31 de março de 2009
31 de março de 2009
Que filme brasileiro, eu quero é ver o Costa-Gavras!
Confirmação da presença do cineasta franco-grego rouba a cena no anúncio da programação oficial do 13º Cine PE - Festival do Audiovisual
Texto: Dandara Palankof
Foto: Rose Lima
Ligue a TV, abra o jornal e eu lhe dou meu braço direito se não se falar, por um momento que seja, na tal CRISE. E a área de cultura, tão carente do dinheiro alheio, é quem mais a sente. A Petrobras, grande mãe de todos nós, por exemplo, reduziu drasticamente seus investimentos no setor este ano. E o Recife, logo neste mês que está por vir, tem dois filhos altamente dependente dos lucros do nosso (?) petróleo: o Abril Pro Rock e o Cine PE. O primeiro, no meio do mês, perdeu o patrocínio. O segundo, que acontece de 27 de abril e 3 de março, ainda tem o nome da estatal em seu material de divulgação, mas o futuro a Deus pertence:
- Olha como tem muito menos logos nos banners deste ano - comentou Alfredo Bertini, um dos diretores do festival.
Foi assim que teve início ontem à tarde, a coletiva de imprensa que apresentou a programação oficial do maior festival audiovisual do Nordeste.
- Outros festivais, como o de Tiradentes e o É Tudo Verdade, também já sofreram estes efeitos. Nós mesmos ainda estamos no processo de fechar outros dois patrocínios - continuou Alfredo, que diz que a produção audiovisual brasileira ainda aproveita as “gorduras” do fim do ano passado; no segundo semestre sim, é que haverá um verdadeiro declínio.
Após (mais) esta previsão sombria, ele e a também diretora Sandra Bertini mostraram o que realmente aguarda os cinéfilos de plantão no Cine PE 2009 - recomenda-se tirar o som do computador ao clicar aí, depois não venham dizer que a gente não avisou. Além, é claro, da menina-dos-olhos deste ano: a presença do consagrado cineasta Costa-Gavras - se você não sabe quem é, ajoelhe no milho e clique aqui.
Os longas-metragens do festival
Ao longo dos três últimos meses, os curadores escolheram, entre 566 inscritos (cerca de cem a mais do que para o festival do ano passado, segundo os Bertini), os 74 filmes que compõem as mostras competitivas de longas e curtas-metragem deste ano. Ausentes desta etapa no ano passado, os Bertini desta vez estiveram a frente da escolha dos filmes a serem exibidos, junto a outro curador, o jornalista baiano João Sampaio.
- Há, para nós, um nivelamento entre os concorrentes deste ano - garantiu Sandra.
Com os curtas-metragens já divulgados há cerca de dez dias, ficam aqui os nomes dos longas: “Mistéryos” (PR), de Pedro Merege e Beto Carminatti; “Um homem de moral” (SP), de Ricardo Dias; “Praça Saens Peña” (RJ), de Vinícius Reis; “Alô, Alô, Terezinha” (RJ), de Nelson Hoineff; e “Estranhos” (BA), de Paulo Alcântara. A programação completa do evento você confere aqui, tomando aquele cuidadinho básico.
O grande número de inscritos, segundo eles, reflete a popularização das tecnologias digitais, mas com um revés: a baixa qualidade técnica de vários deles. Para os produtores, é hora de repensar o modo como é feita a produção audiovisual, ainda mais em tempos de (lá-ela!) CRISE. Mas trabalho bem-feito é trabalho bem-feito e, além dos tradicionais produtos digitais da mostra de curtas, dois longas se valem dos novos meios: “Mistéryos” e “Estranhos”. (continua aqui)
31 de março de 2009
Fotodiário celular HK XLVII
Por Henrique Koifman
Na sexta da semana passada, talvez ainda influenciado pela exposição do Vik Muniz, achei tremendamente fotogênico um montinho de flores e folhas varridas no pátio do edifício do acupunturista. É essa a imagem que abre esta edição do Fotodiário. No sábado, pela manhã, fui ouvir o Choro na Feira, na General Glicério, e encontrei o grupo reduzido aos bambas Bilinho (violão), Ignez (cavaquinho) e Franklin (flauta). Formação pequena, mas som dos melhores. Mais adiante, conheci uma nova espécie de pimenta, a cafezinho – essa roxinha nos pratinhos da direita. Subindo a rua, passei por um trecho de calçada molhado pela faxina e gostei dos reflexos nas pedras portuguesas.
No domingo, junto com amigos, tentamos (mas não conseguimos, estava lotado…) tomar café da manhã no Parque Laje. Apesar do chuvisco, o cenário estava muito fotogênico – não é à toa que tantos filmes tiveram aquelas paragens como locação.
Segunda pela manhã, indo a pé para o Largo do Machado, encontrei os muros e as grades da última grande mansão da Rua das Laranjeiras cobertos por essas pequenas pétalas lilases. Já na rua do Catete, terça pela manhã, fotografei uma cadeira de balanço que esperava pelos serviços de um artesão da palhinha que trabalha por ali. Sem querer (ou por falta de firmeza, sei lá), acabei conseguindo um efeito de movimento de que gostei bastante. Já perto do trabalho, esquina de Senador Dantas com Evaristo da Veiga, gostei do contraste da fachada cega de pastilhas de um edifício com o belo céu malhado do outono.
Na quarta, aproveitando uma reunião à tarde nas redondezas, resolvemos – eu e meu sócio – almoçar no Aconchego Carioca, ali atrás da Praça da Bandeira. Há tempos que ouço falar do lugar e, pelo escondidinho de camarão que comemos, sua fama é plenamente justificada. A janela (ao lado do prato) é de um sobrado em ruínas, na mesma rua, que tem o céu como teto. As redes de pano (infelizmente, apenas decorativas) são também do Aconchego e as de cimento, com flores salpicadas, da calçada ali perto. A tal reunião foi num 16º andar, de onde se via uma boa parte da Tijuca, com o Sumaré ao fundo.
Na quinta, saltando do ônibus na Beira-Mar, dei de cara com esse carrinho (no canto direito inferior), cheio, de latinhas vazias. Acho que daria um bom tratado sobre o consumo contemporâneo, mas, como aqui sou prioritariamente fotógrafo (ufa!), deixo para outro escrever.
Sexta, voltando do almoço, fotografei o elaborado poste com luminárias que fica no largo em frente à Cecília Meireles. A placa de desvio achei na General Glicério, no mesmo dia, à noite. É da interminável e recorrente obra do gás que mantém nossa cidade esburacada há tempos.
30 de março de 2009
Rir é um mal necessário
O mito do humor inteligente no Brasil é tão arraigado quanto os de que fazemos a melhor TV de mundo e que a grande imprensa pratica a liberdade de expressão.
O Arnaldo Branco até mandou a coluna desta semana cedo (táqui), mas ela só está saindo agora porque os editores desta revista são uns $#@&*§¢£!!! incompetentes!
Mas amanhã cedinho, a gente jura, com as mãos sobre sobre a Bíblia do Lincoln, tem o Fotodiário celular HK!
30 de março de 2009
O mito do humor inteligente
Por Arnaldo Branco
Às voltas com acusações de hermetismo de gente que nunca viu um filme dele, Woody Allen sempre responde quando perguntam porque costuma ser confundido com um intelectual: “É que eu uso óculos”.
Aqui acontece algo parecido: nós confundimos humor raso com inteligente por causa do adereço, é por isso que os caras do CQC usam terno. Do contrário, todo mundo perceberia que aquilo é um programa ordinário de pegadinha que sacaneia político em vez de empregada doméstica.
E sacaneia é boa vontade minha. Em uma edição recente, os caras serviram de escada (de novo, me dizem) para o Maluf, que, embora seja mesmo um pulha carismático, tem um telhado de vidro maior que o da estufa particular do Willie Nelson. Um dos caras da produção do programa chegou a dizer que não tem culpa do Maluf ser GENIAL, provavelmente o termo mais aviltado do mundo depois de “honesto”.
Nem falo só do CQC - o humor político brasileiro tende ao inócuo. Nos anos 80, quando o Angeli descobriu que o Delfim Netto costumava colecionar os desenhos que os cartunistas faziam dele, resolveu parar de falar de política em protesto. Só voltou depois de anos, quando passou a usar sua expertise de humor comportamental nas charges - e hoje duvido que o Delfim guarde aqueles desenhos de deputados cobertos de sangue, merda e pústulas.
Talvez porque precise de contextualização, o humor político passa automaticamente por perspicaz. Mas olhem os nossos políticos. Bolas, olhem só o nosso presidente - não dá para dizer que é um personagem cheio de profundas nuances psicológicas.
Essa confusão deve ser porque político também usa terno.
30 de março de 2009
Como nos velhos tempos, ou “categóricos” torturadores
Por Luiz Bello
No dia 3 de abril de 1964, o jornal “O Globo” estampou, em sua primeira página, matérias apoiando a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, manifestação de setores conservadores da classe média carioca, que foram às ruas, no dia anterior, apoiar o golpe de estado contra o presidente João Goulart. Passeatas semelhantes haviam ocorrido em São Paulo (em 13 de março do mesmo ano) e em outras capitais. Tudo fazia parte de uma grande campanha, apoiada por políticos de oposição, empresários conservadores, setores militares e pela CIA, para desestabilizar o governo de Jango, considerado esquerdista e perigoso aos olhos do Tio Sam. Aliás, todos os governos democráticos da América Latina eram considerados perigosos, na época, e todos foram derrubados e substituídos por ditaduras, com apoio do EUA. Dólares foram despejados fartamente em jornais brasileiros, que não se acanharam em participar de uma trama orquestrada do exterior, para desestabilizar o governo democraticamente eleito de nosso país. Isso é História. A parte vergonhosa da História que cabe às organizações de Roberto Marinho.
Neste domingo, “O Globo” pareceu voltar às suas origens, estampando em primeira página manchete que acusa o falecido Leonel Brizola de receber propina das empresas de ônibus do Rio de Janeiro. Empresas encampadas por ele e que, mais tarde, se uniram para financiar o candidato que o derrotou nas urnas (Angorá Moreira Franco).
Vivo fosse para se defender, certamente o velho Briza acionaria novamente a Justiça contra “o jornal do Dr. Roberto”. E, creio eu, venceria. Como venceu inúmeras vezes, conseguindo publicar suas respostas, respaldadas por lei, nas páginas do jornal que o difamava.
É de uma leviandade absurda que se dê espaço na primeira página de um dos jornais mais importantes do país para relatórios produzidos por gente que assassinou, torturou e se especializou em contra-propaganda clandestina, financiada com dinheiro estrangeiro. Gente cujo objetivo principal era desestabilizar o governo constitucional e implantar no Brasil uma ditadura militar, fiel aos ditames de Washington.
A matéria não menciona quase nenhum nome. Apenas reproduz o que os relatórios anônimos do SNI vociferavam contra Brizola, o governador gaúcho que organizou a resistência ao golpe de 1964 mesmo depois de o presidente João Goulart ter abandonado o país. Os militares golpistas jamais o perdoaram por isso, perseguindo-o até quando ele, retornado do exílio, conseguiu recuperar, no voto, o espaço que a ditadura lhe havia roubado. Houve no Brasil algum político que tenha conseguido se eleger governador por dois estados (Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro)?
Os arquivos do SNI são públicos? Como “O Globo” teve acesso a eles? Outros pesquisadores poderiam ler os textos reproduzidos pelo jornal? Quem assina os relatórios do SNI? Qualquer fonte anônima pode ter suas palavras estampadas na primeira página do jornal mais importante do Rio de Janeiro?
O próprio texto da matéria reconhece que nada foi provado, mas manifesta implícita simpatia com os autores das calúnias, ao afirmar que a ditadura acionou seu “sofisticado esquema de espionagem” para investigar o governador do Rio. Ora, quem viveu e conheceu as investigações perpetradas naquele tempo sabe que a ditadura foi tudo, menos sofisticada. As “informações” eram obtidas por caguetagem, intimidação e porrada, muita porrada, distribuída covardemente, nos porões dos quartéis.
O texto da reportagem ainda diz: “Os relatórios não apresentam provas e não indicam ter originado investigações formais, mas são categóricos nas acusações”. Um torturador “categórico” parece ser fonte confiável, aos olhos dos atuais editores de “O Globo” e do repórter que assina a matéria, Bernardo Mello Franco.
Nunca votei em Brizola. Não confiava em seu discurso de caudilho. Mas, ainda assim, não pude deixar de notar que ele sempre esteve muito acima de todos os milicos e torturadores que conspiraram pela sua derrota, fosse antes ou depois do golpe. “O Globo”, aparentemente, ainda não perdoou o velho gaúcho. Ainda o teme e difama, tantos anos após a sua morte.
A manchete correta, na minha modesta opinião, talvez fosse “Sarney rasgava relatórios do SNI”, uma informação dada ao jornal, com exclusividade, pelo proprio ex-presidente, e que demonstra a credibilidade que tais arapongas tinham entre os políticos da época.
Por mais que tenha se excedido e transigido com diversos aliados de conduta para lá de duvidosa, Brizola foi um político impar. Ele, certamente, poderia sentar seus netos no colo e contar a sua vida, sem medo ou vergonha. Será que poderiam fazer o mesmo os rapazes anônimos do SNI, do Cenimar, dos CODI e outras siglas obscuras, para quem “O Globo” cedeu espaço tão nobre e generoso?
E olha que eu nem falei da Proconsult…
28 de março de 2009
Eu faço vídeo!
É muito legal quando os bons tempos são agora, o que talvez seja o caso dessa turma de estudantes da ECO e da UFF, que fizeram um vídeo brincando com o pedantismo do meio acadêmico. São dez minutinhos, pra sentir saudades de quando a gente achava que ia mudar o mundo e comer todas(os), graças a uma camcorder VHS emprestada e à nossa genialidade ainda não reconhecida. Não pensem que isso não dá certo: o Zé conseguiu…
E vagabundo é a putaqueopariu!
28 de março de 2009
Os ganhadores de Guadalajara
Por Estevão Garcia
A Zé Pereira divulga em primeira mão no Brasil os grandes vencedores do 24 Festival Internacional de Cine en Guadalajara. A entrega dos prêmios e a exibição do filme vencedor da competitiva ibero-americana de ficção aconteceu ontem, às 21h, no Auditório Telmex. Sobre o vencedor do melhor filme ibero-americano de ficção, confesso que fiquei meio decepcionado, estava torcendo para “Aquele querido mês de agosto”. Não só porque o filme é muito bom, mas também porque assim eu teria a oportunidade de vê-lo novamente. O vencedor, “La teta sustada” (Dir: Claudia Llosa, Espanha/Peru, 2009, que também venceu o Festival de Berlim), é bastante interessante e representa um grande salto na filmografia de sua diretora, mas não chega perto do filme português. O prêmio de melhor filme mexicano de ficção foi concedido a “Viaje redondo” (Dir: Gerardo, México, 2009, foto), que eu particularmente achei bem ruim. Mas, imagino a tremenda dificuldade que os jurados tiveram. Aí seguem os nomes dos vencedores:
Melhor curta-metragem de animação: “Jaulas” (Dir: Juan José Medina).
Melhor curta-metragem ibero-americano: “Karai norte” (Dir: Marcelo Martinessi, Paraguai, 2009).
Melhor curta-metragem mexicano: “El tío Facundo” (Dir: Alejandro Cachoúa, México, 2008).
Melhor documentário ibero-americano: “Unidad 25” (Dir: Alejo Hoijman, Argentina/Espanha, 2008).
Melhor documentário mexicano – “Los que se quedan” (Dir: Carlos Hagerman e Juan Carlos Rulfo, México, 2008).
Menção especial de documentário: “El viaje del cometa” (Dir: Ivonne Fuentes Mendoza, México, 2009).
Melhor filme ibero-americano de ficção: “La teta sustada” (Dir: Claudia Llosa, Espanha, Peru, 2009).
Prêmio especial do júri: “Aquele querido mês de agosto” (Dir: Miguel Gomes, Portugal, 2008).
Melhor filme de estreante ibero-americano: “Voy a explotar” (Dir: Gerardo Naranjo, México, 2008).
Melhor filme mexicano de ficção: “Viaje redondo” (Dir: Gerardo Tort, México, 2008)
27 de março de 2009
Policial que ladra não morde
Texto: Estevão Garcia
Foto: Eva Becerra
“Bala mordida” (Dir: Diego Muñoz, México, 2009) – Competitiva mexicana de ficção
Ontem foi o dia da coletiva de imprensa de “Bala mordida”, filme que retrata o universo dos policiais da Cidade do México com um desejo de provocar polêmica. Diego Muñoz, o diretor, afirma que a corrupção em si é um tema que o fascina porque ele “revela de maneira contundente o nível evolutivo de uma sociedade”. E, segundo ele, o fenômeno mais visível e onipresente da sociedade mexicana é, sem sombra de dúvida, a corrupção. O diretor então, segundo seu discurso, procurou abordar o tema da corrupção através de uma aproximação direta com o cotidiano de uma delegacia. Vendo a corrupção que envolve o dia a dia laboral dos policiais podemos ver como ele se expressa na totalidade da sociedade mexicana. Tentando detectar o que seria a principal causa da corrupção inerente ao mundo dos “defensores da lei” o diretor repete um clichê que todo mundo está cansado de saber e que não acrescenta nada de novo à questão. Muñoz diz que os policiais entram em “negócios sujos” porque ganham um salário miserável e que entre ser um honesto pobre e um corrupto cheio da nota a segunda opção é a que ganha. Isso é obvio: o salário baixo, as precárias condições de trabalho, as pressões diárias, o convívio com a morte, tudo isso faz que o cotidiano de um policial seja um tormento. Além disso, acredito que em todas as partes do mundo, mas na América Latina em particular, os policiais não são vistos com bons olhos pela maioria das pessoas. Segundo Octavio Castro, ator do filme: “ninguém quer ser policial no México. É sinônimo de ser cafona, feio, sujo, corrupto e ladrão”. De fato, a imagem negativa dos policiais é universal.
Mas, se a corrupção entranhada no trabalho diário das autoridades policiais é mais um elemento que comprova a semelhança existente entre as sociedades latino-americanas, eu pensei, já que estamos falando de cinema, em filmes de outros países latino-americanos que abordaram o mesmo cenário. Vieram-me à mente “El bonaerense” (Dir: Pablo Trapero, Argentina, 2002) e “Tropa de elite” (Dir: José Padilha, Brasil, 2007). O retrato do universo policial é o principal elemento que une esses três filmes e como os dois primeiros são anteriores a “Bala mordida” e já são uma referência no cinema latino-americano contemporâneo (na América - latina e fora dela), perguntei ao diretor se elas de alguma maneira o teriam influenciado ou o teriam ajudado a pensar na construção desse universo. Ele me respondeu que viu “El bonaerense” e “Tropa de elite”, mas que não as usou como referências. Falou que “Tropa de elite” não aborda o mundo dos policiais porque se enfoca em três policiais em particular e apresenta como fio condutor a visita do Papa ao Rio de Janeiro. Também disse que “El bonaerense” não é um filme sobre os policiais. Eu gostaria que ele tivesse me definido o que ele entende como “filme sobre os policiais”. É claro que todo filme é ao mesmo tempo sobre um monte de coisa, e que um elemento que é mais evidente não exclui os que são vistos como secundários. Se a Trapero não lhe interessava fazer um estudo sobre os policiais, porque era mais importante para ele expressar a trajetória de um personagem oriundo de uma região rural que cai de paraquedas em uma delegacia se transformando de uma hora para outra em um policial, isso não o impede de ser um filme “sobre os policiais”. A descrição de Trapero é tão crítica, crua, direta e agressiva quanto a de Muñoz, ou até mais, porque o primeiro está a mil anos luz do segundo. O que faz o conteúdo é a forma e se Trapero articula a forma melhor que Muñoz também concretiza o mesmo em relação ao conteúdo.
Tudo bem que a proposta de Muñoz é mais “comercial” e que a diferença de estilos entre os dois filmes é enorme. Também é preciso ressaltar que o que faz “El bonaerense” ser infinitamente melhor que “Bala mordida” não reside de maneira alguma no fato de que o filme de Trapero seja mais “autoral” ou “artístico”. Isso não tem nada haver. O filme de Trapero é melhor porque ele domina melhor a linguagem, não cai em maneirismos. E o que mais vemos em “Bala mordida” são maneirismos, é a utilização de recursos que não servem para nada. Na seqüência em que todos os policiais juntos recebem a notícia da morte de um deles, vemos uma câmera giratória insuportável, que não para de rodar. Se o objetivo era enfatizar a dramaticidade da cena e o peso daquela informação para a trama, uma rodadinha já estaria de bom tamanho. Mas a câmera roda, roda, e o efeito de impacto dramático já foi há muito tempo para a cucuia. Além do maneirismo técnico também encontramos em “Bala mordida” uma profusão de “maneirismos conteudistas”. O classificamos assim porque eles se situam na esfera do argumento, da historia narrada pelo filme. E pela forma em que são construídos e distribuídos (quase todos reunidos na segunda metade do filme) nos oferece uma inevitável sensação de forçassao de barra. Porque, geralmente, quando se filma uma imagem que foi exclusivamente criada para chocar, ela não choca. Assim, temos o policial superior que obriga o policial raso a lhe fazer sexo oral. Depois, ele ordena que o seu subalterno fique de quatro e o estupra. Logo depois, o policial violentado vai a um bordel e faz o mesmo com uma prostituta. Ou seja, um amontoado de imagens elaboradas com o único fim de chocar, de ser crua e “realista”. Para não dizer que o filme não apresenta algum mérito, temos que mencionar a excelente atuação de Damián Alcázar no papel do policial chefe. Realmente, muito bom.
27 de março de 2009
Show de bola
Por Estevão Garcia
“Maradona by Kusturica” (Dir: Emir Kusturica, Inglaterra, França, 2008)
Devo confessar que quando fui ver “Maradona by Kusturica” eu estava animado pelo fato de que ia assistir a mais um filme do Kusturica (sou fã do cara) mas não estava lá com muitas expectativas. É fato que, mesmo quando ele demonstra estar meio fora de forma (vide o “A vida é um milagre”), ele não deixa de ser um tremendo cineasta e que certamente ao menos alguma coisa esse documentário me revelaria. O que eu não sabia era que eu ia gostar tanto. O filme é tão bom, mas tão bom que é capaz de cativar aos que não são tão fanáticos por futebol e até mesmo aos que não vão muito com a cara do jogador argentino. Kusturica vai diretamente ao ponto, percebe com precisão cirúrgica o que há de cinematográfico, de dramático e de verdadeiramente humano na trajetória de Maradona - e sem as adulações que um olhar excesivamente admirativo poderia provocar, esculpe uma bela obra. O cineasta não esconde a sua admiração pela arte e pela pessoa de Maradona, mas não faz dela uma limitação. Pelo contrário, a utiliza a seu favor. E isso se revela na sua opção de se fazer presente no filme, de aparecer na tela ao lado de seu ídolo, de rir e de se interagir com ele. Kusturica mergulha fundo na vida de Maradona, compartilha as suas experiências, vive completamente o objeto de seu filme. Nao há distanciamento, não frieza, não há “respeito”. O que vemos é um contato frente a frente, um cair de cabeca sem medo. É claro que o filme não é perfeito, algumas coisas soam repetitivas como, por exemplo, o desenho animado do gol que Maradona fez na Inglaterra na copa de 86. O recurso a animação é utilizado umas cinco vezes sendo que o seu objetivo e o seu efeito já tinham sido cumpridos. O mesmo podemos dizer das sequências cômicas da igreja maradoniana. Mas, com todos os seus problemas “Maradona by Kusturica” é um grande filme e é preciso voltar a vê-lo pelo menos mais uma vez.
27 de março de 2009
Perdidos na noite de Niterói
O Cineclube Sala Escura, que funciona no Cine Arte UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói) e que está prester a completar cinco anos de existência, exibe hoje, às 21h, o clássico “Perdidos na noite” (”Midnight cowboy”, EUA, 1969), de John Schlesinger. Pra quem não sabe, o filme, que ganhou o Oscar, acompanha as desventuras dos perdedores Joe Buck (Jon Voight) e Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) por uma desumana Nova York. Assista aqui ao trailer. A entrada é franca.
25 de março de 2009
Cadê o Brasil?
Por Estevão Garcia
O que saltou os olhos na seleção da competitiva de ficção ibero-americana desse ano foi a escancarada ausência de filmes brasileiros. Não tenho de memória a lista dos filmes que competiram nas edições anteriores do festival, mas certamente esse é um fato novo. O que poderia explicar isso? Porque se na competitiva de ficção mexicana tiveram 50 filmes inscritos, o número de filmes brasileiros possivelmente foi maior do que isso. Digo possivelmente me baseando apenas no fato de que a produção cinematográfica anual do Brasil é superior a mexicana, o que não indica, absolutamente, que todos os filmes que foram feitos no Brasil no ano passado tenham se interessado em participar do Festival. Mas, o fato de que não exista nenhum filme brasileiro de ficção e que haja quatro documentários brasileiros na competitiva de documentário (em uma seleção de 14) é significativa e nos remete ao último Festival de Brasília. A seleção do Festival de Brasília do ano passado também foi diferente em relação aos anos anteriores. Ao selecionar mais documentários do que filmes de ficção a justificativa que foi encontrada por todos foi de que a produção contemporânea brasileira ficcional anda ruim das pernas. Mas, será que é isso mesmo? Será que existe mesmo uma grande diferença qualitativa ao compararmos os dois últimos anos com os últimos cinco anos? O único filme na competitiva de ficção que leva o nome do Brasil (o que não faz dele um filme brasileiro ou metade brasileiro) é a co-produção Brasil/Chile “Tony Manero” (Dir: Pablo Larrain, 2008, foto). A escolha desse filme é o que mais espanta, porque se não há nenhum filme brasileiro recente melhor que “Tony Manero” o cinema brasileiro está na maior e na mais terrível crise de toda a sua história.
25 de março de 2009
A cachaça do Cavi
Não fosse o Cavi e mais meia dúzia, o cinema carioca seria o mais bunda mole sobre a face da Terra. Sorte nossa que o cara não dá tregua: a Cavídeo já produziu 35 curtas e dois longas em cinco anos. Hoje, o Cavi lança sete novos filmes no Cachaça Cinema Clube - da meia dúzia aí de cima -, que rola às 21h, no Odeon: “A distração de Ivan” (foto, dele e do Gustavo Melo), “Canal 001″ (de Julio Pecly), “Beijo francês” (de Paulo Camacho), “Sobre saltos” (de Thales Coutinho), “O bloco está na rua” (de Emílio Domingos), “Os restos de Antonio” (de Mariska Michalick) e “As várias vidas de Joana” (do Cavi e do Abelardo de Carvalho). Depois da sessão, tem show com a banda Lettuce, som do DJ H e cachaça gratuita. No blog dele e do Gustavo Pizzi, o Cinemaclube, tem mais detalhes sobre os filmes.
24 de março de 2009
Um mês para se lembrar
Por Estevão Garcia
“Aquele querido mês de agosto” (Dir: Miguel Gomes, Portugal, 2008)
Ainda não dá para definir essa nota como uma resenha, como um comentário e muito menos como uma crítica. “Aquele querido mês de agosto” ainda está sendo processado na minha cabeça. As suas imagens ainda não foram totalmente digeridas. Em cinema, eu acho que quanto mais demorada é a digestão melhor você absorve a totalidade do alimento. E “Aquele querido mês de agosto” nos oferece nutrientes de sobra, trata-se de um autêntico banquete cinematográfico. Aquela seqüência do diretor com o técnico de som é realmente um manjar. Não é uma conclusão, não é um desfecho, não é uma síntese da proposta estética do filme e de sua relação com a imagem / “realidade” e é ao mesmo tudo isso junto. A música, a palavra, o discurso verbal, o som e os sons do mundo, tudo isso em aquele querido e inesquecível mês.
24 de março de 2009
Visita ao Museu do Inconsciente
Por Luiz Henriques
O principal motivo para meu passeio no Engenho de Dentro foi visitar o Museu do Inconsciente, que só funciona nos dias de semana, em horário comercial. Não era de se espantar que eu fosse o único visitante e tive que esperar as férias pra fazer o programa.
O acervo é pequeno. O museu funciona em um prédio dentro do hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro (como já dizia a música de Sérgio Sampaio - fui internado ontem/ na cabine 103/ no hospício de Engenho de Dentro/ só comigo tinham dez/ eu tô doente do peito/ eu tô doente do coração/ a minha cama já virou leito/ disseram que eu perdi a razão/ eu tô maluco da idéia/ guiando o carro na contramão/ saí do palco e fui pra platéia/ saí da sala e fui pro porão).
Embora a princípio o hospital pareça estar abandonado e caindo aos pedaços, ao entrar nele há inegavelmente em seu campus uma atmosfera mais relaxada e tranquila. O blogueiro achou que seria pouco educado fotografar os pacientes caminhando pelas alamedas arborizadas (incluindo um senhor andando lentamente, vestindo camisa social, bermuda e capacete de proteção para pugilistas) e por isso tão poucas fotos.
Alguns anos atrás, o blogueiro visitou uma exposição de uma pequena parte do acervo do museu no Centro Cultural da Saúde, na praça XV, apreciando sobremaneira um fotógrafo cujo nome ora escapa, bem como, em outra mostra, na Casa França-Brasil, as esculturas de Bispo do Rosário. Nenhum deles está exposto no salão principal do Museu do Inconsciente. No mesmo prédio funcionam parte dos ateliês dos internos e em certo momento o blogueiro chegou mesmo a entrar desavisadamente durante uma sessão, já que não há nenhum impedimento no corredor.
O único lugar em que deixavam fotografar no museu era no térreo, onde estavam expostas essas duas esculturas. A da esquerda, a primeira, é de um paciente antes da lobotomia. A segunda é depois da cirurgia criada por Egas Moniz e mostra as consequências de tal operação.
Não há permissão para fotografias no andar superior, mas ninguém fica vigiando o público e, como já dito antes, não havia outros visitantes. Mesmo assim o blogueiro sentiu-se constrangido a obedecer às ordens. Não é de artistas internacionalmente famosos ou instituições promovendo mostras com dinheiro desviado de impostos para louvar uma marca de cerveja que se está falando. Além disso, o clima de tristeza é assoberbador.
Uma série de pinturas foi feita por um ex-sargento de marinha que se casou com uma vizinha loura e lindíssima. Três meses depois, ao saber que ela o traía, o casamento se desfez, e com ele a sanidade do pobre marujo. Pelo resto da vida ele faria tratamento psiquiátrico, pintando sem parar retratos de sua ex-esposa, até que, aos sessenta anos, décadas após o acontecido, ao reconhecer sua amada num quadro que estava terminando, foi tomado pela emoção e teve um enfarte fatal ainda segurando o pincel, deixando esta vida caído sobre o rosto da única mulher que realmente amou.
Outra série foi pintada por Fernando Diniz. Garoto inteligentíssimo e paupérrimo, era sempre excelente aluno, mas nunca conseguiu se enturmar com os colegas de classe por sua miséria, morando com os muitos irmãos em cabeças de porco imundas. Seu grande sonho era casar com a filha de uma das patroas de sua mãe, mas, enquanto cursava o segundo grau, sempre com ótimas notas, soube que a moça havia se casado e então abandonou o mundo da sanidade relativa.
Em seus quadros, Fernando Diniz pintava insistentemente a casa que gostaria de ter, uma casa só para si, decorada como uma mansão vitoriana da belle époque, com piano, aparadores, tapetes, quadros e pesadas cortinas, com sua perspectiva alterada, lembrando Matisse e outros modernistas.
Outra paciente, reprimida pela mãe, pintava insistentemente moças-flores, refletindo sua própria condição, incapaz de se livrar da figura materna para realmente se sentir atraída sexualmente por homens. E há também a obra de Emygdio, com quadros alguns de grande agressividade e tensão mesmo retratando jarros floridos e outros com paisagens decompostas em quadrados, lembrando a fase inicial de Mondrian em sua busca da forma secreta que se esconde por trás de todas as formas (uma busca por Deus, é claro).
Emygdio, assim como Fernando Diniz, também tem pinturas imaginando como seria o ateliê que gostaria de ter, parecido com os que vemos nas pinturas dos impressionistas e modernistas, mas retrata ao lado o “ateliê real”, um sombrio aposennto com ele sentado, quase como se acorrentado, em frente ao cavalete.
Gatos são bem tratados no campus do hospital. Nise da Silveira, nossa grande psiquiatra, fundadora do museu, única mulher a se formar em medicina numa turma de 158 alunos no Nordeste no começo do século XX, adorava esses animais. O blogueiro lembra de uma reportagem em que ela contava como uma moça, após apanhar muito do pai, atirou o gato contra a janela, matando-o, para expressar sua entrada no mundo da loucura. Ou algo parecido.
Nise da Silveira tinha a mesma visão humanista de Pinel numa época em que surgiam a lobotomia e os psicotrópicos no seu campo. Comunista, feminista, rebelde, há todas essas informações sobre ela no museu, mas nada pessoal. Não sei se é o voyeurismo ou instinto de escritor que me deixa interessado em saber como seria a vida amorosa dela - seria ela tão libertária fisica quanto intelectualmente ou teria sublimado tudo isso em sua longa e produtiva vida?
Voyeurismo e instinto de escritor é tudo a mesma coisa.





















