28 de julho de 2008
Por Arnaldo Branco
A classe artística é um meio formado em sua totalidade por gente que parece artista. Até para efeito de reconhecimento por seus pares, público e crítica, o auteur precisa adotar a indumentária típica. Isso não é uma crítica, é uma constatação, como diria alguém de algum fato consumado como a calvície semi-secreta do Gerald Thomas. Mas além dos óculos, corte de cabelo e moleton retrô adequados, o artista moderno precisa de uma qualidade distintiva rara e fundamental para estabelecer sua posição no metiér. Perdeu quem apostou no talento, aliás como sempre; é na verdade o bom-gosto. Hoje, para provar um suposto pendor artístico, antes de demonstrá-lo é necessário saber identificá-lo nos outros, predecessores ou contemporâneos. Saber citar, principalmente em entrevistas, é etapa obrigatória nas atribuições das nossas mentes criadoras. Também é importante saber que artistas rejeitar publicamente, com um riso de escárnio e um comentário superficial e genérico para dar a idéia que você efetivamente leu, assistiu ou ouviu alguma coisa deles. Sei que o bom-gosto é um conceito abstrato, e com hífen acho que é até um anacronismo, mas hoje constitui um dos raros meios de que a crítica dispõe para constatar se um autor deve ou não ser levado a sério. Até porque não tem tempo para acompanhar todos os lançamentos e nem referências pra saber o que é bom ou não, já que quem topa esse tipo de trabalho com certeza não teve pais que pudessem pagar uma boa educação. Chegará o dia em que ninguém fará uma resenha sem consultar as estantes do autor, para saber se pelo menos comprou os livros, discos e filmes certos. Vai ser meio caminho andado para o crítico. Depois, é só dar uma olhada no guarda-roupa.
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21 de julho de 2008
Por Arnaldo Branco
Dia desses Tico Santa Cruz, reserva moral da nação, criticou a Mulher-Samambaia a propósito de um quiz de caderno cultural em que a burrice das respostas da mina parecia ser estudada, promocional. Talvez ela tenha entrado tão bem no personagem que a crítica do sujeito valha como uma espécie de elogio velado. Quando a inteligência ganha defensores do naipe do Tico Santa Cruz, você sabe que o time está em má fase. Mas essa foi só uma manifestação muito comum da incapacidade do indivíduo para reconhecer em si mesmo o que só enxerga nos outros. É o fenômeno da projeção de que nos falava Freud e Moraes Moreira em seu hit “Besta é Tu”. Às vezes você se vê rodeado por pessoas que parecem legitimamente consternadas por uma manifestação da burrice, até que aos poucos percebe nelas os mesmos sintomas. A coisa parece um filme de Zumbi, é contagioso e não há para onde correr. Talvez o governo devesse estimular o auto-exame, como no caso dos preventivos de câncer de mama. O sujeito ficaria em frente ao espelho apalpando a consciência, para ver se também engrossa as estatísticas das vítimas da estupidez. Inteligência, ainda que light, está na moda e é importante distinguir os adeptos de ocasião do pessoal true, roots. De repente aquele cara que protesta contra a falta de conteúdo do Big Brother é um leitor contumaz da Martha Medeiros. Abaixo a demagogia!
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14 de julho de 2008
Por Arnaldo Branco
O Brasil é um país com 190 milhões de indivíduos dotados de capacidade mnemônica reclamando que o Brasil é um país sem memória. Talvez se as pessoas se dedicassem mais a registrar ou estudar os fatos do que a reclamar que ninguém está fazendo isso, ajudasse e tal. George Santayana certa vez disse (quando exatamente? cartas para a redação da Superinteressante, que se liga nesse tipo de coisa): quem desconhece o passado está condenado a repeti-lo. O que explica muita coisa por aqui, como a reeleição do FHC, do Lula e a Casa dos Artistas 2. A oposição acha que o PT inventou a corrupção e eleitores do PT acham que o Lula nasceu ontem e ainda não leu o jornal do dia. Como um sujeito traumatizado, o brasileiro bloqueia as lembranças ruins para poder 1) seguir a vida com um mínimo de sanidade e 2) repetir seu bordão favorito: “antigamente é que era bom!”. O brasileiro em geral merece morrer de tuberculose. Marx dizia que a História se repete como farsa, e a mulher dele acostumada às desculpas esfarrapadas pelas demoras do marido no quarto da empregada devia concordar. No Brasil, onde criatividade é mato, ela se repete também como dramalhão, sitcom e pornochanchada. Vejam se o caso do Renan com a Mônica não lembra a do Bernardo Cabral com a Zélia inclusive no mau-gosto das mulheres (e no affair interministerial, do casal como um todo). Muitos dos sujeitos que reclamam que o brasileiro não lembra de nada devem dinheiro na praça; além da memória a coerência também não é o nosso forte.
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7 de julho de 2008
Por Arnaldo Branco
O problema com esses filmes recentes sobre a ditadura militar é que os atores falam igual aos livros do Elio Gaspari. Neles não existe diálogo sem função - o contexto é algo para se falar a respeito, e não para simplesmente inserir os personagens. Os diretores desses filmes parecem abrir mão da verossimilhança pela certeza que o público vai entender a mensagem. O ditado reza que quando o artista precisa se explicar para o público, um dos dois é débil mental, mas a burrice ou a falta de talento sozinhas não explicam a fascinação dos nossos auteurs pelo didatismo. É a nossa culpa, católica e às vezes jurídica que explica a crença fundamental no caráter educacional da arte. Aqui, até o cenário se associa às intenções informativas da obra. Lembro de uma cena de rua em um filme passado nos anos 60 em que a fachada de um cinema prometia nada mais nada menos que “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Assim é a paisagem nas nossas produções, sempre prontas a aludir a obras fundamentais para a compreensão da época retratada ao invés de algum filme do Jerry Lewis ou uma sessão dupla de kung fu. O artista brasileiro se sente frustrado se perde a oportunidade de aborrecer o público, talvez na esperança de expulsá-lo definitivamente de nossas salas de projeção para que desista dessa diversão pequeno-burguesa e se ocupe de coisas mais importantes para nosso desenvolvimento enquanto nação. Deve ser por isso que nossos cineastas são remunerados através da isenção fiscal - prestam um serviço ao governo e ainda fazem os beneficiados (os contribuintes) participarem de uma espécie de consórcio da conscientização. Se os filmes nacionais parecem chatos, é porque entreter é considerado um crime de lesa-discurso - existe a necessidade dedesossar uma narrativa de toda distração para que o principal fio condutor seja o sermão. Veja pelo lado bom: em comparação a um comício do Fidel nossos filmes até são curtos.
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