13 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Depois de um ano, por aí, sem ir a SP, passei o dia lá ontem, trabalhando. Sol, trânsito relativamente tranquilo (algo incomum, comentado até pelos motoristas dos táxis que peguei). Mas a tal da ponte aérea… Não sei se é só a TAM – pela qual fui e voltei. Os avião estavam com aquela configuração “capacidade máxima”, aparentemente baseada na ergonomia dos amputados de pernas. Rendeu até piada com o passageiro da poltrona adiante da minha, que inutilmente tentava descer o seu encosto. “Amigo, infelizmente, os ossos de minhas pernas não são dobráveis”, avisei depois de três ou quatro marteladas nos joelhos.
Isso e a bregaiada jeca da TAM, metida a simpática e amiga dos passageiros. Passageiros? Foram extintos. Influenciada, na certa, pela Gol, agora ela nos trata a todos de clientes. E tome lá um picolé para apaziguar os ânimos e um documentário sobre o SENSACIONAL carnaval da Bahia tendo a SENSACIONAL Ivette como protagonista. E tome promoção para ver o SENSACIONAL show da Ivette no Carnige Hall (como seriam os tipos que iriam à NY só para ver o SENSACIONAL show da Ivette?). E o surreal voto do comandante para que desfrutemos do vôo.
E tome mensagens quase robotizadas da comissaria seguidas por traduções ditas em rotação 78 e com pronúncia incompreensível. Se é pra falar assim, pra que falar?
Pra variar – coisa que acontece em 8 em cada 7 embarques meus em Congonhas e mesmo em Guarulhos –, o portão de embarque foi mudado depois do checkin, obrigando a todos a zanzarem pelo aeroporto feito turistas gregos em Tóquio. Pra variar o avião saiu com 30 minutos de atraso de SP e chegou com 50 minutos de atraso no Rio. Pra variar não tinha ponte de saída (acho esse negócio de fínger meio proctológico) disponível e o avião parou lá no meio da pista. Pra variar não havia ônibus suficientes para levar os passageiros e ficamos mais 15 minutos dentro do avião…
A ponte aérea tá parecida com o (nosso) metrô. Que venha o trem-bala (desde que não seja perdida).
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13 de março de 2010

Por Fernando Barreiros
Fui ao estacionamento para fumar. Ainda fazia calor mesmo à noite, fazia você querer andar pelado. Uma música brega anos 90 tocava no bar ao lado, podendo estragar qualquer vontade de ter ouvidos. Resolvi voltar para dentro do prédio, com ar condicionado e um sentimento de distância infinita com o resto do mundo. Andando para minha sala, meus conhecidos me comprimentavam e grande parte deles só fingia que me achava um sujeito legal. leia mais…
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12 de março de 2010

Por João Moraes
A janela do meu quarto no terceiro andar do velho prédio em Bonsucesso, onde morei por dez anos, dava para os fundos dos galpões de uma antiga fábrica. Os telhados escuros e empoeirados abrigavam gatos dos mais variados tipos. Magros esguios de orelha fina e pelagem escura com manchas amarelas; parrudos meio cambotas de rosto redondo de olhos grandes e amarelos; rajados de rabo quebrado e cicatrizes reveladoras de grande volúpia sexual – porque, humanamente, o amor entre os gatos é quase uma guerra -; gatos negros de olhos verdes, altos e majestosos; brancos sorrateiros de olhos bicolores, siameses heterodoxos; e alguns angorazados especialistas em lambedura de pelos. Não faltava gato e nem comida para eles. leia mais…
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11 de março de 2010

Por Antônio Rogério da Silva
A capacidade de inovação e tratamento dos temas relacionados à inteligência artificial da equipe de roteiristas e produtores de “Jornada nas estrelas” pôde ser demonstrada já em “E as meninas, de que são feitas?”, que foi ao ar em 20 de outubro de 1966, na primeira temporada da série original. Em contrapartida, também se pôde observar o ponto de vista conservador de toda série original quanto à possibilidade das máquinas virem a substituir o trabalho humano e sobretudo suas deliberações nas atividades mais rotineiras. “Jornada nas estrelas” acompanha o temor generalizado que as pessoas têm de perderem seus postos de trabalho e serem rebaixados socialmente por um mecanismo avançado de realização de tarefas. Na segunda temporada, o episódio “O computador supremo” – com o roteiro de Dorothy C. Fontana (ex-secretária de Gene Roddenberry) e dirigido por John Meredyth Lucas – reforçou o receio da Humanidade ficar obsoleta diante de uma inteligência superior. leia mais…
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10 de março de 2010



O Cachaça Cinema Clube de hoje dá um pulinho no porvir e exibe três curtas-metragens de ficção científica brasileiros da recente safra: “Éternau” (RS), de Gustavo Jahn e Melissa Dullius, “Flash Happy Society” (CE), de Guto Parente, “Pimentípoli” (RJ), de Eduardo Souza Lima, e “Recife frio” (PE), de Kleber Mendonça Filho. Completando a sessão, fragmentos de filmes do pioneiro do gênero Georges Méliès, selecionados por Hernani Heffner na Cinemateca do MAM. Depois rola show com Os Vulcânicos e festa com o DJ H. Ingressos a R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia).
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10 de março de 2010

Por Dandara Palankof
(Provavelmente esta introdução se faz desnecessária, mas minha prolixidade quase que patológica me obriga a dizer que sim, tenho consciência de que o fenômeno a ser descrito logo a seguir acontece em qualquer lugar, afinal de contas somos bichos; mas bichos plurais e, logo, de nichos plurais.)
Sempre mudam, mas sempre há aquelas localidades que fazem sua cidade parecer ridiculamente pequena. Um determinado espaço em que, seja lá que dia da semana for, sempre terá quorum e no qual sempre haverá reconhecimento, ainda que vago. Pode ser só um bar, mas geralmente é um coletivo deles que acolhe esta qualidade de agregação pseudo-universal com mais facilidade.
Pense na paulistana R. Augusta se a idéia ainda não ficou bem clara. Como brasiliense de criação, tive não uma rua, mas uma quadra. A 408 Norte, com a inegável vantagem de estar a meio caminho da UnB e do Iesb (uma dessas faculdades que dão certo), foi este meu local-ovo durante boa parte de minha juventude. leia mais…
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10 de março de 2010
Hoje tem lançamento de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial), novo livro de Sergio Rodrigues, na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572), às 19h. O autor narra o conto “Virtual” sobre desenho animado de Leon Vilhena no vídeo acima.
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9 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Na manhã do sábado da semana anterior, peguei um ônibus com o caçula para o Largo do Machado atrás de uma bateria para seu relógio. No caminho, na Conde de Baependi, quase esquina de Tavares Lira, fotografei a barraca (dupla) do camelô que, há muitos anos, vende ali miniaturas de animais. Dinossauros, insetos, bichos de fazenda… Uma verdadeira arca de Noé. Mais adiante, na Machado de Assis, entramos na loja de um relojoeiro – uma raridade nesses tempos em que, cada vez mais, se substitui as coisas em vez de consertá-las; especialmente relógios, vendidos por trocados em qualquer esquina. Saindo dali, passamos pela feira no Largo do Machado, onde registrei almofadas listradas, combinando o toldo da barraca em que eram vendidas. leia mais…
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8 de março de 2010

Não é de hoje que se fala sobre as mensagens subliminares e deseducativas disseminadas pelos perigosos Walt Disney, Stan Lee e Maurício de Souza. Por isso, esta semana, nosso Arnaldo Branco esbanja erudição, recorrendo a Seinfeld, Cebolinha e Flaubert para mostrar o que é que os quadrinhos não têm.
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8 de março de 2010

Por Luiz Henriques
Se Zé do Caixão adaptasse “Alice no País das Maravilhas” ia ser alguma coisa mais ou menos como Henry Darger. Os dois são exemplos de brilhantes - e chocantes - de artistas primitivos cujas obsessões transcendem simples sintomas de psicose ou outros distúrbios psicológicos para se tornarem arquétipos de nossos mais profundos medos e desejos, aqueles enterrados lááááááá embaixo sob toneladas de socialização. José Mojica Marins, apresentador de talk-show, colecionador de quadrinhos, casado várias vezes, grande vendedor de si mesmo, conseguiu transformar suas manias em meio de sustento, mas Henry Darger (1892-1973), faxineiro praticamente a vida inteira, morando num quarto em Chicago, laboriosamente preparando sua saga de mais de 15 mil páginas e centenas de ilustrações ricamente coloridas apenas para seus olhos e de ninguém mais, nunca conseguiu botar sua expressão artística para trabalhar pra ele, muito pelo contrário.

Já a menção a “Alice no País das Maravilhas” é pela óbvia pedofilia sublimada em expressão artística num bizarro mundo alternativo. Darger não era um letrado clérigo fotógrafo e matemático; na verdade seu conhecimento de arte era virtualmente nulo, afora a da cultura de massa. Aos 8 anos, após a morte da mãe, foi admitido num orfanato católico, sendo transferido para um sanatório depois de diagnosticado como masturbador. Fugiu aos 16 anos, alistou-se no exército e passou o resto da vida trabalhando como faxineiro, lavador de pratos e afins. Aos 24 anos começou a escrever o que se tornaria um trabalho de seis décadas. Darger teve um único amigo um pouco mais íntimo, assistia à missa compulsivamente e era tímido e calado. Apenas às portas da morte, quando seu senhorio abriu seu quarto, é que o mundo tomou conhecimento de sua obra. A partir dela, foi diagnosticado desde psicopata assassino enrustido a esquizofrênico, mas todos os relatos de gente que o conheceu indicam que ele, como o Marins, a despeito de diversos problemas, tinha controle sobre sua vida. leia mais…
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7 de março de 2010
Monterey Pop Festival, junho de 1967. Ele sola com a guitarra nas costas e toca com os dentes, na apresentação que o consagraria de vez junto ao grande público americano. Mas quase ninguém repara na letra da canção:
- E aí, Zé, onde é que cê vai com essa arma?
- Eu vou dar um tiro na minha mulher. Ela tá me corneando com outro cara!
Essa conhecida música folk americana, de autoria controversa, já fora gravada por outros artistas, antes do nosso James Marshall transformá-la num ícone do rock. Seu tema é recorrente no sertanejo, nos boleros, nas cantigas medievais… Até o ministro Gil bebeu dessa fonte.
“Hey Joe” foi, ainda, a música com que o mesmo Hendrix encerrou outro festival, o de Woodstock. Mas décadas depois do maestro da guitarra ter partido, certos caras continuam achando natural meter bala e porrada nas cachorras, desde que por uma boa razão, é claro. Do mesmo modo, como dizia Simone de Beauvoir, uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher… com muita localizada, botox, wellatone e silicone. Pelo menos para as mais pops old ladies da Era de Aquário, a emancipação se conquista com a bunda mais marombada da avenida, ou com um boquete embaixo do edredon platinado. Desde já, parabéns a todas pelo dia de amanhã.
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6 de março de 2010

Por Fernando Barreiros
Jarbas pegou o cacho de uvas e começou seu discurso ligeiramente esquizofrênico:
- Nós comemos filhotes.
- Filhotecídio? Do que você tá falando? - Perguntou Jonas, ainda olhando fixamente para o teto.
Botou o cacho na cara de Jonas, apontando para aquele amontoado de uvas, e disse “Fruto, filhote. A uva é filhote do cacho…” Ambos encararam o cacho, porém, Jarbas o encarou como um motoqueiro bêbado querendo arrumar briga, os olhos arregalados e sem senso de direção, talvez? leia mais…
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5 de março de 2010

Por João Moraes
O gato amarelinho, vivo, mínimo. O cérebro neblinado, condescendente, generoso, ébrio. Não deu outra: peguei o animalzinho pelo cangote, gesto que o fez assumir a posição reveladora de sua pronunciada barriga de felino bebê. Subi as escadas batendo pelas paredes caracachentas, pintadas de verde água. Quem tava n’água era eu, após quantidade considerável de Caninha da Roça e outros alteradores pouco mais nobres do que essa deplorável água (mais uma vez a água)ardente.
Travei violenta luta corpo a corpo com as fechaduras, quase desistindo após a terceira volta na Papaiz renitente. Até que lembrei: a bolinha prazima, a bolinha tem que vicar prazima.
Abriu.
Passo pela microentrada do apartamento, ancorado no longíquo oceano de Bonsucesso, Avenida Bruxelas, 73, 301. A samambaia ressecada me agarra pelos cabelos, aperto o gato, ele mia. Faço a curva, entro na sala e desabo no sofá repleto de almofadas sobre o colchão de capa verde estampada, ano após ano seviciada noites adentro por corpos melados de álcool e algum sexo.
Dividia o apartamento com o imponderável Zé José, então protagonista, na “Tribuna da Imprensa”, de implacáveis críticas musicais que vitimaram em especial um certo gordo Ed e o lupino roqueiro, avec ou sem a menor elegance. Éramos sócios cotistas de um certo mineiro que vendia angu na saída da estação. Por sobre a gororoba amarela uma concha gigante cheia de rins, coração, fígado e pulmões de porco. Quase toda noite batíamos aquele pratão e depois levávamos outro tanto para o caso de súbita fome alvoroçar as barrigas. leia mais…
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