numa paradinha para um café com broinhas com a namorada, fotografei pai e filho do lado de fora da vitrine, esperando por uma mesa. Já dia seguinte, em outro lanche à tarde, só que no Centro, notei que as fatias de bolo de milho (esse eu provei, estava ótimo) pareciam destacadas, iluminadas na vitrine do balcão da padaria. No fim do dia, fui à inauguração da exposição de fotografias de meu amigo Chico no Museu do Folclore, no Catete. Na sexta, passando pela Travessa do Comércio, percebi que a porta de um dos sobrados estava decorada para as festas juninas.
A vitrine – com Bogart e Bergman deslocados de Casablanca para o Rio – é da loja do Espação, em Botafogo; o prato colorido com “comida de criança”, de nosso jantar de sexta, aqui em casa; o guarda-chuva com nuvem e gotas d’água estava na mostra de artes dos alunos Sá Pereira.
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29 de junho de 2009
Por Eduardo Souza Lima
Os Autoramas começaram a gravar hoje à tarde o seu DVD acústico para a MTV. Na platéia, estavam VIPs como a primeira baixista da banda, Simone do Vale - a maluca de maria chiquinha que volta e meia aparece no canto esquerdo -, e seu filho Fernando Barreiros, eventual colaborador da Zé Pereira, e as jornalistas Marcella Sobral e Simone Gondim. No vídeo acima, o início dos trabalhos e a fabulosa canção ”Eu mereço” - não dava pra levantar e o som não é nenhum THX, mas é uma raridade, já que a tomada não valeu e não vai entrar no DVD.
A propósito: começa amanhã, em Colônia, a turnê dos Autoramas por Alemanha e Holanda.
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29 de junho de 2009


Agente da Të Shtetit de Drejtorija e Sigurimit, a polícia secreta albanesa, contato de Martina Wiedergeboren no Rio de Janeiro, o peixe que sabia demais.
Agora falando sério: reinaugurado com pompa e circunstância há alguns anos, o aquário do Parque Lage foi abandonado pela atual direção. Segundo um guarda municipal que lá trabalha, seu tratador foi dispensando e ninguém mais alimenta os peixes ou renova a água. A finada tilápia da foto - uma das estrelas de “Pimentípoli”, que Oxum a tenha - nem deve ter sido a primeira vítima do descaso: tem tanque que não dá pra ver nada, tão turva está a água. É um peixecídio anunciado.
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29 de junho de 2009
Por Arnaldo Branco
Fui esses dias em um debate com o cineasta Michel Gondry e fiquei impressionado com o número de perguntas do naipe “como você conseguiu”? Imaginando que ali só houvessem admiradores do trabalho do cara, calculava que todos deveriam saber a resposta.
É a mesma que Noël Coward deu muitos anos atrás, quando perguntaram como explicava seu sucesso como dramaturgo, ator, cantor, compositor e romancista - ele suspirou, olhou para o céu e soprou: “talento”. Mas entendo o que os argüidores queriam saber. Eles queriam saber como Gondry tinha conseguido superar a massa cinza e dura formada por gente insensível que separa o artista (vários se anunciaram como cineastas quando pediram a palavra) de sua glória.
Esse tipo de dúvida trai a idéia de muitos - de que, com um pouco de recursos e atenção, o artista em potencial provará seu valor e passará a formar com o time dos que dão palestras. Uma certeza que, partilhada por tantos, vai de encontro às estatísticas da manifestação do talento no mundo. É uma boa postura para quem realmente tem um dom genuíno, ou pelo menos um esculpível, mas é fatal para quem ainda precisa comer muito feijão.
Trabalhar com criação tem esse lado cruel; é preciso ter alguma dose de reconhecimento para se poder, efetivamente, trabalhar. Mas o reconhecimento tem mais caminhos misteriosos que a vontade de Deus, e talvez Ele seja mesmo o responsável pela distribuição nada equânime do artigo.
Sei que isso é clichê geralmente repetido por pessoas que atingiram um certo grau de estabilidade e, lá do alto de seu paternalismo, jogam esse conselho como uma migalha para os famintos. Mas como não atingi tal estabilidade, trabalho em uma arte considerada menor e minha torre de marfim é um conjugado de zinco, acho que estou podendo: o pior jeito é tentar demais.
Tanto no campo sexual como no artístico, a ansiedade pelo sucesso reduz as suas chances. Aliás, almejar o sucesso é um erro estratégico, não se envergonhar do que você faz já é puta bom começo.
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28 de junho de 2009

Por Luiz Bello
Quando penso em Michael Jackson, me lembro daquele filme do Woody Allen, estrelado por Sean Penn, (Poucas e boas,1999) sobre o “segundo maior violonista de jazz do mundo”, uma comédia que adquiriu tons um pouco trágicos por causa da (boa) atuação do ex-marido de Madonna. A principal mensagem que o filme me deixou foi: grandes artistas também podem ser grandes filhos da puta. É claro que o inverso não é necessariamente verdadeiro, como mostra a personagem da foto acima, mas isso é outra estória.
Não dá para perdoar abuso infantil. De vítima, Michael passou a algoz, subornando meia dúzia de famílias para ter crianças passando uns tempos com ele, na Terra do Nunca… Talvez por isso tenha se livrado tão facilmente dos consequentes problemas com a Justiça. Da mesma forma que, despejando mais um pouco de dólares, arrumou quem lhe aplicasse demerol em domicílio.
O garoto negro que esbanjava talento foi perdendo a cor e a beleza, através de muitas plásticas e tratamentos suspeitíssimos, só acessíveis a quem tem dinheiro e loucura de sobra. Com sua morte, envolta nessa neurótica medicina de ricos, sobram dívidas e grana em litígio. Seus três filhos vão precisar de muita sorte.
Mas quando penso na minha juventude, é impossível não lembrar de suas singelas melodias e espetaculares performances em vídeo, recordes de audiência mundo afora. Ele foi, talvez, o mais bem sucedido empreendimento da indústria pop e está presente na memória afetiva de milhões, nos quatro cantos do planeta. Das muitas homenagens flagradas por celulares e CNNs, a que mais me impressionou é tão bizarra quanto o homenageado, e vinda de um monte de gente que também não foi perdoada. Vai em paz, Michael. Acerte suas contas com o Menino Jesus.
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28 de junho de 2009

Cada um que trate de sua dor-de-cotovelo, mas da minha eu cuido num show do Wander Wildner - vi um agorinha, na Drinkeria Maldita de Copacabana. Como sou um homem sério, sigo um ritual: um dry martini, um blood mary e um gin tônica, necessariamente nesta ordem. Custa uma grana federal.
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26 de junho de 2009

Viviam sacaneado o Michael Jackson, diziam que o cara era um fresco, e não é que ele tinha toda a razão em se preocupar com sua saúde? E aí, será que o papo do vitiligo era verdadeiro?
Não é mole, não: o sujeito foi discriminado por ser negro e depois por ser branco. É um fenômeno. O cara faz ”Don’t stop ’til you get enough” e vira pára-raio de recalque da Humanidade.
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26 de junho de 2009

Por João Moraes
Todo município do interior tem seus malucos folclóricos, docemente adotados pela comunidade. Eles conferem subjetividade à personalidade brusca das cidades; quebram ao meio, na paisagem monótona, a igualdade das cores, gestos e a aparente modorra dos costumes. Em Cachoeiro do Itapemirim há vários assim e também muitos que já se foram, como Maria Fumaça e Taruíra. Entre os atuais há o imortal Neném Doido, homem capaz de fumar 15 cigarros ao mesmo tempo, enquanto comanda o trânsito da capital secreta num pare/siga sem fim; sempre em vertiginosa disparada marchando em direção ao nada. Uma verdadeira lenda.
Entre esses atuais há também o Agulha, um doidim pequeno e franzino, que lava carros e faz aparições pela rodoviária sempre pedindo um trocado como se fosse um antigo amigo. Agulha sempre comia na casa de Dr. Paulo Herkenhoff. Ia lá em determinado horário e dona Mery lhe servia um prato de comida todos os dias. Mas certa vez, Agulha apareceu fora do horário, bateu na porta como de costume e quando atenderam, lá estava ele junto com um outro maluco, magérrimo, barbudo e meio hippie. Dona Mery chama Dr. Paulo e diz que agulha trouxe outro freguês, mas que ela não estava preparada para servir naquela hora sequer um prato de comida, quanto mais dois. O velho Herkenhoff chegou até a porta e quando olhou para o maluco barbudo, firmou a vista, puxou pela memória e… “É o Raul Seixas, Raul Seixas!” (continua aqui)
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26 de junho de 2009

“As aventuras amorosas de um padeiro” (1975), de Waldyr Onofre, é avis rara do cinema nacional: um longa-metragem dirigido por um negro e rodado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Campo Grande. Comédia de costumes à carioca, mantém até hoje o seu frescor - e ainda tem o Paulo Cesar Pereiro fazendo papel de português da padaria. É uma alegria para olhos cansados da mesma imagem da cidade. O diretor estava tentando filmar novamente na região, em esquema de cooperativa, mas a gente não sabe no que deu. O filme passa hoje, às 19h, no Cineclube Espaço Utopya (Tempo Glauber, Rua Sorocaba, 190, Botafogo), em sessão em parceria com a Cinemateca do MAM, completada pelo curta “Que cavação é essa?”, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo. Depois da sessão, o curador Dario Gularte e a pesquisadora Anna Karinne Ballalai (co-curadora da sessão) debaterão com o público, realizadores, equipe e atores de ambos os filmes. A entrada é franca.

Mais tarde, às 21h, no Odeon, o Cineclube LGBT faz sua sessão de aniversário com os filmes favoritos do público. Serão exibidos “Café com leite”, de Daniel Ribeiro, “O vestido dourado”, de Aleques Eiterer, Alexandre Guerreiro, Alexandre Seigarro, Flávio Magalhães e Renata Abreu, “Homo erectus”, de Rodrigo Burdman, “Laura, Laura”, de Claudio Dias, e “Suzy Brasil - A deusa da Penha Circular” (foto), de Renata Than. Depois da sessão tem festa com o DJ Great Guy. Ingressos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

E do outro lado da poça, o Cineclube Sala Escura exibe “Roma”, um dos filmes de Fellini favoritos da Zé Pereira. Aqui o mestre italiano faz um retrato surpreendente - tem um desfile de moda eclesiástica! - e afetuoso da Cidade Eterna, misturando ficção e documentário. No Cine Arte UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói), às 21h, com entrada franca.
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