30 de setembro de 2008

O sonho acabou

Por Gustavo Acioli

Aviso aos navegantes: os alquimistas não estão chegando… não estão chegando os alquimistas…

Pessoas que não sabem fazer filmes, nem entendem nada de cinema, estão querendo descobrir, no Brasil, a fórmula infalível para transformar filme em ouro.

Estão obcecadas por ganhar dinheiro com filmes nacionais e, para tanto, procuram desesperadamente por cineastas que só façam filmes batata.

Sonham acordadas com uma linha de montagem de sucessos de bilheteria. Em nome deste sonho, desmerecem o cinema enquanto forma de arte, como se existissem muitos cineastas brasileiros tentando fazer arte e fosse este o motivo de todos os nossos problemas.

Ironia do destino: no momento em que o sistema financeiro global está entrando em colapso, o discurso único neo-liberal toma conta do cinema brasileiro. E só se fala em bilheteria, em número de espectadores nas salas de cinema. Televisão? Internet? Convergência de mídias? Não, por favor, estamos falando de cinema – pensam eles.

Não gostaria de ser eu a fazer o papel de desmancha prazeres. Logo eu, um artista, desfazendo o sonho alheio. Mas tenho que dizer: - Senhoras e senhores comerciantes, mascates e atravessadores em geral, vocês estão querendo vender uma coisa que as pessoas não querem mais comprar.

Todos os meus amigos, absolutamente todos, baixam filmes na internet. Ninguém mais vai ao cinema. Ninguém sequer aluga DVD. As pessoas vêem filmes de graça na TV aberta e não sentem que estejam exatamente pagando por eles quando os assistem na TV por assinatura. Sair de casa para pagar 16 reais para ver um filme? Esquece.

Como disse o padeiro para John Lennon: “O sonho acabou”.

30 de setembro de 2008

Filho do seu Natal

Texto: Eduardo Souza Lima
Foto: Divulgação/Paula Huven

Selton Mello é um cara esperto: podia ter se enfurnado no Projac, mas preferiu fazer o que gosta, valendo-se de sua bem construída carreira no cinema.  Também não se acomodou de um lado só da ficha técnica e agora se arrisca como diretor. Como trabalhou com Carlos Reichenbach, Julio Bressane, Luiz Fernando Carvalho, Lírio Ferreira, Guel Arraes, Heitor Dhalia, Sergio Rezende, Walter Lima Jr., professor é o que não faltou. A mão pesou um pouco em primeiro curta, “Quando o tempo cair”, mas o cara merece crédito. “Feliz Natal”, seu primeiro longa-metragem, que passa  amanhã, às 20:15h, no Palácio 1 (com reprise no dia seguinte, às 13:15h, no Odeon, e na sexta-feira, às 15:40h e 22:10h, no Estação Gávea 3), além de dirigido, é co-escrito, co-produzido e co-montado por ele - e tem Darlene Glória (foto) no elenco. Além de ser esperto, o sujeito tem topete.

Por que fazer filmes?
Pra tentar continuar vivo como artista. Chegou a hora de dizer algo e não dava pra ser como ator. Necessidade de se expressar. Essa é a palavra: necessidade.

Você escreveu, dirigiu e montou o filme. Como diretor só cinema de autor lhe interessa?
Não, por exemplo, estou trabalhando em uma adaptação de um conto do Machado de Assis que sou um entusiasta há muito tempo: “O alienista”. Não sei se será meu segundo filme, mas acho que que tem potencial para um público mais numeroso. Uma história fascinante e muito divertida.

Por que contar essa história?
Meu pai faz aniversário no dia 25 de dezembro. Ele se chama Dalton Natal de Mello. Eu faço 30 de dezembro. Fim de ano é uma melancolia sem fim. Achei que um filme com o Natal como pano de fundo seria interessante. Todo mundo com a sensiblidade alterada, encontros quase obrigatórios, e então desenvolvi uma ficção em que as festas de fim de ano fizessem parte de uma forma agressiva. Os personagens tiveram que passar por essa prova,e ninguém saiu imune. Natal + Familia Desfuncional = veja o filme…

Foi estranho para você dirigir atores?
Foi saboroso demais! A alma de um filme está guardada nos corações e mentes dos atores. Eles dão o tom de tudo e impregnam toda a equipe com suas verdades, fraquezas e sonhos, e daí nasce um filme.

Como você chega ao quadro?
Alguns são pensados antes, outros, na hora. Gosto de pensar o roteiro como um guia. “Guión”, em espanhol. Deixar os poros abertos para o que está por vir. O Lula (Carvalho, diretor de fotografia de mais um monte de filmes neste festival) foi um parceiro fundamental na descoberta do “Feliz Natal”. Tudo no filme está em ruínas, inclusive a fotografia.

Você teve alguma facilidade na produção por ser quem é?
Fica mais fácil ser recebido em uma empresa, por exemplo. Mas nada disso realmente adianta se o que você tem para apresentar não for consistente.

Que filme lhe impressionou neste festival?
O filme do Matheus, “A Festa da Menina Morta”. Fiquei feliz de ver um primeiro filme tão maduro e corajoso. Deu mais ânimo pra seguir adiante nas nossas novas descobertas.

30 de setembro de 2008

A psicomanicure

Natasha Lima se apresenta: “Sou jornalista, atuo como gerente de comunicação interna de uma empresa de seguros, no Rio de Janeiro, escrevo poemas, contos e crônicas. Fiz especialização em Comunicação e Imagem e MBA em Marketing pela FGV-Rio. Adoro cinema, mas o que mais gosto de fazer é observar as pessoas e escrever sobre elas, sobre o comportamento humano, sobre a necessidade de ter amigos e de como hoje em dia é importante ser uma boa pessoa para lidar com as dificuldades do mundo. É isso.
Tenho 30 anos, sou casada, tenho um filho de 1 aninho que se chama Matheus e vou morar a partir de dezembro em São Paulo. Se você me pergunta: está preparada para a mudança? Quero curtir o que São Paulo tem de bom: a vida cultural, a agitação urbana. Mas dá um frio na barriga…”

Marina ficou com medo de sofrer de psicose. Leu um artigo que dizia que a onicofagia ou roeção de unhas pode ser um sinal de problemas mentais ou emocionais. Ficou preocupada. Ela já convivia com as unhas comidas há anos. Na verdade, nunca foi uma pessoa vaidosa. Depois de ler o texto, ela culpou a mãe: “o problema todo foi que a minha mãe não colocou pimenta nos meus dedos quando eu era criança.”

Segundo o artigo, há muitos germes na superfície da unha e algumas pessoas precisam até tomar remédios antidepressivos para controlar o vício. “Que exagero!”, pensou. Também pensou que esses salões devem esterilizar os alicates, etc. com cuidado e ela não confiava em ninguém.

Um belo dia, antes de ir a uma festa, ela seguiu o “conselho” de sua mãe. “Pelo amor de Deus, vá fazer as unhas”. Foi a um salão perto de casa e pediu: “Manicure, por favor”. Aí, chegou a Sônia, com um sorriso largo, estampado no rosto. Olhou as mãos de Marina e exclamou: “Caramba! Com essa idade e você ainda come as unhas?” Marina achou super antipático e inconveniente ter de ouvir isso no meio de um salão de beleza abarrotado de mulheres por todos os lados. Gente acostumada a tirar cutícula toda semana. Resolveu encarar o desafio. Ter as unhas mais bonitas do planeta. Ficou obcecada pela fútil - ela sentia assim - tarefa de fazer as unhas toda semana. Achou na internet um blog sobre meninas que são experts em esmaltes novos que vinham da China, tinha uma coleção de alicates e lixava a unha toda vez que estava no metrô, a caminho de casa. A mãe ficou orgulhosa, no começo. Depois, em conversa franca, comentou: “Que mania essa a sua de fazer as unhas toda hora, você vai enlouquecer.”

De tanto ir ao salão, Marina e Sônia se tornaram “unha e carne”. Não há melhor expressão que essa para dizer como elas se tornaram confidentes, conselheiras, praticamente irmãs. Nunca mais Marina achou razão para roer as unhas. Ia fazer unhas para trocar idéias, ouvir conselhos, mesmo quando as unhas estavam lindas. Conversa vai, conversa vem, Marina deu uma dica à amiga: Por que você não faz Psicologia? Acho que você está na profissão errada. Tem talento para psicóloga. De tanto incentivar, Sônia está se formando em dezembro em Psicologia. Está fazendo uma espécie de residência em uma clínica, em Botafogo, que atende pessoas que precisam de apoio psicológico. Umas são viciadas. Há um caso de onicofagia. Outro caso é de alguém viciada em fazer as unhas com uma freqüência absurda também. Adivinhe.

30 de setembro de 2008

Fotodiário Celular HK XXI

Por Henrique Koifman

No domingo da semana passada, voltei à exposição sobre Clarisse Lispector, no CCBB. É de uma das salas da mostra a imagem que abre esta edição do Fotodiário, à esquerda. A foto abaixo foi tirada pouco antes, num café da manhã com amigos em Santa Teresa (difícil dizer o que é café e o que é sombra, entre jarra e xícara). Já na segunda, passei por essa espécie de túnel criado por uma obra numa daquelas pequenas vielas entre a Senador Dantas e a Cinelândia. A região está cheia de tapumes e reformas, incômodo passageiro, mas alentador num pedacinho do Rio bem bacana e que andava largado. Alento reforçado pelo capricho do gari pintor, poucos metros adiante, num banco da Cinelândia.

Mais à direita, a foto de um convidativo pastelão (não, não provei) na vitrine de uma lanchonete ali pertinho, na Evaristo da Veiga. Abaixo, já no fim da tarde de quarta-feira, o saguão do Estação Botafogo, amarelado pelas lâmpadas.

No dia seguinte, encontrei um grupo de “passantes parados” na Uruguaiana. O círculo de gente era tão compacto, que não consegui saber que tipo de apresentação acontecia em seu interior. Sob a barreira humana, capachos coloridos à venda na Rua do Passeio, realçados pelo sol incerto desta semana de clima imprevisível. Coisas de começo de estação, e que rendem espetáculos como o pôr-do-sol emoldurado por nuvens que assisti e fotografei, também na quinta, da janela do escritório.

O mosaico ao lado – que me lembrou os bizantinos – é da entrada do MNBA. O túnel em flagrante movimento é o Rebouças. O sorvete foi o primeiro que tomei nesta primavera, empolgado com um sol quente que durou no céu pouco mais que a casquinha em minha mão.

30 de setembro de 2008

Cachaça de encruzilhada

Texto: Ana Silvia Mineiro
Ilustração: Sergio França

Uns dizem que sofrem porque atiraram pedra na cruz. Tenho certeza de que minhas tormentas começaram numa esquina de Ipanema, quando subtraí a garrafa de cachaça de um despacho a caminho de uma festa, pencas de anos atrás.

Seguia com meu namorado e dois amigos e não me lembro de quem foi a idéia de desfalcar o ebó da caninha que jazia tentadoramente ali. A ação com certeza foi minha. Incentivada pela embriaguez e pela aventura, queria beber daquela garrafa mágica, que me ofuscava a consciência com seu néon. Mais tarde, percebi na carne as conseqüências de dar golpes em santos e entidades.
Sim, sou supersticiosa.

Chegamos trôpegos, eu com a garrafa na mão, à casa na Barão da Torre que seria demolida para a construção de um edifício. A festa, uma das muitas de despedida do local, estava estranha, se desenrolava em câmera lenta. Nós quatro entramos em ritmo de “uhúúú, vamos detonar”, mas os convidados pareciam alheios à nossa presença esfuziante. Olhei para a beberagem enfeitiçada que segurava com um egoísmo desconhecido para mim: “Maneiro, essa cachaça dá o poder da invisibilidade. Ou será que não estamos aqui? Ou será que não estamos em lugar nenhum?”. Pronto. Começava a rolar a paranóia e a vingança do além.

Convoquei uma assembléia rápida com os outros três. Vambora daqui, sentenciei. Mas pra onde?, vacilaram os moços. Linha Branca – pra quem não sabe, era como chamávamos a Pinheiro Machado quando o rumo eram as ladeiras de Santa Teresa via Catumbi.
No Golzinho preto do meu namorado, com a garrafa na mão sempre e a cabeça pra fora da janela em busca de ar fresco – a essa altura o estrago do álcool já era sentido em ondas de enjôo –, vi o Rio como o paraíso para desvalidos amantes do goró. Em praias, encruzilhadas ou nas mãos de criaturas que não deram conta de buscar refúgio para curar a manguaça, e abandonaram os corpos na rua, sempre há uma garrafa cheia, ou quase cheia, ou suficientemente cheia para alguém pegar. Divagava, quando a sirene da polícia incomodou meus pensamentos. Em vez, de parar, meu namorado acelerou, efeito da cachaça do ebó. Os homens vieram a toda, mostrando as armas. Nada a temer, éramos invisíveis.

A sirene ficou para trás, a garrafa continuava na mão. Em velocidade na Almirante Alexandrino, rodamos 180° nos trilhos derrapantes dos bondes. A cana voou pela janela, se espatifando no chão. Era o santo cobrando o seu quinhão, enfim.
Nunca houve perdão para o pecado distraído de roubar o despacho. As divindades deram o veredicto naquela mesma noite ao meu “crime’: serás alvo da sanha de bêbados e loucos até o fim dos seus dias. Assim foi e assim é.

30 de setembro de 2008

Da China non, do Zapon

Por Allan Sieber

30 de setembro de 2008

Os filmes que não verei

Por Eduardo Souza Lima

Ninguém perguntou, mas…

“Sinédoque, Nova Iorque”: Fala sério, o tal do Charlie Kaufman disse numa boa que nunca viu o “Oito e meio” do Fellini, ele vai dirigir um filme pra quê? Tenho mais o que fazer.

“Titãs - A vida até parece uma festa”: Fosse há 20 anos, eu estaria na primeira fila. Tudo bem, o Paulo Miklos é gente fina, mas a banda agora toca música de auto-ajuda. Não, obrigado.

30 de setembro de 2008

Tempo de crise

Em “Tempo de crise”, Machado de Assis (1839-1908) escreveu que “a rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro”. Na época, aqui ficava a corte e lá seria “o lugar mais seguro para saber notícias. A casa do Moutinho ou do Bernardo, a casa do Desmarais ou do Garnier, são verdadeiras estações telegráficas”. O conto foi originalmente publicado no “Jornal das Famílias”, em 1873, e depois na antologia “Contos avulsos”.
 
Queres tu saber meu rico irmão, a notícia que achei no Rio de Janeiro, apenas pus pé em terra? Uma crise ministerial. Não imaginas o que é uma crise ministerial na cidade fluminense. Lá na província chegam as notícias amortecidas pela distância, e além disso incompletas; quando sabemos de um ministério defunto, sabemos logo de um ministério recém-nado. Aqui a coisa é diversa; assiste-se à morte do agonizante, depois ao enterro, depois ao nascimento do outro, o qual muitas vezes, graças às dificuldades políticas, só vem à luz depois de uma operação cesariana.
Quando desembarquei estava o C… à minha espera na praia dos Mineiros, e as suas primeiras palavras foram estas:
— Caiu o ministério!
Tu sabes que eu tinha razões para não gostar do gabinete, depois da questão de meu cunhado, de cuja demissão ainda ignoro a causa. Todavia, senti que o gabinete morresse tão cedo, antes de dar todos os seus frutos, principalmente quando o negócio do meu cunhado era justamente o que me trazia cá. Perguntei ao C… quem eram os novos ministros.
— Não sei, respondeu; nem te posso afirmar se os outros caíram; mas desde manhã não corre outra coisa. Vamos saber notícias. Queres comer?
— Sem dúvida, respondi; vou residir no Hotel da Europa, se houver lugar.
— Há de haver.
Seguimos para o Hotel da Europa que é na rua do Ouvidor; lá me deram um aposento e um almoço. Acendemos charutos e saímos.
À porta perguntei-lhe eu:
— Onde saberemos notícias?
— Aqui mesmo na rua do Ouvidor.
— Pois então na rua do Ouvidor é que?…
— Sim; a rua do Ouvidor é o lugar mais seguro para saber notícias. A casa do Moutinho ou do Bernardo, a casa do Desmarais ou do Garnier, são verdadeiras estações telegráficas. Ganha-se mais em estar aí comodamente sentado do que em andar pela casa dos homens da situação.
Ouvi silenciosamente as explicações do C… e segui com ele até um pasmatório político, onde apenas encontramos um sujeito, fumando, e conversando com o caixeiro.
— A que horas esteve ela aqui? pergunta o sujeito.
— Às dez.
Ouvimos estas palavras entrando. O sujeito calou-se imediatamente e sentou-se numa cadeira por trás de um mostrador, batendo com a bengala na ponta do botim.
— Trata-se de algum namoro, não? perguntei eu baixinho ao C…
— Curioso! Respondeu-me ele; naturalmente é algum namoro, tens razão? alguma rosa de Citera.
— Qual! disse eu.
— Por que?
— Os jardins de Citera são francos; e ninguém espreita as rosas por fora…
— Provinciano! disse o C… com um daqueles sorrisos que só ele tem; tu não sabes que, estando as rosas em moda, há certa hora para o jardineiro… Anda sentar-te.
— Não; fiquemos um pouco à porta; quero conhecer esta rua de que tanto se fala.
— Com razão, respondeu o C… Dizem de Shakespeare que, se a humanidade perecesse, ele só poderia recompô-la, pois que não deixou intacta uma fibra sequer do coração humano. Aplico el cuento. A rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro. A certas horas do dia, pode a fúria celeste destruir a.cidade; se conservar a rua do Ouvidor, conserva Noé, a família e o mais. Uma cidade é um corpo de pedra com um rosto. O rosto da cidade fluminense é esta rua, rosto eloqüente que exprime todos os sentimentos e todas as idéias…
— Contínua, meu Virgilio.
— Pois vai ouvindo, meu Dante. Queres ver a elegância fluminense? Aqui acharás a flor da sociedade, — as senhoras que vêm escolher jóias ao Valais ou sedas à Notre Dame, — os rapazes que vêm conversar de teatros, de salões, de modas e de mulheres. Queres saber da política? Aqui saberás das notícias mais frescas, das evoluções próximas, dos acontecimentos prováveis; aqui verás o deputado atual com o deputado que foi, o ministro defunto e às vezes o ministro vivo. Vês aquele sujeito? É um homem de letras. Deste lado, vem um dos primeiros negociantes da praça. Queres saber do estado do câmbio? Vai ali ao Jornal do Comércio, que é o Times de cá. Muita vez encontrarás um cupê à porta de uma loja de modas: é uma Ninon fluminense. Vês um sujeito ao pé dela, dentro da loja, dizendo um galanteio? Pode ser um diplomata. Dirás que eu só menciono a sociedade mais ou menos elegante? Não; o operário pára aqui também para ter o prazer de contemplar durante minutos uma destas vidraças rutilantes de riqueza, — porquanto, meu caro amigo, a riqueza tem isto de bom consigo, — é que a simples vista consola.
Saiu-me o C… tamanho filósofo que me espantou. Ao mesmo tempo agradeci ao céu tão precioso encontro. Para um provinciano, que não conhece bem a capital, é uma felicidade encontrar um cicerone inteligente.
O sujeito que estava dentro chegou à porta, demorou-se alguns instantes, e saiu acompanhado por outro, que então passava.
— Cansou de esperar, disse eu.
— Sentemo-nos.
Sentamo-nos.
— Fala-se então de tudo aqui?
— De tudo.
— Bem e mal?
— Como na vida. É a sociedade humana em ponto pequeno. Mas por enquanto o que nos importa é a crise; deixemos de moralizar…
Interessava-me tanto a conversa, que pedi ao C… a continuação das suas lições, tão necessárias a quem não conhecia a cidade.
— Não te iludas, disse ele, a melhor lição deste mundo não vale um mês de experiência e de observação. Abre um moralista; encontrarás excelentes análises do coração humano; mas se não fizeres a experiência por ti mesmo pouco te valerá o teres lido. La Rochefoucauld aos vinte anos faz dormir; aos quarenta é um livro predileto…
Estas últimas palavras revelaram no C… um desses indivíduos doentes que andam a ver tudo cor da morte e do sangue. Eu que vinha para divertir-me, não queria estar a braços com um segundo volume de nosso padre Tomé, espécie de Timon cristão, a quem darás a ler esta carta, acompanhada de muitas lembranças minhas.
— Sabes que mais? disse eu ao meu cicerone, vim para divertir-me, e por isso acho-te razão; tratemos da crise. Mas por enquanto nada sabemos, e…
— Aqui vem o nosso Abreu, que há de saber alguma coisa.
O Dr. Abreu que entrou nesse momento, era um homem alto e magro, longo bigode, colarinho em pé, paletó e calças azuis. Fomos apresentados um ao outro. O C… perguntou-lhe o que sabia da crise.
— Nada, respondeu misteriosamente o Dr. Abreu; apenas ouvi ontem de noite que os homens não se entendiam…
— Mas eu já hoje ouvi dizer na praça que havia crise formal, disse o C…
— É possível, disse o outro. Saí agora mesmo de casa, e vim logo para aqui… Houve câmara?
— Não.
— Bem; isso é um indício. Estou capaz de ir à câmara…
— Para que? Aqui mesmo saberemos.
O Dr. Abreu tirou um charuto de uma charuteira de marroquim encarnado, e fitando muito os olhos no chão, como quem está seguindo um pensamento, acendeu quase maquinalmente o charuto.
Soube depois que era um meio inventado por ele para não oferecer charutos aos circunstantes.
— Mas que lhe parece? Perguntou-lhe o C… passado algum tempo.
— Parece-me que os homens caem. Nem podia deixar de ser assim. Há mais de um mês que andam brigados.
— Mas por que? perguntei eu.
— Por várias coisas; e a principal é justamente a presidência da sua província…
— Ah!
— O ministro do Império quer o Valadares, e o da Fazenda insiste pelo Robim. Ontem houve conselho de ministros, e o do Império apresentou definitivamente a nomeação do Valadares… Que faz o colega?
— Ora, vivam! Então já sabem da crise?
Esta pergunta era feita por um sujeito que entrou pela loja mais rápido que um foguete. Trazia na cara uns ares de gazeta noticiosa.
— Crise formal? perguntamos todos.
— Completa. Os homens brigaram ontem de noite; e foram hoje de manhã a São Cristóvão…
— É o que eu dizia, observou o Dr. Abreu.
— Qual o verdadeiro motivo da crise? perguntou o C…
— O verdadeiro motivo foi uma questão de guerra.
— Não creia nisso!
O Dr. Abreu disse estas palavras com um ar de tão altiva convicção, que o recém-chegado replicou um pouco enfiado:
— Sabe então o verdadeiro motivo mais do que eu que estive com o cunhado do ministro da guerra?
A réplica pareceu decisiva; o Dr. Abreu limitou-se a fazer aquele gesto com que a gente costuma dizer: Pode ser…
— Seja qual for o motivo, disse o C…, a verdade é que temos crise ministerial; mas será aceita a demissão?
— Eu creio que é, disse o Sr. Ferreira (era o nome do recém-chegado).
— Quem sabe?
Ferreira tomou a palavra:
— A crise era prevista; eu há mais de quinze dias anunciei ali em casa do Bernardo, que a crise não podia deixar de estar iminente. A situação não podia prolongar-se; se os ministros não concordassem, a câmara os obrigaria a sair. Já a deputação da Bahia tinha mostrado os dentes, e até sei (posso dize-lo agora) sei que um deputado do Ceará estava para apresentar uma moção de desconfiança.
Ferreira disse estas palavras em voz baixa, com o ar misterioso que convém a certas revelações. Nessa ocasião ouvimos um carro. Corremos à porta; era efetivamente um ministro.
Mas então não estão todos cm São Cristóvão? observou o C…
— Este vai naturalmente para lá.
Ficamos à porta; e o grupo foi-se pouco a pouco alimentando; antes de um quarto de hora éramos oito. Todos falavam na crise; uns sabiam a coisa de fonte certa; outros por ouvir dizer. O Ferreira saiu pouco depois dizendo que ia à Câmara saber o que havia de novo. Nessa ocasião apareceu um desembargador e indagou se era exato o que se dizia relativamente à crise ministerial.
Afirmamos que sim.
— Qual seria a causa? perguntou ele.
O Abreu, que dera antes como causa a presidência lá da província, declarou agora ao desembargador que uma questão da guerra produzira o desacordo entre os ministros.
— Está certo disso? perguntou o desembargador.
— Certíssimo; soube-o hoje mesmo do cunhado do ministro da Guerra.
Nunca vi maior facilidade em mudar de opinião, nem maior descaro em colher as afirmações alheias. Interroguei depois o C… que me respondeu:
— Não te espantes; em tempo de crise é sempre bom mostrar que se anda bem informado.
Dos presentes eram quase todos oposicionistas, ou pelo menos faziam coro com o Abreu, que fazia diante do cadáver ministerial o papel de Brutus diante do cadáver de César. Alguns defendiam a vítima, mas como se defende uma vítima política, sem grande calor nem excessiva paixão.
Cada personagem novo trazia uma confirmação ao trato; já não era trato; evidentemente havia crise. Grupos de políticos e politicões estavam parados às portas das lojas, conversando animadamente. De quando em quando surgia ao longe um deputado. Era logo cercado e interrogado; e só se colhia a mesma coisa.
Vimos ao longe um homem de 35 anos, meão na altura, suíças, luneta pênsil, olhar profundo, acompanhando uma influência política.
— Graças a Deus! agora vamos ter notícias frescas, disse o C… Ali vem o Mendonça; há de saber alguma coisa.
A influência política não pôde passar de outro grupo; o Mendonça veio ao nosso.
— Venha cá; você que lambe os vidros por dentro há de saber o que há?
— O que há?
— Sim.
— Há crise.
— Bem; mas os homens saem ou ficam?
Mendonça sorriu, depois ficou sério, corrigiu o laço da gravata, e murmurou um: não sei; assaz parecido com um: sei demais.
Olhei atentamente para aquele homem que parecia estar senhor dos segredos do Estado, e admirei a discrição com que os ocultava de nós.
— Diga o que sabe, Sr. Mendonça, disse o desembargador.
— Eu já disse a V. Excia. o que há, interrompeu o Abreu; pelo menos tenho razão para afirma-lo. Não sei o que sabe lá o Sr. Mendonça, mas creio que não estará comigo…
Mendonça fez um gesto de quem ia falar. Foi cercado por todos. Ninguém ouviu com mais atenção o oráculo de Delfos.
— Sabem que há crise; a causa é muito secundária, mas a situação não podia prolongar-se.
— Qual é a causa?
— A nomeação de um juiz de direito.
— Só!
— Só.
— Já sei o que é, disse Abreu sorrindo. Era negócio pendente há muitas semanas.
— Foi isso. Os homens lá foram ao paço.
— Será aceita a demissão? perguntei eu.
Mendonça abaixou a voz:
— Creio que é.
Depois apertou a mão ao desembargador ao C… e ao Abreu e retirou-se com a mesma satisfação de um homem que acaba de salvar o Estado.
— Pois, senhores, eu creio que esta versão é a verdadeira. O Mendonça anda informado.
Passa defronte um sujeito.
— Anda cá, Lima, gritou Abreu.
O Lima aproximou-se.
— Estás convidado para o ministério?
— Estou; você quer alguma pasta?
Não penses que este Lima era alguma coisa; o dito de Abreu era um gracejo que se renova em todas as crises.
A única preocupação do Lima eram umas senhoras que passavam. Ouvi dizer que eram as Valadares, — a família do indigitado presidente. Pararam à porta da loja, conversaram alguma coisa com o C… e o Lima, e seguiram viagem.
— São lindas estas moças, disse um dos circunstantes.
— Eu era capaz de as nomear para o ministério.
— Sendo eu presidente do conselho.
— Também eu.
— A mais gorda devia ser ministro da Marinha.
— Por que?
— Porque parece mesmo uma fragata.
Ligeiro sorriso acolheu este diálogo entre o desembargador e o Abreu. Viu-se ao longe um carro.
— Quem será? Algum ministro?
— Vejamos.
— Não; é a A…
— Como vai bonita!
— Pudera!
— Ela já tem carro?
— Há muito tempo.
— Olhem, ali vem o Mendonça.
— Vem com outro. Quem é?
— É um deputado.
Passaram os dois juntos de nós. O Mendonça não nos cumprimentou; ia conversando baixinho com o deputado.
Houve outra trégua na conversa política. E não te admires. Nada mais natural do que entremear aqui uma discussão sobre crise política com as sedas de uma dama do tom.
Finalmente surgiu de longe o já citado Ferreira.
— Que há? perguntamos quando ele chegou.
— Foi aceita a demissão.
— Quem é o chamado?
— Não se sabe.
— Por que?
— Dizem que os homens ficam com as pastas até segunda-feira.
Dizendo estas palavras, o Ferreira entrou, e foi sentar-se. Outros o imitaram; alguns se foram embora.
— Mas donde sabe isso? disse o desembargador.
— Soube na Câmara.
— Não me parece natural.
— Por que?
— Que força moral deve ter um ministério já demitido e ocupando as pastas?
— Realmente, a coisa é singular; mas eu ouvi ao primo do ministro da Fazenda.
Ferreira tinha a particularidade de andar informado pelos parentes dos ministros; pelo menos, assim o dizia.
— Quem será chamado?
— Naturalmente o N…
— Ou o P…
— Já hoje de manhã se dizia que era o K…
Entrou o Mendonça; o caixeiro deu-lhe uma cadeira, e ele sentou-se ao lado do Lima, que nesse momento descalçava as luvas, ao mesmo tempo que o desembargador oferecia rapé aos circunstantes.
— Então, Sr. Mendonça, quem é o chamado? perguntou o desembargador.
— O B…
— Com certeza?
— É o que se diz.
— Eu ouvi que só na segunda-feira se organizará ministério novo.
— Qual! insistiu Mendonça; afirmo-lhe que o B foi ao paço.
— Viu—o?
— Não; mas disseram-mo.
— Pois acredite que até segunda-feira…
A conversa ia-me interessando; eu já tinha esquecido o interesse que ligava à mudança dos ministros, para atender simplesmente ao que se passava diante de mim. Não imaginas o que é formar um ministério na rua antes que ele esteja formado no paço.
Cada qual expôs a sua conjectura; vários nomes foram lembrados para o poder. Às vezes aparecia um nome contra o qual se apresentavam objeções; então replicava o autor da combinação:
— Está enganado; pode o F… ficar com a pasta da Justiça, o M… com a da Guerra, K… Marinha, T…. Obras Públicas, V… Fazenda, X… Império, e C… Estrangeiros.
— Não é possível; o V… é que deve ficar com a pasta de Estrangeiros.
— Mas o V… não pode entrar nessa combinação.
— Por que?
— É inimigo do F…
— Sim; mas a deputação da Bahia?
Aqui coçava o outro a orelha.
— A deputação da Bahia, respondia ele, pode ficar bem metendo o N…
— O N… não aceita.
— Por que?
— Não quer ministério de transição.
— Chama a isto ministério de transição?
— Pois que é mais?
Este diálogo em que todos tomavam parte, inclusive o C…, e que era repetido sempre que um dos circunstantes apresentava uma combinação nova, foi interrompido pela chegada de um deputado.
Desta vez íamos ter notícias frescas.
Efetivamente soubemos pelo deputado que o V… tinha sido chamado ao paço e estava organizando gabinete.
— Que dizia eu? exclamou Ferreira. Nem era de ver outra coisa. A situação é do V….; o seu último discurso foi o que os franceses chamam discurso-ministro. Quem são os outros?
— Por ora, disse o deputado, só há dois ministros na lista: o da Justiça e o do Império.
— Quem são?
— Não sei, respondeu o deputado.
Não me foi difícil ver que o homem sabia, mas era obrigado a guardar segredo. Compreendi que aquele é que lambia os vidros por dentro, expressão muito usada em tempo de crise.
Houve um pequeno silêncio. Conjecturei que cada qual estivesse a adivinhar quem seriam os nomeados; mas, se alguém os descobriu, não os nomeou.
O Abreu dirigiu-se ao deputado.
— V. Excia. acredita que o ministério fique organizado hoje?
— Creio que sim; mas daí pode ser que não…
— A situação não é boa, observou Ferreira.
— Admira-me que V. Excia. não seja convidado…
Estas palavras, naquela ocasião inconvenientes, foram pronunciadas pelo Lima, que trata a política, como trata as mulheres e os cavalos. Cada um de nós procurou disfarçar o efeito de semelhante tolice, mas o deputado respondeu direitamente à pergunta:
— Pois não me admira nada isso; deixo o lugar aos incompetentes. Estou pronto a servir como soldado… Não passo disso.
— Perdão, é muito digno!
Entrou um homem esbaforido. Fiquei surpreso. Era um deputado. Olhou para todos, e dando com os olhos no colega, disse:
— Podes dar-me uma palavra?
— Que é? perguntou o deputado levantando-se.
— Vem cá.
Foram até a porta, depois despediram-se de nós e seguiram apressadamente para cima.
— Estão ambos ministros, exclamou Ferreira.
— Acredita? perguntei eu.
— Sem dúvida.
Mendonça foi da mesma opinião; e foi a primeira vez que o vi adotar uma opinião alheia.
Eram duas horas da tarde quando saíram os dois deputados. Ansiosos por saber mais notícias, saímos todos e descemos a rua vagarosamente. Grupos de quatro e cinco se entretinham com o assunto do dia. Parávamos; combinávamos as versões; mas não retificavam as dos outros. Num desses grupos já estavam os três ministros nomeados; outro acrescentava os nomes dos dois deputados, pela única razão de os ter visto entrar num carro.
Às três horas já corriam versões de todo o gabinete, mas era tudo vago.
Determinamos não voltar para casa sem saber do resultado da crise, salvo se a notícia não viesse até às cinco horas, pois era de mau gosto (disse-me o C…) andar na rua do Ouvidor às 5 horas da tarde.
— Mas qual será o meio de saber? perguntei eu.
— Eu vou ver se colho alguma coisa, disse Ferreira.
Vários incidentes nos iam detendo a marcha: algum amigo que passava, uma mulher que saía de uma loja, uma jóia nova em uma vidraça, um grupo tão curioso como o nosso, etc.
Nada se soube nessa tarde.
Voltei para o Hotel da Europa a fim de descansar e jantar; o C… jantou comigo. Conversamos muito do tempo da academia, dos nossos amores, das nossas travessuras, até que a noite veio e resolvemos voltar à rua do Ouvidor.
— Não era melhor irmos à casa do V…, pois que é ele o organizador do gabinete? perguntei.
— Primeiramente, não temos tamanho interesse que justifique esse passo, respondeu o C…; depois, é natural que ele não nos possa falar. Organizar um gabinete não é coisa simples. Finalmente, apenas o gabinete estiver organizado cá saberemos na rua qual ele é.
A rua do Ouvidor é lindíssima à noite. Estão os rapazes às portas das lojas, vendo passar as moças, e como tudo está iluminado, não imaginas o efeito que faz.
Confesso que me esqueceu o ministério e a crise. Havia então menos quem cuidasse de política; a noite da rua do Ouvidor pertence exclusivamente à fashion, que é menos dada aos negócios do Estado que os freqüentadores de dia. Todavia, achamos alguns grupos onde se dava como certa a organização do gabinete, mas não se sabia ao certo quem eram os ministros todos.
Encontramos os mesmos amigos da manhã.
Ora, justamente quando o Mendonça se dispunha a ir colher alguma coisa certa, apareceu o desembargador com o rosto alegre.
— Que há?
— Está organizado.
— Mas quem são?
O desembargador tirou do bolso uma lista.
— São estes.
Lemos os nomes à luz do lampião de um mostrador. O Mendonça não gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o Lima, fraco.
— Mas isto é certo? perguntei eu.
— Deram-me agora esta lista; creio que é autêntica.
— O que é? o que é; perguntou por traz de mim uma voz.
Era um sujeito moreno e bigode grisalho.
— Sabe quem são? Perguntou-lhe o Abreu.
— Tenho uma lista.
— Vejamos se combina com esta.
Costearam-se as listas; havia engano num nome.
Mais adiante encontramos outro grupo lendo outra lista. Divergiam em dois nomes. Alguns sujeitos que não tinham lista copiavam uma delas deixando de copiar os nomes duvidosos, ou escrevendo-os todos com uma cruz à margem. Corriam assim as listas até que apareceu uma com ares de autêntica; outras foram aparecendo no mesmo sentido e às 9 horas da noite sabíamos positivamente, sem arredar pé da rua do Ouvidor, qual era o gabinete.
O Mendonça ficou alegre com o resultado da crise. Perguntaram-lhe porque razão.
— Tenho dois compadres no ministério! respondeu ele.
Aqui tens o quadro infiel de uma crise ministerial no Rio de Janeiro. Infiel digo, porque o papel não pode conter os diálogos, nem as versões, nem os comentários, nem as caras de um dia de crise. Ouvem-se, contemplam-se; não se descrevem.
 
LARA.

30 de setembro de 2008

O spleen de Strasbourg: cinema de Guerin é melhor que seu filme

A CIDADE DE SYLVIE
(”En la ciudad de Sylvia”/”Dans la ville de Sylvie”, José Luis Guerin, Espanha/França, 2007)

Por Fernando Gerheim

Noite. Não dá pra ver direito. A luz em movimento varre o papel de parede estampado. O inter-título diz: primeira noite.
Um jovem cabeludo sentado na cama segura um lápis. Ele reflete durante um longo tempo. A luz entra pelo lado direito. Sua roupa está amarrotada. Mas ele não tirou o colete. De repente, começa a escrever no bloco. Logo, porém, a arrumadeira bate na porta.

“A cidade de Sylvie”, do catalão José Luis Guerin, quer ver quanto tempo é possível manter a corda esticada com um peixe mínimo.
Os planos são fixos. A luz sempre vem de fora do quadro, como em Pasolini e Caravaggio. O enquadramento da cidade tem vários planos em um só, por isso eles podem ser longos. As pessoas entram em quadro e somem em esquinas. O espaço cênico é urbano e arquitetônico.

O jovem passa um bom tempo no café da faculdade de artes dramáticas rabiscando as pessoas no bloco onde anotara aquela idéia. Ele é um voyeur, pintor da vida pós-moderna. A vida é um teatro.
O café está cheia de jovens estudantes. Uma delas chama sua atenção. É bonita.
De repente, um travelling de câmera na mão. Visão subjetiva. Psicopata persegue mulher.
Mas ele a perde no labirinto da cidade. Strasbourg é cheia de ruazinhas.
Câmera fixa de novo e planos de longa duração, como na maior parte do filme.
Quando ele reencontra a jovem, o silêncio (o som não é realista) é quebrado pelo bimbalhar dos sinos. Parece o som que ela escuta na cabeça dela, sentindo-se perseguida. A câmera começa a girar a sua volta.

Hitchock dizia que podia fazer filme de qualquer argumento.
O jovem entra no mesmo vagão do metrô que ela. Estão lado a lado. Ele não consegue falar. Amor juvenil.
“Você não é Sylvie?”
Não, ela não é quem ele estava procurando. Despede-se uma estação depois.
“Espero que a encontre.”

Sylvie é Godot. O filme parece uma mistura de Beckett com o flâneur de Baudelaire. Mas a economia de elementos produz uma linguagem seca, condensada. Guerin não afrouxa a corda.
Planos de esquinas da cidade se repetem, como os dias. E a marcação pelas noites: a luz varrendo o papel-de-parede estampado do quarto de hotel do cabeludo de colete que busca a mulher inexistente. Imigrantes negros oferecem artesanato ou bugigangas. O personagem permanece alheio. Não se comunica com ninguém. Sua relação com o mundo é intermediada pelo bloquinho em que desenha. Não elogia o efêmero, como “As flores do mal”; nem escreve o diário de uma temporada no inferno. São esboços de outra natureza. O signo é a membrana instransponível entre ele e o mundo. Dorme com uma mulher. Nada empolgante. Imigrantes oferecem pulseiras. Uma jovem pede cigarro. E ele, com um tédio dândi, vaga pelas mesmas ruas de Strasbourg. Peixe grande que morde o anzol mantém a corda esticada; mas e se o peixe não for grande?

“A cidade de Sylvie” tem uma linguagem tão elaborada, sem fazer alarde, que acredita que pode manter a corda esticada com seu Estragon esperando por uma Sylvie que conheceu há seis anos numa cidade charmosa. Mas a distância da encenação como uma busca mis-en-abyme de Sylvie parece uma metáfora batida e tola demais para tanto estofo. O pensamento de linguagem cinematográfica de Guerin é melhor que o filme.

30 de setembro de 2008

Duas vidas

VIDA
(Paula Gaitán, Brasil, 2008)

Por Anna Azevedo

“Vida” é um filme sobre a atriz Maria Gladys, diz a sinopse impressa no catálogo do Festival do Rio. Discordo. “Vida” é um filme sobre o universo de Paula Gaitán, sua artesania cinematográfica, seu talento em tecê-los. Assim como em “Diário de Sintra”, Paula deixa evidente que não é refém do objeto documentado. Ela vai além deste. Neste ponto, Maria Gladys é apenas a ponta dos fios utilizados por Paula para bordar seu cinema e refletir sobre… a vida. E encher a tela de seqüências de rara beleza e que pulsam em ritmo forte e em vermelho escarlate, em cortinas e véus que velam-revelam, som e cor que pretendem dar o tom da atriz cuja presença em tela sempre me lembrou uma pomba-gira de olhos tristes, e que, no filme, discorre sobre o agridoce sabor de dedicar a vida à arte.

Assim como os véus soltos ao sabor do vento, o filme de Paula Gaitán traça seu próprio plano de vôo – e viaja, livre e solto, deixando muitas vezes o documentado em terra firme. São vôos de rara beleza, com Paula explorando os elementos dispostos no cenário, nas formas e texturas, nos espelhos, nas sombras e transparências coloridas, todos recursos óticos. Não recordo de ter identificado no filme artifícios digitais de pós-produção. É Paula em seu ateliê cinematográfico, bordando à mão com novelos coloridos.

Não enxerguei a atriz Maria Gladys em tanta leveza. Onde estaria Maria Gladys em “Vida”, então? Num determinado momento, ela abre a agenda convertida em diário pela simples falta de compromissos de trabalho e inicia uma leitura de suas anotações “para deixar o filme menos triste”. É quando Gladys mais se expõe e expõe o que talvez tenha sido o que Paula pretendia inicialmente: falar do ator brasileiro, uma vida que em nada lembra o glamour das jovens estrelas da TV Globo.

Mas isto todo mundo sabe. E, confesso, o pouco revelado sobre/por esta atriz foi o que menos me interessou. Gosto mais dos filmes pela forma do que pelos temas. Sobre a filmografia de Gladys, as informações foram agrupadas ao fim, estranhamente de forma apressada num filme que se deu tanta pausa. Como se, depois de tantas performances, a diretora tenha se lembrado: o filme é sobre uma atriz…

“Vida”, então, são dois filmes. Um, menos interessante, fala (pouco) sobre uma atriz brasileira esquecida. Outro, deslumbrante, é o cinema artesania de Paula Gaitán, uma rica experiência de texturas e tempo, de cores e manchas, de véus, pedras e água. Tramados em um ritmo que nos embala e que dá vontade ficar ali na sala de cinema nos deixando levar.

Nas performances propostas por Paula Gaitán em “Vida” vale a pena destacar a participação de Maria Tereza, filha de Maria Gladys, que corresponde em atuação – mais até que Gladys - aos jogos de cena propostos pela diretora.

A fotografia, bela, precisa e em composições criativas, é assinada por Janice D’Avila. Quando com a filmadora nas mãos, câmera e objeto focado entram em total sintonia, como se fossem um só elemento.

O filme será reprisado amanhã, às 17:40h, no Estação Gávea 3.

30 de setembro de 2008

O Mundo Mágico de Mau Mau

Por Lucky Luciano*

Qualé, beleza? Meu nome é Mauro. Não, você não me conhece não. Pois é, meu nome é Mauro Maurício, mas o pessoal me chama de Mau Mau, tá ligado? É foda. Mauro Maurício, puta nome de galã de novela mexicana, se bem que a minha vida tá mais pra novela colombiana ou jamaicana, se é que você me entende…

Tudo começou com o amigo de um amigo meu. O cara buscava as paradas, pó e bagulho, em três favelas daqui do bairro. Aqui tem três morros, Morro do Café, do Arcanjo e Morro da Bonita. Daí o cara vendia nas festas, nos esquemas daqui da área. Daí chegou o êxtase, que virou moda e a coisa toda começou a render. Ele passou pro meu amigo e meu amigo passou pra mim, e assim formamos o esquema perfeito. Hoje eu ganho grana de verdade e ainda separo o que eu consumo.

Mas no ano que vem, se Deus quiser e o Diabo assinar embaixo, o quanto antes, levanto uma grana, abandono a coca, vou viver no mato e começo a minha plantação de cannabis. Por fim, digo adeus a esse esquema nefasto de sobe ladeira, desce ladeira, celular na madrugada, paranóia, paranóia. Não dá mais, cansei. Já encarei a morte de perto umas doze vezes, os caras largando o aço, tiro pra todos os lados, granada, maior terror… e em pensar que até vinte anos atrás a gente achava que a terceira guerra mundial seria com míssil nuclear, Estados Unidos e Rússia, aperta botão, explode, game over. Que nada, a guerra é de capitalista contra capitalista, nunca começa mas também não acaba, tá no dia a dia, no conta-gotas, micro-guerrilha, são os narcos contra o poder estabelecido. E, ainda por cima, com gente lucrando nas duas frentes.

Outro dia no morro, um mané apontou o fuzil pra minha cara. O imbecil retardado me vê quase sempre, já me conhece, mas tava tão noiado que não se ligava, achou que eu era da polícia por causa da minha camisa preta. Se não fosse a minha lábia e o sangue-frio, eu tava fudido. Depois o cara se desculpou, me deu um abraço e eu todo borrado de medo nas calças, mijado e cagado de verdade, maior fedor e o maluco rolou de tanto rir da minha pagação.

Mas tirando a parte dura, violenta e negativa da qual eu não participo, só corro risco, é fácil. A polícia não atrapalha em nada, é só tomar cuidado. Tem delegado por aqui tão doidão que podia passar nos filmes do Cheech & Chong, é a maior comédia. Só sei que o resto é festa, sou o rei dos malucos com coroa e cetro, mas também… fala sério, as drogas são a melhor coisa que existe. Droga é alimento, um alimento do espírito, da mente, da alma, o brasileiro é que é ignorante, hipócrita, o povo todo é viciado, joga no bicho, na loto, mega-sena. E quando os bingos funcionavam? Ficavam lotados dia e noite, 24 horas. A minha avó então, só saía pra jogar.

Tanta gente aí se matando de beber, comendo mal, se entupindo de guloseimas e ficando diabética, doente. Se acabam com tranqüilizantes, é tarja preta, remédio pra isso e aquilo. A quantidade de drogarias que eu vejo pela cidade só não supera o número de bares e botequins. É propaganda de cerveja com Juliana Paes, bunda pra lá, bunda pra cá… é o Zeca Pagodinho se gabando do alcoolismo, de que toma todas…

Qualé, porque não liberam de uma vez ? Tem que legalizar tudo, que é pra ninguém e, principalmente eu, não correr mais o risco de morrer por aí ou ser preso. E se liberassem, eu iria vender muito mais. As drogas não fazem mal, tudo em excesso mata. Nociva é a proibição que incita o interesse, deixa a pessoa ansiosa e coloca todo mundo em perigo desde os usuários, até quem não tem nada com o lance. A criminalização das drogas é uma inutilidade, é enxugar gelo.

A lei seca deu origem à mafia, queria ver então o álcool proibido novamente. No que ia dar de gente moralista perdendo a linha. Eu não tenho nada a ver com a guerra que existe entre o crime organizado e o Estado, não sou violento e nem assassino, só vendo pra gente legal, inteligente, honesta, sou classe média e não aceito a responsabilidade que querem jogar pra cima da gente.

Da base ao topo da pirâmide, todo mundo usa drogas, desde o mendigo até o mais alto executivo de uma corporação. Aliás, como é que você acha que um motorista de ônibus, um pedreiro, um lixeiro ou um carregador pode suportar o batente massacrante sem pó, sem bebida? Depois chega em casa precisa relaxar, e vai fumar um, porra! É lógico! Já o típico executivo montado na grana dispõe de diversas opções de “doping” para se fortalecer ou espairecer da rotina no maior conforto, com total amparo do sistema, não é verdade?

Enquanto isso a molecada segue arrepiando, tudo começando cedo, não aceitam conselho de ninguém. Mas quem sou eu pra falar? Eu já fui assim, também. Se hoje quase aos trinta eu me aventuro, tem horas que eu me sinto um super herói, highlander total , imagina essa trupe de hoje. A gente olha pra todo lado nos shopping centers e só vê essa adolescentada. Eu não perco uma balada que seja, show, festa, baile funk, é coisa demais rolando, todo mundo se drogando.

E as raves, então? Mó comédia, ainda dizem que isso é herança da piração dos anos setenta, mistura de Woodstock com Embalos de Sábado a Noite, é brincadeira! Um cara chapado aperta uns botões e o resto fica fritando lá na frente da barulheira, não sei o que é pior rave ou baile funk, qualquer um faz o que esses caras fazem, mas o que interessa é que os palhaços têm grana. Quisera eu ter vivido nos anos setenta de verdade. Naquele tempo, ou você era maluco ou não era. Hoje é mole, o cara bota uma fantasia, se veste de punk, gótico, hippie, sai uma noite e se entope de tudo, dança, beija, pula, pula, pega uma, duas, três minas, volta pra casa, passa mal, vomita, dorme e no dia seguinte vai trabalhar direitinho, estudar bonitinho, tudo nos conformes. É por isso que eu digo e repito: se tudo que gera lucro é o que justamente controla as pessoas, domina, então as drogas tem que ser liberadas ou então, do contrário, proíbam o resto.

Sou maluco? Sei lá, de repente. O lance é que eu cultivo a minha sanidade na maior loucura e vivo a minha loucura na maior sanidade, não acredito em deus nenhum, mas sou ligado num papo místico, tá ligado? Incenso é bom, tira o cheiro de bagulho, perfuma o ar, deixa o ambiente mais leve e é bom pra relaxar com a mina. Gosto de astrologia, céu, inferno, quarta e quinta dimensão, Buda, os Orixás, Exus, tô ligado em tudo, tá ligado?

Mas de todas as tríades sagradas, Pai, Filho e Espírito Santo, Brahma, Vishnu e Shiva, Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll, eu elejo a última, é lógico! E baseado nessa, eu mesmo formo uma tríade com os meus dois amigos, é por esta que eu vivo, ganho dinheiro, a mulherada cerca, me divirto, viajo… faço o diabo a quatro. A gente vende um estado de vida, uma tacada de mestre, uma idéia, um caminho… tá ligado?

*Lucky Luciano é vocalista dos Monstros do Ula Ula.

30 de setembro de 2008

Brasil profundo

Por Eduardo Souza Lima

- Vamos abrir as Portas da Esperança para Lourisvênio Oliveira
Duarte!!!!

- CLAP, CLAP, CLAP!!!!

- E então, Lourisvênio, qual é o seu desejo?

- Eu queria mudar de nome, mas não tenho dinheiro pra pagar o
cartório.

- E como você gostaria de se chamar, Lourisvênio?

- Josisval.

30 de setembro de 2008

Bressane para todos

Por Eduardo Souza Lima

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Visivelmente emocionado, Julio Bressane subiu ontem ao palco do Palácio 1 para apresentar “A erva do rato”, exibido hours concours na Première Brasil. Como de praxe, tentou explicar para a platéia a chave do entendimento do que se via na tela, mas dessa vez nem precisava: muita gente deve ter saído feliz do cinema, sentido-se inteligente por, finalmente, ter entendido um filme seu - ouviram-se risos diversas vezes, como quando ele homenageia o velho parceiro de cena Guará Rodrigues, morto há dois anos. Inspirado em dois contos de Machado de Assis (”A causa secreta” e “Um esqueleto”), com apenas dois atores em cena, Alessandra Negrini e Selton Mello, direção de arte, mise-en-scène e fotografia rigorosas e um fantástico desenho de som, “A erva do rato” talvez seja o seu trabalho, digamos, mais acessível - mas, nem por isso, menos instigante e elaborado. O filme será exibido novamente hoje, às 15:30h, na sessão popular do Odeon, seguido de debate no Centro Cultural da Ação e da Cidadania.

30 de setembro de 2008

Rock já foi rock mesmo

Por Allan Sieber

30 de setembro de 2008

Marginal é rua que engarrafa em São Paulo

Por Eduardo Souza Lima

Jards Macalé já pintou por aqui e agora volta em modelo longa-metragem. O cineasta Marco Abujamra e o jornalista João Pimentel, o popular Janjão, encararam o desafio de dar conta, em 71 minutos, das quatro décadas em que o cantor e compositor vem desafinando o coro dos contentes em ”Jards Macalé - Um morcego na porta principal”. É muita história, boa parte dela escondida do grande público pela versão oficial, doida pra vir à tona - aliás, rolou uma entrevista bem bacana do Jamari França com Macalé no Globo Online, leia aqui. O filme faz sua estréia nesta quinta-feira,  às 22:30h, no Odeon. No dia seguinte tem sessão popular, às 16h, no mesmo cinema. 

Quantos Jards Macalés há no filme?
MA: Eu não parei pra contar, até porque é difícil saber onde termina um e começa outro. Acho que o filme mostra que ele é como todo mundo, cheio de “eus”. Mas tem a sensibilidade de poucos para percebê-los e afirmá-los.

JP: Para mim há apenas um. Um artista em tempo integral, que por isso sofre as conseqüências diante da caretice que está se tornando o nosso dia-a-dia. Um cara que teima em olhar no olho e dizer o que pensa em um mundo globalizado que tem como grande contradição justamente a distância e a intolerância entre as pessoas. Macao musicou uma letra de Torquato Neto que define bem ele, o próprio Torquato e outros parceiros como Waly Salomão e Capinam: “Eis que esse anjo me disse/ apertando minha mão/ com um sorriso entre dentes: “Vai bicho, desafinar o coro dos contentes”. O Macao que existe para mim é papo reto e fácil de entender.

Que direção vocês tomaram no roteiro?
MA: O roteiro é cronológico. É a história de uma pessoa, e por que não começar pelo começo? Pareceu uma boa idéia. No processo de montagem, o grande desafio foi acompanhar, respeitando essa cronologia, a evolução artística e pessoal do Macalé. De um começo mais linear, passando por arroubos experimentais e ousados quando sua história pedia, para culminar na música final, que é mostrada placidamente com apenas uma câmera, sem cortes. E, claro, misturando tudo depois.

JP: Está dito.

Como se viraram para destrinchar o vasto material de arquivo particular do Macalé?
MA: Com muita paciência e muitas cervejas. E além disso, ele é um cara extremamente organizado, o que ajudou bastante.

JP: A organização dele foi uma mão na roda. Esperávamos o caos. Mas o Macao tinha caixas com fotos e mais fotos, uma centena de rolos de super-8 com imagens ótimas, inclusive do período em que viveu em Londres, com Caetano, Gil… Tudo guardado na casa da mãe, Dona Lygia, em Penedo. Fizemos sessões superdivertidas na casa dele para assistir aos filmes. Ele chamava alguns amigos para o Cine-Macalé… Passamos algumas tardes também em Penedo.

Macalé sempre será um marginal?
MA: Marginal é hoje uma palavra muito gasta. O mito romântico do artista contra tudo e contra todos é um resquício do século XIX. O cara pode comer um morcego no palco e ser o queridinho da indústria. Basta vender. Quem hoje com menos de 40 é chamado de marginal? A música do Macalé é sofisticada, riquíssima, e nem por isso popular. Isso porque não se pauta pelo mercado, o que não é necessariamente um mérito, mas apenas uma característica.

JP: Como disse o Macao para a gente no filme: “Marginal é a mãe!!!”. Ele diz que esse rótulo foi uma maneira de exclusão que criaram para ele e outros de sua geração, que realmente viveram à margem da indústria. Ele deve ter sua razão, pois, como está relatado no filme pelo Cafi, seu fotógrafo e amigo, ele, numa reunião com diretores de gravadoras, chamou a todos de atravessadores e filhos da puta. Até hoje ele sofre para relançar seus discos… Se marginal for chamar atravessador de filho da puta ele será sempre, ainda bem.

O que Macalé tem a dizer ao século XXI?
MA: Os séculos, geralmente, não ouvem muito bem… Mas se esse início de século pode ser representado pela falência de todos os paradigmas - e as pessoas estão entendo isso cada vez mais, a figura do Macao é uma referência rica. Não há segurança total. O que existe é uma desconfiança cada vez maior do que seria “correto”. E a opção pelo risco é cada vez menos demonizada. E Macao é risco.

JP: “O sim, eu estou tão cansado/ Mas não pra dizer/ Que eu não acredito mais em você”.

Que filmes vocês não perdem de jeito nenhum nesse festival?
MA: “O poderoso chefão” na telona!

JP: Quero ver o documentário sobre o Arnaldo Baptista, “Lóki”; “Sinédoque, Nova York”, do Charlie Kaufman, pelo que andei lendo e pelo ator, Seymour Hoffman; algumas das sessõs bizarras da meia-noite. Mas vou mais no instinto e procuro deixar para depois o que entrará em cartaz…

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