10 de março de 2010
“É que Recife é um ovo!” ou Lugares queridos – Parte II
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
(Provavelmente esta introdução se faz desnecessária, mas minha prolixidade quase que patológica me obriga a dizer que sim, tenho consciência de que o fenômeno a ser descrito logo a seguir acontece em qualquer lugar, afinal de contas somos bichos; mas bichos plurais e, logo, de nichos plurais.)
Sempre mudam, mas sempre há aquelas localidades que fazem sua cidade parecer ridiculamente pequena. Um determinado espaço em que, seja lá que dia da semana for, sempre terá quorum e no qual sempre haverá reconhecimento, ainda que vago. Pode ser só um bar, mas geralmente é um coletivo deles que acolhe esta qualidade de agregação pseudo-universal com mais facilidade.
Pense na paulistana R. Augusta se a idéia ainda não ficou bem clara. Como brasiliense de criação, tive não uma rua, mas uma quadra. A 408 Norte, com a inegável vantagem de estar a meio caminho da UnB e do Iesb (uma dessas faculdades que dão certo), foi este meu local-ovo durante boa parte de minha juventude.
Os bares foram se alastrando, quase que viralmente, de um prédio ao outro ao longo de um punhado de anos no alinhamento impecavelmente simétrico daquela CLN ou, como diz aquela canção do Little Quail and The Mad Birds, aquela “comercial” (procure CLN e Little Quail no Google, caro gafanhoto, pra descobrir um pouco mais do cartesianismo e do rock n’ roll da capital federal). De botecos sujos a barzinhos da moda, aquele era o último lugar da Terra se o seu desejo era estar incógnito.
Aqui, o lugar que desta maneira se mostrou a mim, cerveja (agora também pra amenizar o calor) e pessoas conhecidas (para, ébria e no espanto de minha aridez, acusá-los de serem excessivamente tropicais), foi o Bairro do Recife Antigo; ele todo, pois ainda que pequenas, são várias as ruas pelas quais se estende a concentração.
A R. Tomazina é hoje dita meio que decadente — apesar disso (ou seria justamente por isso?) é o novo endereço do Garagem, boteco do qual falei há um tempo; a R. da Moeda teve sua emblemática (ainda que não tão bela) estátua de Chico Science destruída e reconstruída. São símbolos de um lugar-ovo que, como a maioria, se pretende eterno, sempre renascendo das próprias cinzas (de cigarro, acompanhada das garrafas de cerveja vazias). O jazz de domingo na Casa da Moeda que o diga.
Mas como tudo se renova, já há um candidato a “novo Recife Antigo” entre as ilhas. Um pouco mais afastado do mar, mas perto do rio. Entre a torre de transmissão da Rede Globo e o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. O bairro, valhe-me Google Maps que ainda sou uma estrangeira desorientada, é Santo Amaro: R. Capitão Lima, ou simplesmente R. do Lima.
Em minhas primeiras vezes na R. do Lima, a candidatura parecia ser fadada ao sucesso: havia poucos estabelecimentos propriamente ditos; que eu me lembre apenas o restaurante Capitão Lima e seu bar-irmão Quintal do Lima. Mas na rua transversal, vários quiosques, suas respectivas mesas, cervejas semi-geladas, petiscos suspeitos e músicas de qualidade duvidosa faziam companhia aos dois lugares “arrumados” e suas mesas que, nos fins de semana, saíam às calçadas. Então, sem aviso, retiraram todo o caos acessório e sentar naquelas mesas parecia extremamente solitário.
Voltei esporadicamente, mas não era a mesma coisa. Com exceção de uma noite em especial no Quintal do Lima (que pode bem ser considerado uma casa de shows e não apenas um bar), faltava a sensação de acolhimento. Tudo parecia muito deserto: as probabilidades de se encontrar alguém ao acaso haviam sido drasticamente reduzidas. O nicho havia morrido antes mesmo de se concretizar como tal.
A última coisa que eu esperava era ser convidada pra uma festa na R. do Lima, no final do ano passado, em um lugar que acabara de ser inaugurado. Me parecia fadado ao esquecimento um novo estabelecimento naquelas cercanias. Previsão completamente errada.
E então o NAVE passou de algumas poucas cadeiras e algumas cervejas pra shows inusitadamente bons, estantes cheias de livros e gibis, e exposições; e o lugar começou a lotar. E de repente havia um outro bar,cujo nome não me recordo por nunca ter entrado lá. E agora há um tal de Espaço Muda, aonde ainda também não entrei, mas cujo nome me lembro porque a propaganda entre os pares já é forte. Pares desses que agora encontro aleatoriamente na renascida R. do Lima. Jeito de nicho, tem; vejamos se dura.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi criada em Brasília, e na 408 Norte gostava mesmo era do Meu Bar; de volta ao Recife, acha feliz alternar NAVE e Novo Pina.
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