30 de junho de 2008
Por Arnaldo Branco
A Bicha Escandalosa, assim como a Gostosa Burra e o Pobre que Fala Errado, é um dos pilares do humor nacional. Gerou mais empregos para nossos humoristas do que a Escolinha do Professor Raimundo e outros programas assistenciais de TV. No entanto, tenho um problema: não acho o homossexualismo engraçado, quer na sua representação caricatural, quer na descrição do ato que qualifica o homossexual em si. Não consta por exemplo que héteros de formação, obrigados a experimentá-lo à força na cadeia, tenham achado graça na experiência. Na verdade há relatos de pessoas que o levaram a sério demais, mudando de estilo de vida. O brasileiro ri de qualquer coisa alusiva ao intercurso carnal pelo ânus - ri mesmo de qualquer palavra terminada em u, por pressentir a aproximação da rima fatal. Convenhamos que facilita a vida de qualquer humorista, mas dificulta a minha, que falho em pegar o espírito da coisa. Bem, talvez os que riem de qualquer piada que conjugue o verbo sentar são os tais que já ultrapassaram a barreira em que se diz que a dor passa e começa o prazer. Talvez um riso cúmplice… Por outro lado tem o humor gay - ou o estilo de humor atribuído aos gays, vamos dar aos caras o benefício (bota benefício nisso) da dúvida. Também não é a minha, difícil entender a graça de uma imitação da Barbra Streisend - se for pela ruindade, mais desperta em mim a pena. Outro recurso humorístico gay é a gíria, mas algumas são tão incompreensíveis por precisar de conhecimento de causa ou contextualização que a graça se perde na demora da mensagem. Fora que têm prazo de validade curto, pelo pavor do pessoal em estar defasado em relação ao que estiver na moda. Se estivesse escrevendo esta coluna para a versão impressa da Zé Pereira, onde assino a última página, teria um final perfeito para essa coluna: a turma lá da frente é bicha.
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23 de junho de 2008
Por Arnaldo Branco
Nunca se escreveu tanto sobre as maravilhas que as novas tecnologias permitem à mente criativa, sobre como cada vez mais temos canais para o talento se manifestar. São muitos artigos a respeito das possibilidades do mundo moderno: laptops, filmadoras digitais, blogs, mais terabites… pense nas possibilidades! Esse é o problema. Tem gente demais pensando nas possibilidades do que efetivamente as aproveitando. Enquanto mentes pensantes estiverem perdendo tempo escrevendo sobre o futuro das mídias digitais na “MacMania” ou na “Rolling Stone”, a crônica desta geração estará sendo feita por gente artisticamente prejudicada como… bem, não cito algum nome da imensa lista de novos artistas ruins para nenhum que esqueça de mencionar achar que escapou. Farta distribuição de carapuças! Há um fascínio pelas ferramentas que não havia no passado. Não lembro de ler, em autores do século XX, tantas odes à máquina de escrever, que além de revolucionar a escrita nos poupou da caligrafia de muitos gênios da literatura notoriamente maus alunos na matéria. Tenho certeza que vários erros de interpretação da Bíblia tiveram origem na letra dos escribas, o mais notório a filiação entre Jesus e Deus. Na real eram só primos, daí a confusão — você leu primeiro aqui. A tecnologia é uma coisa boa, claro, e cada vez mais temos dificuldade em imaginar como a Humanindade passava sem a internet rápida ou o repelente de mosquitos, mas houve uma época. Se bem que a negação da tecnologia também não garanta cérebros mais inventivos — nunca ouvi falar de um criador relevante surgido entre os Talibãs ou os Amish, que devem estar mais ocupados mesmo cultivando ópio ou consertando o celeiro, mas também não há registro de nenhum deles perdendo tempo em listas de discussão de TI e outras formas de procrastinação. Ao trabalho!
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16 de junho de 2008
Por Arnaldo Branco
Dizem do Brasil que tem 190 milhões de técnicos de futebol, e subindo. Pena que todo esse pessoal não se atenha à sua especialidade e aproveite ocasiões de júbilo popular como campeonatos panamericanos e desastres aéreos para se exibir em outras áreas de expertise, tais como regras do Badmington e o funcionamento de um transponder. Não existe tema no mundo imune ao ponto de vista de um brasileiro. “Palpite, palpite, nasceu no crânio de quem teve meningite”, cantava Noel Rosa, que entendia de doenças infecciosas e suas conseqüências, já que morreu de tuberculose. É de se especular que o surto da doença que atingiu o país nos anos setenta e teve sua divulgação proibida pelo governo militar haja afetado toda a população, porque não conhecemos limites para nossa capacidade de dar opiniões desabalizadas sobre qualquer assunto. Alguém já disse que contra fatos não há argumentos, mas o brasileiro com sua mundialmente famosa criatividade prescinde destes e usa o que tiver a mão, inclusive objetos sólidos e arremessáveis, como um babuíno no zoológico. Blogs, caixas de comentários, seções de cartas dos leitores, artigos de jornal, onde for possível deixar sua marca o Opinador Médio Nacional lá estará, geralmente usando um pseudônimo ou a imunidade do cargo para evitar que sua intervenção corajosa fique à mercê da ação deletéria de algum processo penal. Se conselho fosse bom ninguém dava de graça, reza a assim chamada sabedoria popular e a lei da oferta e da procura, o que me inspira sugerir que as pessoas deveriam pagar para opinar. Mas ocorre o contrário - em mais um exemplo de superfaturação de serviços desnecessários, um dos negócios que mais prospera por aqui é o das firmas de consultoria. Vai entender. Tenho baixa tolerância à opinião não-solicitada, tanto é que estou proibido por ordens médicas de ler certos colunistas e O Globo de uma forma geral, mas eventualmente um palpite free lance atravessa minha fortaleza de autismo simulado e me atinge bem no saco. Não é a toa que um dos termos que definem afirmações sem conhecimento de causa é “chute”.
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