25 de agosto de 2008
Por Arnaldo Branco
O Dr. Samuel Johnson disse que a Pátria é o último refúgio do canalha. Mas hoje em dia quem se importa com a Pátria? A gente mal dá bola para a Seleção Brasileira. Então, upgrade na frase: A Família é o último refúgio do canalha. Em nome dessa instituição sagrada você pode defender a censura, o politicamente correto e a faxina étnica e nem se sentir muito nazista, porque afinal, Família em primeiro lugar (über alles, se não falei português correto ;)). Sempre ouvi esse papo de que quando você se torna pai/mãe sua vida se transforma, mas acredito que a maior mudança se dê no setor do cérebro responsável pela capacidade de argumentação. Por exemplo nosso Governador (caso clássico de filho de pai legal que só pode ser o resultado das más companhias) é ferrenho defensor da Família, mas acha que o melhor jeito de garantir a segurança dos familiares da classe média é matando os da classe baixa, mesmo que vincular estatisticamente violência e miséria seja burrice até para os padrões do Emir Sader. Para isso está disposto a apoiar o aborto mesmo contra as determinações da Igreja, agremiação a que se filiou há menos tempo do que ao PSDB. Já escrevi que a questão do aborto deveria ser decidida pelo maior interessado, o feto, uma vez que - também graças aos apelos da classe média apavorada - em pouco tempo ele poderá ser responsabilizado criminalmente, através da redução da maioridade penal. Eu fico com a pureza da resposta dos embriões, é a vida, é bonita e etc. Hoje é impossível discutir qualquer coisa relacionada a segurança pública sem que alguém meta a Família no meio. Se você defende uma posição considerada excessivamente liberal por seu interlocutor, fatalmente vai ouvir o irrespondível argumento: “e se acontecesse com o(a) seu(sua) ____________?” - a lacuna é para inserir o nome do parente ora posto em perigo hipotético. Uma vez que parte da mesma lógica de um sequestrador, quem discute nesses termos deveria ser preso por crime inafiançável. Fico imaginando que depois que esquartejarem minha mãe depois de estuprá-la, um desses sujeitos vai aparecer usando jaleco de professor na cena do crime e dizer com um risinho de satisfação: “como queríamos demonstrar”.
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18 de agosto de 2008
Por Arnaldo Branco
Uma coisa que nunca entendi em heróis como o Homem-Aranha e o Super-Homem é porque se submetem à jornada de trabalho e a remuneração de um jornalista. Os caras tem a capacidade de fazer o trabalho de dez homens (se a contabilidade é mesmo essa a Seleção Brasileira poderia ser Julio Cesar + Super-Homem) e escolhem justamente um que não precisa de um inteiro, pelo menos no que diz respeito ao cérebro. Nelson Rodrigues dizia que ficava chocado com o barulho incessante das máquinas de escrever quando trabalhava em jornal - tinha a impressão que as Remingtons pensavam por seus colegas de redação, já que eles pareciam muito ocupados para se dar ao trabalho. É por aí. Quem já passou pela experiência quase lisérgica de ser entrevistado sabe do que estou falando. Não existe técnica em nenhum estúdio de gravação que consiga o efeito de distorção da fala de que um jornalista é capaz. Só o o despreparo não pode explicar a total mudança de sentido de uma frase depois de processada pelo cérebro de um repórter - os caras devem captar outra frequência, como os cachorros. A diversidade de idéias costuma confundir nossos bravos operários da palavra, que preferem suas próprias versões do fato não importa o quanto você tente oferecer a sua, e apesar do pequeno detalhe de ser você o entrevistado. Mas é recomendável não se queixar, porque se indispor com um deles é desafiar um esprit du corps só comparável ao que eles costumam denunciar no Senado e na Câmara. Vivemos em um país democrático onde um semiletrado pode virar presidente, ou fazer carreira escrevendo sobre ele. A vantagem deste último é que nunca vai trair seu ideais - porque não lhe pertencem, de qualquer modo.
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11 de agosto de 2008
Por Arnaldo Branco
As pessoas chamam a internet por extenso de “Território Livre da Internet”. Bem, pelo menos o Ancelmo Gois chama. OK, mau exemplo de pessoa. A Coréia do Norte também se chama República Popular Democrática da Coréia, e tente dizer o contrário para o Kim Jong-il. Assim como na Coréia, na internet uma opinião divergente não pode passar impune. Uma idéia na internet vive em um Estado Policial, acossada por vigilância constante. Experimente soltá-la sozinha em um blog ou lista de discussão, a coisa é pior que o Gueto de Varsóvia depois do toque de recolher. O debate Online tem regras de etiqueta bastante sutis. Por exemplo: se alguém faz uma crítica é democracia, se você responde é ditadura. Crítica na internet é como cartão amarelo, melhor receber calado - senão vão te acusar justamente de não aceitar críticas. É complicado, só vendo. Outra: coerência não é pré-requisito. Você pode acusar alguém de covardia anonimamente, ou morar com a mãe aos trinta e tantos e usar o computador dela para chamar alguém de loser. Também é de bom tom ameaçar dar porrada mesmo que o autor da ameaça não more no mesmo estado que o ameaçado, ou não tenha disposição para comaparecer se forem vizinhos. Chamar para a briga no tal “Território Livre” por algum motivo estranho é o equivalente a ganhá-la. A internet é o futuro, ou pelo menos uma versão beta do futuro, já que a tendência é que em pouco tempo tudo esteja conectado num sistema complexo de gadgets intercomunicantes, e nem quero imaginar as tragédias causadas por vibradores com acesso direto à rede. E pelo menos no que tange as regras de civilidade, o futuro é a volta à barbárie.
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4 de agosto de 2008
Por Arnaldo Branco
Abraham Lincoln, que disse ser possível enganar todo mundo parte do tempo, ou alguns o tempo todo, mas impossível enganar todo mundo o tempo todo, não conheceu o Arnaldo Jabor. Ele pelo menos consegue <em>se</em> enganar o tempo todo. O parágrafo acima é avulso, nem comecei e já digressiono. A coluna de hoje é sobre as primeiras críticas negativas a Tropa de Elite, todas baseadas na comemoração tipo “zerei o counter strike” do público que assistiu a pré-estréia. Eu mesmo acho que gritar “caveira!” depois de ver o filme é uma forma de sublimar um “gostoso!” para o Wagner Moura (admita, classe média, essa postura de donzela em perigo diante do crime é muito gay) mas defendo até a morte, ou pelo menos até o desfalecimento, o direito de cada um reagir como quiser. Ruídos na captação da mensagem já custaram a vida de mais de um metaleiro retardado que achou que sua banda favorita gastou 20 horas de estúdio só para mandar recadinhos sinistros para as vozes dentro de sua cabeça, mas esse é o preço da liberdade de expressão e da evolução da espécie. A reação contra o filme é típica do politicamente correto e o politicamente correto é basicamente contra o livre arbítrio. O autor que conta com a inteligência do público só deve fazê-lo em caráter excepcional. Dizem que quando o artista precisa se explicar para seu público um dos dois é débil mental, mas conhecendo a capacidade de interpretação e abstração do espectador médio, é melhor o diretor do filme se garantir. E aposto que o José Padilha é esperto o suficiente para realmente acreditar que o Bope é mesmo incorruptível ou que aquele ator com os cornos do Felipe Dylon passa credibilidade enquanto maconheiro. Ninguém perde dinheiro por subestimar a habilidade cognitiva da platéia - aliás, pelo contrário, geralmente é um bom investimento - mas a crítica parece ter a mesma dificuldade em distinguir realidade de ficção. E também acho que sempre se superestimou a capacidade da arte em influenciar o meio; antes acontece o contrário. Vê se na Suíça existe esse subgênero de thriller de ação no gueto. O destino do artista na Terra é mesmo ser mal-interpretado, mas como o dinheiro de um espectador sem noção vale tanto quanto o de um razoavelmente esclarecido, fica como prêmio de consolação. Como dizem os instrutores da Amway: boas vendas, Tropa de Elite.
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