30 de dezembro de 2008
30 de dezembro de 2008
Humor negro retinto
Não dá pra imaginar numa revista como a “Casseta Popular” nas bancas nestes dias caretas de hoje. Quem teria peito para fazer uma piada do tipo “Monte o seu próprio passageiro da Vasp” depois de um acidente aéreo? Ou fazer gracinha com pedofilia? Inspirados na revista francesa “Harakiri” e no grupo britânico Monty Python, Beto Silva, Helio de la Peña, Marcelo Madureira, Claude Mañel e Bussunda faziam humor tiziu. A “Casseta Popular”, que começou como fanzine e depois virou tablóide, durou de 1986 a 1992 e mudou para sempre o humorismo no Brasil. Mas até os seus cassetas tiverem que botar o galho dentro uma vez: a capa acima foi vetada pelo distribuidor, alegando que os jornaleiros se recusariam a vender a revista. A edição inteira foi recolhida e a capa, trocada - entrou uma sacaneando o Sarney.
A revista ganhou uma antologia da Desiderata/Ediouro aos moldes das do “Pasquim” e do “Planeta Diário”, com seleção e apresentação do camarada Arthur Dapieve - o que explica a inclusão desta piada bastante particular.
30 de dezembro de 2008
Fotodiário celular HK XXXIV
Por Henrique Koifman
É. Lá vem mais um daqueles clichês de fim de ano. Mas o que fazer se, no finalzinho de dezembro, assim como aquelas últimas centenas de grãos de areia na ampulheta, as unidades de tempo parecem escorrer incrivelmente rápido? Especialmente quando – e esse foi o meu caso – estamos à beira da pausa… Já tocado por esse clima, domingo passado, estive na casa de um querido amigo para um pré-Natal de confraria. O reflexo no espelho que abre esta edição do Fotodiário é de lá.
Na segunda à tarde, por conta de buscar um documento, caminhei por aquelas ruas que separam a Central do Brasil da Gamboa e onde resistem ruas estreitas (estavam imundas) e casas centenárias. Boa parte em péssimo estado, o que dá ao lugar, para bem e para mal, um quê da Havana que vemos nos filmes. Foi por aqueles caminhos que encontrei o edifício eclético com coroa de castelo (acho que pertence ao Exército) e dúzias de sobrados como esse, azul com portas vermelhas. No mesmo dia, à noite, parando no posto para abastecer o carro, achei essas “cebolinhas natalinas” coloridas numa vitrine.
Terça no final da manhã, passando por Botafogo, fotografei essa outra casa eclética, meio que escondida pelas árvores. Algumas dezenas de passos adiante, parei para almoçar (pescadinha com arroz e brócolis) no velho Aurora.
Livre dos compromissos profissionais, na quarta de manhã peguei a estrada com a família. E, pouco menos de hora e meia depois, já estava – literalmente – de pernas pro ar, na varanda da casa do meu irmão, em Guapi (de onde, aliás, teclo estas). A rua de pedras que parece levar às montanhas e o caminho sinuoso que mergulha na floresta são daqui, assim como a plaquinha em mosaico vestida para a ocasião. O ventilador é da pensão em que costumamos almoçar na cidade. O quadro com as rosas foi bordado pela minha avó e está em uma parede aqui do lado. Os carrinhos de mão (no canto esquerdo), que parecem também estarem gozando de merecido descanso, dormiam no pátio da garagem do meu edifício, lá no Rio, quando fui embarcar as tralhas de viagem.
Feliz 2009 a todos.
29 de dezembro de 2008
Sessão da Tarde: “A propos de Nice”
Jean Vigo na cabeça, sempre.
29 de dezembro de 2008
Livros de arte
A Editora Casa 21 está vendendo seus livros em seu site por até a metade do preço das livrarias. Lá você pode encontrar maravilhas como o livro que o italiano Lorenzo Mattotti fez sobre o Carnaval do Rio (ilustração acima), “Morango e chocolate”, de Aurélia Aurita, “Sem comentários”, a partir do blog do Allan Sieber, os álbuns da coleção Cidades Ilustradas (veja algumas ilustrações aqui), “Talvez isso…”, de Marcelo Campos, e “O primeiro dia”, de Guazzelli. No site também dá pra baixar álbuns de graça, em formato PDF. Roberto Ribeiro é um editor, não um mercador de livros.
29 de dezembro de 2008
Mal necessário e caro
Arnaldo Branco dá uma palhinha sobre cinema na coluna desta semana. Você lê aqui.
E amanhã tem o Fotodiário celular HK.
29 de dezembro de 2008
Isto era Hollywood
Por Arnaldo Branco
Finalmente li “Easy Riders, Raging Bulls”, livro sobre a Era de Ouro do Cinema. Zero pra você que chutou Nouvelle Vague e um mês de detenção pro pseudão ali que quis fazer um gênero dizendo Expressionismo Alemão. O livro fala da saga de Hollywood nos anos 70.
“Easy Riders…” narra o momento (meados dos anos 60, hippies e tal) em que os Estúdios perceberam que não entendiam mais o gosto do público e tiveram que passar o controle dos filmes para estudantes de cinema com pinta de descolê. Mais ou menos como as agências de publicidade agora, com os cool hunters e os blogueiros profissionais - só que sem nerds e com sexo, drogas e etc.
É claro que quebraram a cara depois de alguns sucessos, porque é uma temeridade deixar diretores tomar conta da produção - como exemplo doméstico temos o fiasco de O Guarani, de Norma Bengell, e Chatô, do Guilherme Fontes, que graças a Deus nem teve oportunidade de fracassar. Mas nos dez anos em que a festa durou - * “Bonnie & Clyde” (1967), + “Star Wars” (1977) -, Hollywood gerou grandes produções até a dupla Spielberg / Lucas descobrir o filão filme-para-toda-a-família e acabar com a era dos auteurs.
É claro que nem tudo foi obra-prima e algumas egotrips deram em Chatôs e Guaranis gringos, mas o ponto é que a cultura do blockbuster saiu vitoriosa não só nas bilheterias, mas na mentalidade do público: hoje existe uma tendência em segregar qualquer obra que exija algum esforço intelectual como cabecismo puro e simples.
Hoje o cinema para adultos perdeu eleitorado. Neste momento vários fóruns de discussão e redes sociais na internet estão cheios de participantes usando como avatar personagens de Watchmen, filme baseado em uma graphic novel que começa a ser exibido só em meados do ano que vem - no passado, para um filme ser objeto de culto, era de bom tom estrear antes.
Uma das coisas que deixa evidente o caráter infantil ou, dependendo da leitura, o homossexualismo latente desse filme - e de outros do mesmo naipe - é a importância que se dá às fotos de divulgação das roupas dos heróis. Dependendo do grau de fidelidade ao desenho original da história em quadrinhos, a boa recepção do público pode estar garantida, ou perdida para sempre.
Hoje em dia a entrega do Oscar de melhor figurino deveria fechar a cerimônia.
28 de dezembro de 2008
Uma canção ao cair da tarde: “I bleed”, Pixies
Difícil dizer qual é a minha música favorita da maior banda de rock de todos os tempos. Dependendo do dia, pode ser “Tame”, “Hey”, “No. 13 baby”, “Gouge away”, “Ed is dead”, “Is she weird”, “River Euphrates”, “Break my body”, “Cactus” ou “In to the white”. Mas hoje estou mais para essa aí.
28 de dezembro de 2008
Faça meu dia
A TV Brasil exibe hoje, a partir das 16h, o “Roda viva” com o delegado federal Protógenes Queiroz, responsável pela prisão do banqueiro Daniel Dantas na Operação Satiagraha. O programa foi ao ar pela TV Cultura na segunda-feira, mas não foi retransmitido pela TV Brasil, como de costume, por engano, segundo a diretora-presidente da emissora, Tereza Cruvinel.
Protógenes disse, entre outras coisas, que há jornalistas na folha de pagamento de Dantas - a quem só se referiu como “banqueiro bandido” - e o blogueiro do Globo Online Ricardo Noblat, num ato falho, chamou o juiz Gilmar Mendes de Gilmar Dantas.
26 de dezembro de 2008
Ver cinema em 68
Por Eduardo Souza Lima
O pessoal da Segunda-Feira Filmes me encomendou um artigo para o catálogo da mostra 1968: Cinema, Utopia, Revolução, que produziu na Caixa Cultural de São Paulo. Disseram que queriam um texto pessoal, que falasse de como era ir ao cinema no subúrbio do Rio de Janeiro daquela época. Eu já contei esta história para alguns amigos, mas como a mostra, lamentavelmente, não vem para cá, repuliquei-o aqui.
26 de dezembro de 2008
O pequeno comunista
Por Eduardo Souza Lima
Na primavera de 1968 eu ainda não havia completado 6 anos e estudava na Coronel Corsino do Amarante. Embora a escola ficasse ao lado do 3º Batalhão de Carros de Combate e tanques de guerra desfilassem pela Bernardo de Vasconcelos com uma certa freqüência, era como se não houvesse ditadura – “política era coisa da Zona Sul”, como diz a música do Hanoi-Hanoi, “Bonsucesso ‘68”, do Tavinho Paes e do Arnaldo Brandão. Ainda assim, acabei me envolvendo num incidente político naquele ano. Tia Rita, minha primeira professora, pediu aos alunos que pintassem bandeiras do Brasil. Sou daltônico e troquei o verde de nossas matas pelo vermelho na que colori. Só anos mais tarde entendi o porquê da expressão de apreensão no rosto dela ao me advertir, com severidade, para que nunca mais fizesse aquilo.
Coincidentemente – ou não, dada minha orientação política posterior – o vermelho também marcou minhas primeiras lembranças de cinema. Minha mãe diz que minha primeira vez foi com “A noviça rebelde”, mas eu não me lembro. Lembro-me de estar na garupa da bicicleta de meu pai, coberta com capa de curvin brilhante com franjas e escudo do Flamengo, indo ao Cine Moça Bonita, em Padre Miguel. Fomos assistir a “Topo Gigio e a guerra dos mísseis”, uma produção ítalo-japonesa de 1967. A TV ainda não era a rainha do lar e nos mostrava um mundo em preto-e-branco. Não me recordo de nada da história, sei apenas que o ratinho tinha uma bola de gás amiga que no fim era estourada por uma bala perdida num tiroteio – cinema infantil é um bocado cruel com a criançada. Mas do vermelho daquele balão – o vermelho de um daltônico, claro - eu nunca esqueci.
Havia uns três cinemas ao alcance dos pés no Realengo de minha infância e ainda não existiam shopping centers. O cinema fazia parte da vida como a escola, o dentista, a igreja, era uma extensão do quintal de casa – a gente só não ia mais porque, diferentemente do que se diz hoje, o ingresso para pobre sempre foi caro. Eu saía da escola e ia para a frente do Cine Theatro Realengo, na General Sezefredo, para ver os cartazes coloridos. Não tinha os dos filmes do Godard, mas a forma como vi os filmes inocentes de minha infância me fizeram o que sou hoje.
23 de dezembro de 2008
Fotodiário celular HK XXXIII
Por Henrique Koifman
No domingo da semana passada, levamos os meninos ao Jardim Zoológico, na Quinta da Boavista. Não passeava por lá havia uns tantos anos – gosto de bichos, mas, mesmo entendendo a função educativa desse tipo de parque, gaiolas me deprimem. Mas, tirando o fato de ser justamente o espaço ocupado pelos animais racionais e livres o mais emporcalhado (haja lixo…), a manhã foi bem divertida. São do Zôo a girafinha no contra-luz, a onça de fibra-de-vidro e os peixinhos no aquário que abrem esta edição do Fotodiário.
Na segunda pela manhã, a caminho do batente, passei por essa fila organizada sob a chuva, em plena Cinelândia. O ponto de chegada eram os guichês com ingressos com preços reduzidos para espetáculos teatrais. Esse programa, que é oferecido sempre em dezembro, prova todos os anos que, se há crise no teatro, não é por falta de interesse do público. Alguns metros mais adiante, na manhã de quarta, encontrei esse varal improvisado por moradores de rua nas grades de um respiradouro do metrô. No mesmo dia, à tarde, numa pausa para o refrigério mental, tive a companhia do distinto senhor de boné na Laranjada Americana da Travessa do Ouvidor. Caminhando de volta ao escritório, passei pela fantástica exposição sobre os 40 anos do AI-5, na Caixa, que tem esse fusquinha aí dependurado em uma das paredes.
Já na quinta, passando com meu sócio por Santa Teresa, fui apresentado ao armazém do Serginho, estabelecimento à moda antiga com jeito de birosca do interior em que se pode tomar um café com pão com manteiga (na foto), comprar pimentas colhidas no quintal ou simplesmente sentar em uma das mesinhas na calçada e ficar espiando o tempo subir e descer as ladeiras de paralelepípedos. A tampa com a marca da antiga CTB (Companhia Telefônica Brasileira), lá na parte de baixo da página, aliás, fica ali do lado.
O balanço refletido na poça d’água esperava por uma criança na tardinha de sexta, na Afonso Pena. A vitrine de Natal é da Livraria da Travessa, na Travessa do Ouvidor, e reflete os votos de boas festas a todos deste que aqui tecla.
22 de dezembro de 2008
Uma canção ao cair da tarde: “Israel”, Siouxsie and the Banshees
22 de dezembro de 2008
Falemos de aborto
Por Anna Azevedo
Pela primeira vez no Brasil, o Governo se mostra disposto a estimular o debate sobre a descriminalização do aborto. O ministro da Saúde, José Rubens Temporão, é abertamente favorável a novas regras que assegurem à mulher o direito de fazer o aborto em hospitais públicos, com segurança. Por ano, 200 brasileiras morrem vítimas de complicações pós-abortos inseguros. Norma recente do Ministério da Saúde obriga todos os hospitais públicos a atenderem mulheres vítimas de complicações de abortos inseguros, tratá-las com dignidade, sem nenhum julgamento moral. Os grupos contra aborto costumam ser radicais e agressivos. No meio desta discussão, chega ano que vem ao mercado o novo documentário da cineasta Thereza Jessouroun (ao lado de Dib Lutfi na foto acima), “O fim do silêncio”. Mulheres mostram seus rostos e falam abertamente sobre como e porque fizeram aborto. O trailer já está no Youtube e as manifestações contra e a favor já pipocam na internet.
O que te levou a fazer um filme sobre este assunto?
Quando o atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão, assumiu o cargo, na sua primeira entrevista, declarou que o aborto é uma das principais questões de saúde pública do país. Sua declaração provocou reação imediata e polêmica na sociedade. Pela primeira vez, um ministro da Saúde tinha a coragem de tratar o tema abertamente. Comecei a ler sobre o assunto e achei que este era um tema que valia um documentário. Alguns meses depois, a Fiocruz Vídeo abriu um edital público para a produção de um documentário de 52 minutos cujo tema era saúde pública. Entrei com o projeto e ganhei.
Como o documentário está estruturado formal e conceitualmente?
A estrutura do documentário é bem simples: mulheres, de várias idades e profissões, e de três estados do país (Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco) falam para a câmera, sem esconder rosto nem identidade, como e porque fizeram o aborto. Estas regiões são as que apresentam maior índice de abortos inseguros do país (Sudeste e Nordeste). Uma câmera-car introduz cada mulher, revelando o bairro onde vivem. Alguns inter-títulos pontuam o documentário com as principais informações: números de óbitos que ocorrem, a cada ano, por abortamento inseguro, método mais comum etc.
Por que o filme optou por ouvir apenas as mulheres que praticaram e são favoráveis ao aborto?
Porque acho que o documentário, ao contrário do jornalismo, sempre imparcial, deve apresentar uma posição. Sou a favor da descriminalização do aborto e mostrei no filme porque. Ao expor as razões de mulheres comuns, como todas nós, por terem feito o aborto, ajudamos a por fim ao tabu que este tema ainda é no Brasil. O documentário é claramente a favor da descriminalização do aborto. (continua aqui)
























