
Por Lucky Luciano*
Qualé, beleza? Meu nome é Mauro. Não, você não me conhece não. Pois é, meu nome é Mauro Maurício, mas o pessoal me chama de Mau Mau, tá ligado? É foda. Mauro Maurício, puta nome de galã de novela mexicana, se bem que a minha vida tá mais pra novela colombiana ou jamaicana, se é que você me entende…
Tudo começou com o amigo de um amigo meu. O cara buscava as paradas, pó e bagulho, em três favelas daqui do bairro. Aqui tem três morros, Morro do Café, do Arcanjo e Morro da Bonita. Daí o cara vendia nas festas, nos esquemas daqui da área. Daí chegou o êxtase, que virou moda e a coisa toda começou a render. Ele passou pro meu amigo e meu amigo passou pra mim, e assim formamos o esquema perfeito. Hoje eu ganho grana de verdade e ainda separo o que eu consumo.
Mas no ano que vem, se Deus quiser e o Diabo assinar embaixo, o quanto antes, levanto uma grana, abandono a coca, vou viver no mato e começo a minha plantação de cannabis. Por fim, digo adeus a esse esquema nefasto de sobe ladeira, desce ladeira, celular na madrugada, paranóia, paranóia. Não dá mais, cansei. Já encarei a morte de perto umas doze vezes, os caras largando o aço, tiro pra todos os lados, granada, maior terror… e em pensar que até vinte anos atrás a gente achava que a terceira guerra mundial seria com míssil nuclear, Estados Unidos e Rússia, aperta botão, explode, game over. Que nada, a guerra é de capitalista contra capitalista, nunca começa mas também não acaba, tá no dia a dia, no conta-gotas, micro-guerrilha, são os narcos contra o poder estabelecido. E, ainda por cima, com gente lucrando nas duas frentes.
Outro dia no morro, um mané apontou o fuzil pra minha cara. O imbecil retardado me vê quase sempre, já me conhece, mas tava tão noiado que não se ligava, achou que eu era da polícia por causa da minha camisa preta. Se não fosse a minha lábia e o sangue-frio, eu tava fudido. Depois o cara se desculpou, me deu um abraço e eu todo borrado de medo nas calças, mijado e cagado de verdade, maior fedor e o maluco rolou de tanto rir da minha pagação.
Mas tirando a parte dura, violenta e negativa da qual eu não participo, só corro risco, é fácil. A polícia não atrapalha em nada, é só tomar cuidado. Tem delegado por aqui tão doidão que podia passar nos filmes do Cheech & Chong, é a maior comédia. Só sei que o resto é festa, sou o rei dos malucos com coroa e cetro, mas também… fala sério, as drogas são a melhor coisa que existe. Droga é alimento, um alimento do espírito, da mente, da alma, o brasileiro é que é ignorante, hipócrita, o povo todo é viciado, joga no bicho, na loto, mega-sena. E quando os bingos funcionavam? Ficavam lotados dia e noite, 24 horas. A minha avó então, só saía pra jogar.
Tanta gente aí se matando de beber, comendo mal, se entupindo de guloseimas e ficando diabética, doente. Se acabam com tranqüilizantes, é tarja preta, remédio pra isso e aquilo. A quantidade de drogarias que eu vejo pela cidade só não supera o número de bares e botequins. É propaganda de cerveja com Juliana Paes, bunda pra lá, bunda pra cá… é o Zeca Pagodinho se gabando do alcoolismo, de que toma todas…
Qualé, porque não liberam de uma vez ? Tem que legalizar tudo, que é pra ninguém e, principalmente eu, não correr mais o risco de morrer por aí ou ser preso. E se liberassem, eu iria vender muito mais. As drogas não fazem mal, tudo em excesso mata. Nociva é a proibição que incita o interesse, deixa a pessoa ansiosa e coloca todo mundo em perigo desde os usuários, até quem não tem nada com o lance. A criminalização das drogas é uma inutilidade, é enxugar gelo.
A lei seca deu origem à mafia, queria ver então o álcool proibido novamente. No que ia dar de gente moralista perdendo a linha. Eu não tenho nada a ver com a guerra que existe entre o crime organizado e o Estado, não sou violento e nem assassino, só vendo pra gente legal, inteligente, honesta, sou classe média e não aceito a responsabilidade que querem jogar pra cima da gente.
Da base ao topo da pirâmide, todo mundo usa drogas, desde o mendigo até o mais alto executivo de uma corporação. Aliás, como é que você acha que um motorista de ônibus, um pedreiro, um lixeiro ou um carregador pode suportar o batente massacrante sem pó, sem bebida? Depois chega em casa precisa relaxar, e vai fumar um, porra! É lógico! Já o típico executivo montado na grana dispõe de diversas opções de “doping” para se fortalecer ou espairecer da rotina no maior conforto, com total amparo do sistema, não é verdade?
Enquanto isso a molecada segue arrepiando, tudo começando cedo, não aceitam conselho de ninguém. Mas quem sou eu pra falar? Eu já fui assim, também. Se hoje quase aos trinta eu me aventuro, tem horas que eu me sinto um super herói, highlander total , imagina essa trupe de hoje. A gente olha pra todo lado nos shopping centers e só vê essa adolescentada. Eu não perco uma balada que seja, show, festa, baile funk, é coisa demais rolando, todo mundo se drogando.
E as raves, então? Mó comédia, ainda dizem que isso é herança da piração dos anos setenta, mistura de Woodstock com Embalos de Sábado a Noite, é brincadeira! Um cara chapado aperta uns botões e o resto fica fritando lá na frente da barulheira, não sei o que é pior rave ou baile funk, qualquer um faz o que esses caras fazem, mas o que interessa é que os palhaços têm grana. Quisera eu ter vivido nos anos setenta de verdade. Naquele tempo, ou você era maluco ou não era. Hoje é mole, o cara bota uma fantasia, se veste de punk, gótico, hippie, sai uma noite e se entope de tudo, dança, beija, pula, pula, pega uma, duas, três minas, volta pra casa, passa mal, vomita, dorme e no dia seguinte vai trabalhar direitinho, estudar bonitinho, tudo nos conformes. É por isso que eu digo e repito: se tudo que gera lucro é o que justamente controla as pessoas, domina, então as drogas tem que ser liberadas ou então, do contrário, proíbam o resto.
Sou maluco? Sei lá, de repente. O lance é que eu cultivo a minha sanidade na maior loucura e vivo a minha loucura na maior sanidade, não acredito em deus nenhum, mas sou ligado num papo místico, tá ligado? Incenso é bom, tira o cheiro de bagulho, perfuma o ar, deixa o ambiente mais leve e é bom pra relaxar com a mina. Gosto de astrologia, céu, inferno, quarta e quinta dimensão, Buda, os Orixás, Exus, tô ligado em tudo, tá ligado?
Mas de todas as tríades sagradas, Pai, Filho e Espírito Santo, Brahma, Vishnu e Shiva, Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll, eu elejo a última, é lógico! E baseado nessa, eu mesmo formo uma tríade com os meus dois amigos, é por esta que eu vivo, ganho dinheiro, a mulherada cerca, me divirto, viajo… faço o diabo a quatro. A gente vende um estado de vida, uma tacada de mestre, uma idéia, um caminho… tá ligado?
*Lucky Luciano é vocalista dos Monstros do Ula Ula.
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