30 de abril de 2009
“Como e por que você fez isso?”
Realizadores dos filmes exibidos na terceira noite do XIII Cine PE dão a cara pra bater
Texto: Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
Hoje, ninguém faltou: estavam lá todos os diretores de todos os curtas exibidos na terceira noite do XIII Cine PE. Uma noite lamentável, mas ninguém comentou os estranhos eventos ocorridos. Era hora de voltar a falar de cinema. Para isso compareceram à coletiva os diretores Diego Trajano e Lucas Fitipaldi (“Um artilheiro no meu coração”), Inês Cardoso (“Cocais - A cidade reinventada”), Renata Terra e Paula Szutan (“Teresa”) e Armando Praça (“A mulher biônica”), junto com sua protagonista Ceronha Pontes.
E então, abrem-se as cortinas. Literalmente: a energia elétrica faltou novamente no hotel, pela terceira vez em dois dias. Aposto que todos os que estavam filmando a conversa ficaram aliviados de terem carregado as baterias de seus equipamentos com antecedência.
Quem acabou se destacando no bate-papo desta manhã foi Inês Cardoso. Ao contar em “Cocais” a história de uma cidade no interior de São Paulo que ela definiu como uma declarada “comunidade da exclusão”, a diretora gerou curiosidade sobre o que realmente acontece ali, e como foi seu processo de registro da vida em uma cidade-manicômio.
— É uma cidade que, antes de 1970, abrigava leprosos; agora, é um manicômio para cerca de 800 pacientes e 1.400 funcionários públicos que administram o lugar e tomam conta deles — contou a cineasta ao ser perguntada pelo figuraça Cavi (se não sabe quem é, não tá lendo a nossa cobertura!) — Visitei a cidade durante um ano, em um processo de imersão no cotidiano do lugar.
O que não quer dizer que Inês não tenha causado nenhuma intervenção. Pelo contrário: o filme foi todo pensado, segundo ela, em assembléias com os moradores-pacientes. E que a cidade, apesar de ter toda uma estrutura que inclui um estádio, cinema, salões de baile, é extremamente morosa. Os lugares citados são mal cuidados, quando não abandonados. Sendo assim, o que eles mais queriam era festa. E assim o foi.
— Foi um trabalho de produção cansativo, mas muito gratificante. E não só os moradores se envolviam, mas também os funcionários. Criamos uma escola de samba que agora desfila todo ano na cidade vizinha. — continuou Inês. — Fizemos a primeira festa junina da cidade a ser aberta às pessoas de fora em 40 anos. Iluminamos toda a cidade, chamamos grupos de música e ensaiamos uma quadrilha por dois meses.
Quando questionada sobre sua experiência de imersão na comunidade não ter sido integralmente transmitida para a tela, Inês ponderou sobre o fato de que o material era vasto.
— A montagem acabou se tornando uma coisa complicada. Muita coisa pra mostrar, e tive que me decidir entre me aprofundar em alguns personagens ou tentar mostrar a comunidade como um todo. Além disso, talvez eu tenha me deixado envolver demais. Pode não ter havido o distanciamento necessário — concluiu a cineasta.
Já Renata Terra e Paula Szutan contaram que seu “Teresa” nasceu em um curso de roteiro, de um exercício em que precisavam desenvolver uma sinopse a partir de uma foto. Escolheram uma fotografia de Sebastião Salgado, tirada no Terminal Rodoviário do Tietê (na capital paulista), e assim nasceu a personagem que vive o sonho de sua espera chegar ao fim. Foi destacada a fotografia da película, que as diretoras afirmaram ter sido pensada para destacar o caráter ilusório e flutuante da vida da personagem. Paula revelou uma curiosidade: o efeito de granulação no filme foi conseguido com uma lente quebrada.
Já em “A mulher biônica”, Armando Praça disse que seu intento ao adaptar o conto “Creme de alface” (de Caio Fernando Abreu) era criar um balanço entre certa crueza documental e um quê de exagero ao estilo Almodóvar, mas sem descambar para a caricatura.
— Demos muita liberdade para o elenco improvisar, e nas locações fechadas, fizemos a iluminação de forma que pudéssemos mudar o plano sem ter que deslocar todo o maquinário, e assim, sem precisar interrompê-las — conta o diretor.
Já Maurício Rizzo vai ter que agüentar por muito tempo a pergunta: “Você escolheu o protagonista Bruno Mazzeo por conta da sitcom “Cilada”, do Multishow?”. E provavelmente vai responder sempre assim:
— Não. Fizemos o filme antes da idéia da série surgir, e o roteiro estava pronto dois anos antes das filmagens.
Mas vá, Rizzo, não reclame. Propaganda nunca é demais. Já o pessoal de “Artilheiro (…)” disse que a intenção era só resgatar um cara que está sendo esquecido, e que isso não podia acontecer. Ainda disseram que estão tentando transformar o filme em um média-metragem para a TV, já que ainda tem muito material que ficou de fora. (continua aqui)
























