3 de julho de 2009

Por João Moraes
Ela era roliça, meio esbranquiçada e estava encaracolada dentro de um vidro de balas que já havia perdido a tampa. Fechando o pote, um pires tão encardido quanto. Parecia um bichinho de laboratório conservado em formol, mas o líquido em questão tinha uma química mais simples, era cachaça dentro do vidro e dentro dela uma jararaca de mais de metro. A cabeça da bicha ainda apresentava as marcas de pauladas desferidas há muito. Os olhos saltados denunciavam a opressão do porrete, bem como algumas escamas arrepiadas.
A cachaça estava turva e alguns ciscos e outros organismos boiavam no caldo grosso. Aquele tesouro em cima do balcão nos atraiu os olhos e as gargantas estalaram. Jogávamos sinuca na mesa de pano rasgado; lá atrás, o banheiro era uma velha manilha cortada ao meio, absolutamente fedorento, decadente e a céu aberto, bem ao lado da porta de entrada da casa do Boto, dono do bar e morador da espelunca; impedida pela saúde pública, condenada ao desabamento. (continua aqui)
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3 de julho de 2009
Por Fernando Carneiro
A celeuma sobre o que FHC disse em relação a Lula e a inflação, que deixariam ela com mais folga no ano eleitoreiro – mas que deveriam fixar o teto em 4%, é fruto apenas de mais um nó tático que o venerando e admirável sociólogo levou do torneiro mecânico.
O insuspeitíssimo Banco Central projeta uma inflação de 3.9% com a Selic a 9.25% ao ano. Ou seja, o Bacen pode – e vai – sentar ainda mais a marreta na Selic. Mais do que se espera. E ainda assim podemos ter uma inflação que deixaria tanto Lula como FHC contentes. Lula faz o que qualquer um faria. Dar folga na margem. Apertar seria até leviano pois caso o país saia da meta, a desordem com os agentes financeiros seria maior.
Com a palavra, o “Valor” de ontem e meu menestrel favorito, Cristiano Romero: “A crença de amplos setores do governo num cenário mais favorável à redução dos juros já existia antes do Relatório de Inflação, divulgado sexta-feira passada. Com o relatório, redobrou-se a aposta numa queda da Selic superior à sinalizada na última ata do Copom - que indicava cortes residuais, totalizando corte até o fim do ano de 0,25 a 0,50 ponto percentual, o que levaria os juros, na melhor hipótese, a 8,75% ao ano. O BC pode surpreender o mercado novamente - disse alta fonte ao “Valor’.
E vai mesmo. Pode apostar o cavalo.
A meta de 4.5% foi fixada pelo CMN pelo sétimo ano seguido, ou seja não estamos falando de nenhuma aberração.
Engraçado como a oposição atual consegue ser tão pobre (de idéias) e analfabeta. Tem algo de errado nisso. Achei que deveria ser o contrário. Mas não é. Ou seja, Lula terá margem técnica para cortar talvez até mais um ponto percentual na Selic, em ano eleitoral, e ficar dentro da margem. Alguém aí está comendo mosca. Ou então é melhor ficar calado quando não temos nada a acrescentar.
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2 de julho de 2009
Ela tem o olhar de Eve Marie Saint em “Sindicato dos ladrões” e entende Simone de Beauvoir à sua maneira.
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1 de julho de 2009

Paulo Tiefenthaler é Paulo Oliveira, cozinheiro-guerrilheiro do “Larica Total”, disparado o melhor programa da TV brasileira; mas também é diretor de cinema e versado no samba.
Cria da Mocidade Independente de Padre Miguel, Mestre Jorjão é o mais polêmico e criativo diretor de bateria em atividade. Este ano, ele está de volta à Viradouro, escola na qual surpreendeu a Sapucaí em 1997 com sua batida funk, e promete mais inovações para o Carnaval de 2010.
“Jorjão”, que a Cinemateca Zé Pereira orgulhosamente apresenta, é o primero filme de Paulo, sobre o ritmista. Leia aqui uma entrevista com o diretor, na qual ele fala um pouco mais sobre Mestre Jorjão, da aventura que foi filmar o curta-metragem e de seus novos projetos.
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1 de julho de 2009

Por Dandara Palankof
Ilustração: Raquel Temporal
A tradição dos festejos juninos em Pernambuco é conhecida, e tem maior força no interior. Caruaru, no agreste do estado, por exemplo, vira destaque nacional junto à cidade paraibana de Campina Grande. É conhecida como a capital do forró (apesar de, provavelmente, seus rivais paraibanos discordarem disso) e, portanto, é lá que acontecem os maiores shows da segunda data mais esperada no calendário do pernambucano (o primeiro é, sem dúvida, o carnaval).

E forró em Caruaru, como era de se esperar, é coisa séria. A farra só acaba no próximo dia 10, e na programação estão nomes como Dominguinhos e Gilberto Gil (que depois de velho resolveu atacar de forrozeiro, também); as bandas vão de Falamansa até, no máximo, um Limão com Mel. Nada daquela baixaria que deu pra assolar (mais) este gênero musical, como a detestável Calcinha Preta e afins.
Mas a festa não fica só por lá e, assim como Carnaval não tem só frevo, o forró não é necessariamente a única coisa que se escuta por aqui, nessa época. Há as variações do próprio, como o baião e o xaxado, mas outros ritmos regionais, como o coco e o cavalo marinho, marcam presença nas ruas de Cabrobó, Carpina, Gravatá, Petrolina e, claro, aqui em Recife, mesmo. (continua aqui)
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30 de junho de 2009

Por Ângelo Fábio
A vida não passa de um esmeril polido e sensível. É como um jogo de cartas repleto de azares e às vezes sorte.
Como uma notícia ou certezas infames, na maioria das vezes elas, nos faz tão mal. É melhor que em muitos dos casos não sabermos de absolutamente nada.
Aos 68 anos, com um mar de contribuições não só para a dança, mas sim para toda a arte, parte para o descanso absoluto e desconhecido a coreografa e bailarina alemã Pina Bausch, que durante anos de sua vida se dedicou à dança e que desde 1973 dirigiu o Tanztheater Wuppertal.
A poucos dias de ter descoberto um câncer, morre na manhã do dia 30 de junho de 2009.
Que nossos olhos não se encharquem de lágrimas, mas sim que nossos corpos estejam repletos de movimentos para bailar a vida. Bailemos para esta notável mulher e que o orixás tenham guardado sua casa.
Evoé, Pina. Que descanse em paz.
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30 de junho de 2009
Bonequinho vudu tenta impedir que seus amiguinhos de sejam alfinetados até a morte. Animação de Joaquin Baldwin que ganhou o quinto concurso de curta online da National Film Board of Canada, em associação com a Cannes Short Film Corner.
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30 de junho de 2009
Por Fernando Carneiro

Fala Serginho,
Ora, no país do “Homem Cordial” de Sergio Buarque de Holanda, e de seu companheiro de legenda (Seu. Não do seu homônimo, Pai de Francisco), Ribamar do Maranhão, eu pelo menos tenho o direito de te chamar assim, né seu vascaíno sacana? Claro que foi o Ribamar do Maranhão que falou, ao discursar uma vez no Congresso americano, sobre a tal da “liturgia do cargo”, que nos faz separar a pessoa do personagem e tratar os dignitários no genuflexo. Eu vi aliás o Presidente do Senado discursando no Congressso Americano, lá do alto da galeria, convidado especial de Jimmy Malloy, que tinha um cargo curioso. “Doorkeeper of the House” seria o honorífico de “porteiro da casa”, mas tratava-se apenas do diminuto irlandês que bradava a entrada do presidente ou de outros ilustres que adentravam o parlatório. Isso tudo para dizer que eu devia te chamar de senhor governador, apesar de não te ver há tempos. Mas não faria isso nem fornicando. Aliás… Bem, deixa prá lá. Só ajoelho em locais sagrados, na hora de rezar. Somente para coisas metafísicas ou para a hora do lanche. Fora isso, tou fora.
Isso não importa. Temos amigos em comum e você sempre foi carinhoso e pergunta por mim. Eu estive fora muito tempo como você sabe. Continuo por fora (como você pode constatar), numa órbita pessoal e intransferível e, a essa altura, eu vou morrer assim. Curiosamente, estava no país que mantinha oligarquias que promoviam desigualdades como a nossa. Mas lá mesmo se pratica uma coisa mais igualitária. Gozado. Não tem genuflexo a não ser na hora de rezar. Nem monarquia ou pseudo-aristocracia. Tem ignorantes, como aqui, essa coisa que Nélson Rodrigues invejava por ser das únicas que se sabia ser eterna.
Bom meu caro, um dia a gente se vê e bota o papo em dia, aquele que começou lá na sétima série. Nunca mais te procurei pois você tem mais o que fazer e está ocupado e eu também. Não quero pedir nada e nada tenho a oferecer. A não ser a boa conversa afável, com boas risadas, fazendo troça de outrem, como manda o figurino. Obrigado por apartar algumas de minhas brigas, eu ia quebrando o meu pulso na marginália infanto-juvenil. Você foi pra vida do parlatório. Eu preferi ficar mudo. Parabéns aí pelo sucesso. Mas queria escrever essa nota rápida pra dizer que, por questões profissionais, fiquei em recinto fechado com estrangeiros, ainda mais em São Paulo. Por precaução, depois de dias sem melhora de febre e gripe, fui numa de suas UPAs verificar se estava com a peste suína. Não sei se foi sua criação. A UPA. Ou da sua criatura que é pretérito mais que prefeito. Mas não vou dar a César o que não é de César. Nem fornicando. (continua aqui)
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30 de junho de 2009
Por Henrique Koifman

Fotografia é, basicamente, usar a luz para copiar (e guardar) cenas que enxergamos. A definição, claro, é uma entre dezenas. E se a luz é ferramenta, é também – e antes – ingrediente da própria cena, de cada momento. De sua ausência, que nos mergulha em mistérios (e, dependendo da circunstância, em medo), a sua abundância, que pode ofuscar e dissimular tão bem ou melhor que a penumbra. Não, não se preocupe, não vou usar esse espaço para exibir erudição (que não tenho) ou filosofar rasante num campo em que mestres – como Roland Barthes, que ainda por cima escrevia muito bem – já nos fartaram. Melhor, paro com esse assunto e esse tom nesta linha, agora. Juro que o palavrório era só para introduzir as fotos desta edição do Fotodiário, nas quais a luz me parece saltar ao olhar.
A primeira delas foi feita no sábado da semana anterior, quando levei o carro para colocar pneus novos. Achei a lanterna traseira – com a luz de freio acesa e reflexos da paisagem – bem interessante. Quase ao lado, o sol da manhã (eram 8h, por aí) realçava o relevo da tampa de um bueiro. No domingo à noitinha, fui buscar o caçula numa festa no Clube dos Macacos e descobri um grupo dançando tango no salão iluminado.
Já na segunda de manhã, contornando o Passeio Público a caminho do trabalho, registrei o sol do inverno vazando a névoa e as copas das árvores do jardim. Na volta para casa, na Rua do Catete, fotografei outra cena em contraluz, em frente às vitrines de um grande magazine. A névoa densa – novamente – deu o tom à manhã de terça. Do Mundo Novo (fui dar uma caminhada pensando em ver o mar), tudo o que se via do Pão de Açúcar era seu cocuruto, emergindo de uma nuvem balofa que deixava em branco toda a enseada de Botafogo. Mais adiante, na Belisário Távora, passei por esse reluzente fusca dourado, emoldurado por pedras do muro e da pista.
Na quarta à tardinha, na saída do metrô de Botafogo, uma senhora preparava churrasquinhos perfumados (não, não provei). Pouco depois, numa paradinha para um café com broinhas com a namorada, fotografei pai e filho do lado de fora da vitrine, esperando por uma mesa. Já dia seguinte, em outro lanche à tarde, só que no Centro, notei que as fatias de bolo de milho (esse eu provei, estava ótimo) pareciam destacadas, iluminadas na vitrine do balcão da padaria. No fim do dia, fui à inauguração da exposição de fotografias de meu amigo Chico no Museu do Folclore, no Catete. Na sexta, passando pela Travessa do Comércio, percebi que a porta de um dos sobrados estava decorada para as festas juninas.
A vitrine – com Bogart e Bergman deslocados de Casablanca para o Rio – é da loja do Espação, em Botafogo; o prato colorido com “comida de criança”, de nosso jantar de sexta, aqui em casa; o guarda-chuva com nuvem e gotas d’água estava na mostra de artes dos alunos Sá Pereira.
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29 de junho de 2009
Por Eduardo Souza Lima
Os Autoramas começaram a gravar hoje à tarde o seu DVD acústico para a MTV. Na platéia, estavam VIPs como a primeira baixista da banda, Simone do Vale - a maluca de maria chiquinha que volta e meia aparece no canto esquerdo -, e seu filho Fernando Barreiros, eventual colaborador da Zé Pereira, e as jornalistas Marcella Sobral e Simone Gondim. No vídeo acima, o início dos trabalhos e a fabulosa canção ”Eu mereço” - não dava pra levantar e o som não é nenhum THX, mas é uma raridade, já que a tomada não valeu e não vai entrar no DVD.
A propósito: começa amanhã, em Colônia, a turnê dos Autoramas por Alemanha e Holanda.
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29 de junho de 2009


Agente da Të Shtetit de Drejtorija e Sigurimit, a polícia secreta albanesa, contato de Martina Wiedergeboren no Rio de Janeiro, o peixe que sabia demais.
Agora falando sério: reinaugurado com pompa e circunstância há alguns anos, o aquário do Parque Lage foi abandonado pela atual direção. Segundo um guarda municipal que lá trabalha, seu tratador foi dispensando e ninguém mais alimenta os peixes ou renova a água. A finada tilápia da foto - uma das estrelas de “Pimentípoli”, que Oxum a tenha - nem deve ter sido a primeira vítima do descaso: tem tanque que não dá pra ver nada, tão turva está a água. É um peixecídio anunciado.
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29 de junho de 2009
Há 40 anos, Neil Armstrong tomou posse da Lua em nome dos Estados Unidos; fosse eu, seria em nome dela.
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